quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

"A criança e o hospital - Estudo dos cuidados hospitalares na Região Norte", de Sílvia Álvares, Pedro Lopes Ferreira e Octávio Cunha

Como evoluiu a saúde da criança ao longo dos tempos? E, particularmente, em Portugal? De que modo são prestados os cuidados de saúde à criança no hospital e como é feita a articulação de cuidados e a intersectorial? Qual o envolvimento da comunidade, da criança e da família na concepção dos serviços de saúde? Este livro pretende responder a estas questões e contribuir para um melhor conhecimento da realidade da assistência hospitalar pediátrica na região Norte do País.
Quer também transmitir a mensagem de que os serviços pediátricos devem estar centrados na criança e na família e adaptados de modo a prestarem os melhores cuidados ao longo do percurso do doente, considerando a idade, o desenvolvimento da criança e as suas necessidades específicas.
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APRECIAÇÃO CRÍTICA:

"A minha bebé era a mais bonita da UCIN… Não eram apenas as campainhas e alarmes, as luzes sempre acesas, a falta de ar puro, os cheiros, a visão de todos os outros corpos muito pequenos e indefesos, que me faziam sentir perdida, tão sem controlo, receosa… Era pedirem-me para ser lúcida, tomar decisões sérias e com consequências, baseadas nas novas informações que os médicos obtinham e nos transmitiam. Ouvi, como numa má ligação telefónica ou numa televisão sem imagem nítida, algumas palavras, mas compreendi só parte do que ouvi…" (Marianne Rogoff, em "Silvie´s life")

Falar de "A criança e o hospital" significa, como no testemunho desta mãe, muito mais do que a caracterização de um serviço de pediatria. Envolve espaços e recursos mas também comunicação e cumplicidade com a criança, o adolescente e a família.
Ler o "Estudo dos cuidados hospitalares pediátricos na Região Norte" foi, para mim, uma (re)aprendizagem. Tem uma dimensão que ultrapassa a regional, pois junta o rigor estatístico à percepção humana, que deve ter quem cuida de crianças e de adolescentes, e uma reflexão final que integra propostas possíveis, as quais permitirão melhorar a prestação de cuidados hospitalares.
A evolução da saúde materna e infantil, em Portugal, é uma história de sucesso. É o resultado de factores múltiplos, sociais e económicos, mas também da vontade política de intervir nesta área. A nomeação da primeira Comissão Nacional de Saúde Materno-Infantil e o desenvolvimento do programa nacional de assistência partilhada à grávida, ao recém-nascido, à criança e ao adolescente condicionaram ganhos inequívocos e uma queda progressiva das taxas de mortalidade materna, perinatal e infantil, mais acentuada do que na maioria dos países da União Europeia. No entanto, nada seria mais grave do que a convicção de que, ao ultrapassar as metas traçadas, se pode manter o que se conseguiu sem grandes sobressaltos.
Se, por um lado, a sustentabilidade exige um esforço continuado, por outro, surgem novos desafios em saúde infantil, sob o ponto de vista social, como os inerentes às famílias em situação de exclusão social ou as situações de maus tratos, como novas patologias emergentes, como a obesidade, a depressão infantil, a doença crónica... Em suma, crianças e adolescentes com necessidades especiais.A saúde infantil faz-se nos centros de saúde pelo médico de família e pela enfermeira de saúde infantil e nos serviços hospitalares de pediatria. São estes o objecto do presente trabalho, no qual se faz uma ampla revisão das instalações, do equipamento, dos recursos humanos e de outros aspectos do atendimento, além das patologias mais frequentes.Por definição, um serviço de pediatria é um espaço amigo da criança, onde se privilegia o atendimento em ambulatório e se prestam cuidados hospitalares eficientes, seguros e apropriados à criança, ao adolescente e à família, por profissionais qualificados com conhecimentos e desempenho em saúde infantil.
É o espírito deste estudo, mas vale a pena realçar alguns aspectos aqui considerados. A admissão de uma criança no hospital só deve realizar-se quando os cuidados necessários à sua doença não possam ser prestados em casa, em consulta externa ou em hospital de dia. O internamento para a criança é um castigo. Deixa a sua casa, os seus brinquedos e o ambiente que conhece, indo para o desconhecido, muitas vezes hostil. Poucos serviços de pediatria da Região Norte têm hospitais de dia que permitam, por exemplo, a administração terapêutica de antibiótico endovenoso sem a criança pernoitar no hospital. Este aspecto tem de ser melhorado.
Quanto à idade limite de atendimento, é referida uma média de 13 anos no serviço de urgência, o que é inaceitável. Essa média é de 16 anos nas consultas, o que pode ser consequência do seguimento mais prolongado de crianças com doença crónica. Os adolescentes devem ser tratados e internados em pediatria, pelo que é inadiável avançar com o atendimento até aos 18 anos. A este respeito, a ARS Norte é exemplar, pois foram publicadas normas recentes que exigem o alargamento da idade de atendimento, de forma gradual, nos próximos anos.
Também é essencial a discussão da política de recursos humanos, sabendo que há um envelhecimento dos médicos e que a feminização global é ainda mais acentuada nesta especialidade, e que os novos modelos de gestão propõem contenção quanto à colocação de enfermeiros.
Numa reunião de medicina perinatal em Glasgow, ouvi classificar os cuidados médicos como espasmódicos e os cuidados de enfermagem como continuados, e achei que era a imagem real do médico, sempre apressado e interessado em diagnosticar e prescrever, e a da(o) enfermeira(o) com uma presença real junto do doente. Por isso, a "ratio" de enfermagem deve ter em consideração não só o número de crianças e adolescentes internados mas também o tipo de patologia e a população, assim como a especialização em saúde infantil.
Outros aspectos são igualmente assinalados como passíveis de evoluir e de melhorar: poucos serviços com educadora(e)s e psicólogos, e menor investimento na articulação com os cuidados primários, com perda de vitalidade das unidades coordenadoras funcionais, que devem manter o seu papel fundamental.
A reflexão local é indispensável já que há diferenças de região para região, assim como entre as populações e nos cuidados prestados. Este trabalho, desenvolvido na Região Norte, é essencial para quem tem funções de decisão e para os diversos profissionais, e também para as crianças e respectivas famílias.
O que existe? Como funciona e como se pode melhorar, para que – se a situação clínica obrigar ao internamento – as crianças se sintam bem no hospital? "(...) És tu que mandas aqui? Pedi ao meu pai e ele já disse que sim... Posso ficar cá até Setembro..." (6 anos, internado no HFF, Junho de 1997)
Maria do Céu Soares Machado (pediatra, Alta Comissária da Saúde)
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FICHA TÉCNICA:
Livro: A criança e o hospital – Estudo dos cuidados hospitalares pediátricos na Região Norte
Autor: Sílvia Álvares, Pedro Lopes Ferreira e Octávio Cunha (com prefácio de Maria do Céu Soares Machado)
Capa: Ilustração de Miguel Eufrásia
Editora:
 Mar da Palavra - Edições, Lda.
Colecção: Qualidade de Vida (N.º 3)
PVP:
 17,67 €
N.º de páginas:
 142
Formato:
 14,5 x 21,0 cm
ISBN:
 972-8910-28-0 (EAN: 978-972-8910-28-0)
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