sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Marginalidades e alguns poemas de amor", de Joaquim Manuel Pinto Serra (com fotografia de Maria das Dores Borges de Sousa)


Com esta sua décima primeira obra publicada, Joaquim Manuel Pinto Serra regressa às origens da sua escrita e da marca poética, desta vez assumindo um tom coloquial, ao jeito de quem conversa com os leitores. E mesmo tratando-se de uma poesia intimista, a linguagem literária do escritor manifesta, de forma peculiar, um elevado valor expressivo e harmonia musical, sendo, ao mesmo tempo, de fácil compreensão e de agradável leitura. Isto deve-se, sem dúvida, à paciência, à persistência e também ao engenho com que o poeta trabalha a palavra.
Como é conhecido, na linguagem, cada substantivo, adjectivo, advérbio ou forma verbal tem dois significados: o pessoal (que é único, pois pertence à pessoa que usa a palavra) e o significado comum (sendo, por isso, partilhado com as outras pessoas).
Nesta conformidade, o poeta Joaquim Manuel Pinto Serra sabe cativar o outro – ou seja, o leitor – porque, não obstante a estilística (com as suas figuras de sintaxe, de pensamento e as suas imagens literárias), preserva as quatro qualidades fundamentais da linguagem: a clareza, a correcção, a pureza e a harmonia.
Assim, a obra “Marginalidades e alguns poemas de amor” garante uma intenção estética, mas também coloca em jogo os recursos de que o escritor se serve para expressar o que lhe vai na alma e no pensamento, além das suas reacções emotivas perante a vida e o próprio sentido da vida, naturalmente polissémica e cheia de surpresas, como quem desfolha um livro de poesia. A sociedade e a linguagem são, indiscutivelmente, os primeiros produtos da cultura, sendo esta a verdadeira extensão de cada um de nós, enquanto homens e mulheres que agem, fazem e sabem. E o escritor Joaquim Manuel Pinto Serra, que tem experimentado os mais diversos géneros literários, incluindo a escrita para um público juvenil, arroga-se como um co-responsável cultural. Daí a sua ansiedade e a sua perplexidade de cada vez que publica um livro, que é o suporte material do saber e da imortalidade, da utopia e da loucura, do disfarce e da aparência, do sonho e da ilusão, da solidão e da intranquilidade e também do segredo e da ausência – temas que dão significado às seis partes que organizam a obra “Marginalidades e alguns poemas de amor”
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PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO:
O livro Marginalidades e alguns poemas de amor, de Joaquim Manuel Pinto Serra, é constituído por seis conjuntos de sete poemas cada um – conjuntos esses que apresentam títulos em dísticos começados com a preposição de, à maneira dos antigos autores clássicos, além de terem as segundas linhas ou versos mais longos: e.g. “do saber / e da imortalidade”, “da utopia / e da loucura”, “do sonho / e da ilusão”, “da solidão / e da intranquilidade”.
Trata-se de um livro que vive da nostalgia de um amor que é ausência e que a memória revive e desfia – memória que tanto relevo tinha entre os antigos Gregos, a ponto de considerarem ter sido da união de Mnemósine (a Memória) com Zeus, o próprio pai dos homens e dos deuses, que nasceram as Musas, ou seja, a poesia. E a sublinhar essa sensação de perda e de vazio, na colectânea, são frequentes termos como memória, solidão, ausência, espera, saudade. Repare-se neste dístico do poema da página 18: cobrem-nos de sabedoria estas paredes vaziase nelas existem fantasmas de solidão e de espantoou nestes versos-estrofe, um a concluir o poema 3 (pág. 19) e o outro como penúltima estrofe da composição 4 (pág. 20), respectivamente: “e desassossegos de longas esperas” e “um olhar ausente”. Ou pode ser “e o segredo intransponível de uma ruga” ou “um oásis a morar em nós / na dor oculta” (pág. 22). Aliás – o que não deixa de ser significativo –, solidão e ausência fazem parte do título das secções 5 “da solidão / e da intranquilidade”) e 6 (“do segredo / e da ausência”) do livro. Pode ser bom exemplo dessa ausência o poema da página 20 que alude à folha em branco em que se escreve, onde as palavras “são dicionários de espuma e de saber”. Apesar disso, nessa escrita “mudam-se emoções” e os afectos, um mundo em movimento que é mentira, “um olhar ausente / uma dor infinda”. Por sistema, os poemas começam por estrofes de dois ou mais versos (três ou até quatro) e terminam quase sempre por estrofes de um único verso, também quase sempre curto, de uma ou duas palavras apenas. Apetece chamar-lhe conclusão sincopada, como soluço de quem se sente cansado. Pode ser um bom exemplo a primeira composição do livro (pág. 17), de seis estrofes, que se inicia com três estrofes de três versos, passa por uma de dois e apresenta apenas um em cada nas duas finais.Muito raros são os poemas que terminam por verso extenso. E curioso se torna verificar que tal acontece com o último da colectânea, em que impera a memória da ausência e conclui com o verso “esperando em tons de azul o teu regresso”, verso longo que aparenta derradeiro esforço de esperança, qual náufrago que tenta última braçada. Mais uma ou duas observações sobre aspectos formais do livro – que, no entanto, podem ter relação com o ritmo interior do autor. Por exemplo, é curioso – e talvez até significativo – que os poemas, com frequência, aparecem constituídos por sete estrofes. Há mesmo uma secção, a quarta, com o título “do sonho / e da ilusão”, em que os poemas ímpares são formados por sete estrofes e os pares por seis. Trata-se de um ritmo heptástico que é próprio do autor – aliás, integrado no filão a que Trindade Coelho chamou “O Senhor Sete”. Também poderíamos apelidar de hebdomadário, porque tem muito a ver com o suceder semanal do tempo, embora Joaquim Manuel Pinto Serra me tenha confessado que não procurara deliberadamente esse número de poemas e de estrofes.
Se o livro "Marginalidades e alguns poemas de amor" se impõe por certas características formais, deixa ainda mais a sensação geral de transitoriedade, de fragilidade, de precariedade. Tudo flui e passa. E tal nos aparece em poemas, como o 2 da secção 1 (pág. 18), uma composição bem conseguida, cuja conclusão pela palavra vento, em estrofe isolada, é feliz e deixa a mensagem em suspenso, como que a pairar. Ou ainda mais no poema 3 da secção que tem por título “do disfarce / e da aparência” (pág. 35), em que “somos barcos que se movem ao sabor de um rio / onde naufragam”, em que cada um está de passagem a procurar “onde o mar acaba e a lágrima corre”, e uma lágrima que está “apenas em viagem / para uma outra margem”.
Essa fragilidade está evidente na última composição da primeira secção (pág. 23), em um conseguido poema em que as coisas ditas, boas e agradáveis, são trazidas pelo tempo, voláteis. Nele paira a sensação de fragilidade, de algo efémero, com o final feliz de descanso extasiado na eternidade “a viver a magia imaculada / de um momento”.

José Ribeiro Ferreira
Coimbra, Páscoa de 2009
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FICHA TÉCNICA:
Livro: Marginalidades e alguns poemas de amor (apresentação de José Ribeiro Ferreira)
Autor: Joaquim Manuel Pinto Serra
Fotografia (capa e interior): Maria das Dores Borges de Sousa
Editora: Mar da Palavra - Edições, Lda.
Colecção: Poemar (N.º 5)
PVP:12,72 €
N.º de páginas: 74
Formato: 13,0 x 19,0 cm
ISBN: 972-8910-38-9 (EAN: 978-972-8910-38-9)
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Registo de notícias e outras referências:
www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=99944
appoetas.blogs.sapo.pt/14032.html

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