sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"O fio das harpas", poesia de Fernando Miguel Bernardes

Este livro é, no fundamental, o resultado de uma recolha de antigos poemas, alguns mantidos inéditos por motivos vários, não de menos peso a acção da censura imposta antes de Abril de 1974; outros, poucos, conseguiram ao tempo sair à luz do dia devido a alguma distracção dos censores ante a persistência de inteligentes e compreensivos directores de jornais, revistas literárias e outras publicações. Dois ou três aqui incluídos foram recuperados recentemente, entre vasta documentação e textos avulsos, nos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo (obrigado, JM), manuscritos dessa época “confiscados” (entre aspas, que destes actos não havia autos) em buscas e apreensões diversas. Já em 1989, saiu o livro ReColagem, que albergava, entre outros, uma pequena colecção de títulos do presente volume. A estes foram acrescidos vários então não seleccionados, ou porque não encontrados, e uns poucos mais recentes. De qualquer dos modos, as datas que ostentam os localizam no tempo.Alguns dos poemas aqui incluídos, contemporâneos do movimento musical que integrava o que ficou tradicionalmente conhecido como novas baladas, ou canto de intervenção, foram musicados, declamados e cantados (em diversos casos com gravações em discos) por artistas como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Daniel, José Jorge Letria, José Niza, José Carlos Ary dos Santos e Samuel.
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FERNANDO MIGUEL BERNARDES
um Poeta vivo antes e depois de Abril
Na forma de intervenção pessoal de entender a literatura como a atitude de quem se serviu das palavras para denunciar e combater o poder injusto, porque desde os tempos da juventude não soube estar na vida indiferente ou alheado do que se passava em seu redor, Fernando Miguel Bernardes deseja com este livro recuperar os muitos poemas que ficaram nas gavetas ou não passaram aos olhares da Censura em tempo de outras clandestinidades e aqui aparecem datados de 1951 a 1999 e muitos são ainda cantados nas vozes de José Afonso ou de Adriano Correia de Oliveira:

No cimo da cana verde
voava a esperança e pousou…

No fio das harpas que se espalha pelos seus poemas, no que de mais dizível e visível percorre esta “arte poética” já revelada em livros como O Grilo e o seu Violão, Tudo Gira em Toda a Parte, ou ReColagem, Fernando Miguel Bernardes é uma voz que continua a afirmar-se na coerência dos valores que sempre defendeu e, sem dúvida, nos faz recuar às mais fundas raízes da nossa tradição lírica num tom poético melodioso e cantante de quem adoptou como divisa o que inscreve nestes versos:

Se poeta sou
Sei a quem o devo:
Ao povo a quem dou
Os versos que escrevo.

E assim o sentido poético de Fernando Miguel Bernardes uma vez mais se afirma em O Fio das Harpas como a voz singular e pessoal de um poeta de antes e depois de Abril ter chegado até nós ainda na memória de outros rios e lugares e na força da sua resistência e intervenção política.

Serafim Ferreira
Abril, 2009
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O AUTOR:
Fernando Miguel Bernardes nasceu em Gândara dos Olivais, Leiria. Frequentou as Universidades de Coimbra e Clássica de Lisboa.Como engenheiro geógrafo, e bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, fez uma pós-graduação em Cálculo Científico.
Docente do ensino superior, foi também técnico superior de Sistemas Informáticos, e director de departamento na Função Pública, na área da Cultura.
Co-fundador da Organização dos Trabalhadores Científicos, é sócio activo de instituições científicas e culturais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, com incidência na secção de Física Matemática e Cartografia, ou a Associação Portuguesa de Escritores, de cuja Direcção é membro efectivo.
Integra e coordena habitualmente júris de prémios literários de âmbito nacional e internacional.Antes do 25 de Abril, assumindo na prática posições coerentes com a sua ideologia, foi várias vezes preso, julgado e condenado, tendo cumprido as sucessivas penas em cadeias políticas de Coimbra, Porto, Lisboa e Caxias. Mais tarde, foi-lhe reconhecido, pela Assembleia da República, o “mérito excepcional da contribuição dada à defesa da Liberdade e da Democracia”.
Como seguimento da publicação dos seus livros para a infância e juventude, vem visitando escolas do Ensino Básico por todo o País, para, com as crianças, os pais e os professores, ler e comentar e dramatizar alguns dos seus textos, previamente explorados nas respectivas turmas.
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APRESENTAÇÃO DA OBRA POÉTICA "O fio das harpas", pelo Prof. Doutor José d´Encarnação, no Palácio Galveias (Biblioteca Municipal Central de Lisboa), em 27 de Maio de 2009:

Resisto a passar as páginas, antes de me consciencializar do que vou ler.
O Fio das Harpas.
Harpas contém ressonância antiga, límpida, a desdobrar-se em ondas sonoras pelo espaço. Não um espaço qualquer! Harpa requer recolhimento, em pequena sala aconchegada, em casebre de pedra nua perdido na encosta num aninhar de lareira, sombra vasta de árvore a acolher rebanho em hora de acarro – pois seja: que o tilintar da guizalhada não se compadece com o vibrar das suas cordas…
Fio – com fio se faz um tecido para aquecer mágoas e confortar rudezas; com fio se cortam maldades, se talham esconjuros… Por um fio se passa, se vive, se morre, se grita – que ele também são fios as nossas cordas vocais.
O Fio das Harpas promete, pois, sossego, sim, a maviosa envolvência; mas também o gume que não hesite em cortar!
Vamos ver!
São quase 200 páginas de caminho. Deixar-nos-emos embalar!Olá!... A caminhada promete – que por ali andou o lápis azul, a confiscação compulsiva. E vozes do nosso actual – e eterno! – descontentamento. Baladas. O Zeca, o Zé Jorge, o Adriano… Estamos, pois, em boa companhia! Recorda-se a velha casa e os anciãos que a encheram. Os companheiros de viagem – idos ou ainda presentes, perdidos nunca!
E cá está a árvore! As folhas são os fios das harpas que resistem, a cantar, mesmo que com vinagre insistam em lhes regar as raízes. Que elas sabem morrer de pé! E sempre haverá flores, mesmo que o chão seja sombrio! Sempre – porque nós, porque o poeta o quer!...
«Fico contente se versos faço», se para isso ainda tenho liberdade, pois, no mar, «eu vejo clamores pela paz». No mar, nos guindastes de aço, nas chaminés fumegantes, nos bancos das escolas… Canto a terra – não pelo bem que ela tenha, mas pelo que eu para ela sonho; canto o povo:

Se poeta sou
Sei a quem o devo

– estes são, seguramente, dois dos versos mais significativos de Fernando Bernardes, que acrescenta:

Ao povo a quem dou
Os versos que escrevo

Da sua vida rude
Colhi a poesia
Tentei quanto pude
Dar-lhe melodia

Assume-se o poeta como um arauto, um elo de ligação. Não está sozinho, não, porque o que escreve é dele e das gentes com quem lida e luta, das terras em que se situa e, livre, quer criar raízes. Há, pois, este diálogo sempre! Não se perde em filosofias, em rodriguinhos de estilo, não. Pão pão queijo queijo – mas sempre de uma forma esbelta e, se possível, cantada, ritmada, prenhe de melopeia...
Que se aprenda, que se baile, que se trauteie num ápice – porque apetece, qual rio que brinca por entre as pedras, pássaro que saltita de ramo em ramo, onda que desmaia na areia mas quer deixar rasto…
E todo o Universo é convocado para a sinfonia, num conluio amoroso que não é só o da pessoa amada, porque, aqui, amada é a mulher (sim), no lirismo a que não há poeta português que, algum dia, consiga escapar, mas são as gentes, os irmãos…

Apeia-se o rei e o trono
põe o pé ao pé do meu
tu comigo somos dois
quem ficou só já perdeu.

Se estou ao pé de ti
foge-me o tempo entre os dedos…
Se longe alongam-se os dias
como em prisão, nos segredos.

Esta noite choveu muito,
de manhã fui ver o mar
Esta noite amei-te tanto
Sereno fiquei – de te amar…

E, por falar em lirismo, sentir-se-ão bastas vezes os ecos das cantigas de amigo e de amor d’outrora e de sempre, que o poeta é trovador mesmo e sonha em ir de porta em porta, de corte em corte, de arraial em arraial, a dizer de sua justiça – «quero a paz do tempo conquistado» –, a colher cravos onde outrem teimou em semear abrolhos:

Amarga-me a boca
Do travo da vida
– minha voz tão solta
Onde foi perdida?

Menino de escola
Alegre e ridente
– onde foi perdida
Minha voz contente?

Ai flores, ai flores do verde pino
Se sabedes novas do meu amigo
Ai Deus i o é?
Ai flores ai flores do verde prado
SE sabedes novas do meu amado
Ai Deus i o é?

Uma delícia este ritmo de embalar:

vi-te vi-te verde
na pedra a cismar…

vermelho vermelho sangue…

No Inverno bato o queixo
– qualquer dia, qualquer dia!...
No Inverno aperto o cinto
– qualquer dia, qualquer dia!...

Irmão camponês, acredita: qualquer dia, qualquer dia. E esse dia virá! «Que também na lama do Nilo vicejam as flores de lótus»… Que «um Homem mesmo longe mete medo».
Ecos do nosso folclore, em que até a cana verde, algo de comezinho no nosso dia-a-dia actual – quem há aí que veja uma cana verde, que oiça o sussurrar do vento pelo canavial, que saiba, até, onde há canaviais?!... – até a cana verde é ponto de referência. Nela pousou a esperança, apesar do vento, ela aguentou-se lá. Por pouco tempo, parece, porque… pelo restolho se perdeu…
E a mulher dos farrapos mexia e remexia no caixote. Tirou meio pão duro, tirou pente velho, tirou uma flor.
Mirou-a, mirou-a e… sussurrou: «Bom dia!» – porque, nós queremos e proclamamos: «Hoje não há cifrões mas uma flor!»
E relemos a história do Fio de Água – tem Alentejo fronteiras, terras largas vista grande… Alguém hoje se admira que Fio de Água por lá ande?»
E ele há também por i poemas a partir de mote, quase à moda de além-Tejo:

Papão negro ave torva
Muito bonda o desatino
Vai-te embora em má hora!
Deixa dormir o menino…
Um soninho descansado.


Pronto, já li. Já saboreei. A longos haustos. Num comboio cheio de ir e vir Cascais – Cais do Sodré – Cascais. E continuei no autocarro e assentei-me no banco do meu jardim, que, junto às brancas orquídeas, aos antúrios bem vermelhos, com o Maio ao colo, ronronando embora, tinha de acabá-lo já. Sem tardança, que apetecia ler, ler… até final.
Acabei e apetece-me agora voltar atrás, a outras páginas que anotei para releitura serena.
Que linda a história do buraquinho onde o menino depositou pedras de sal, um pirilampo, suor e esperança, antes de adormecer. De manhã, nada nascera. A avó enganara-o na esperança e ele perguntou: mas não há aí uns senhores que põem sal, pirilampos.... e não se preocupam nem com o suor nem com a esperança e… a coisa resulta?… Como é, avó?
Essa flor não nasceu, menino. Nem outras.
«Renascer uma rosa, amigo Urbano, quando não há Primavera há tanto ano!...»
E sabes porquê? Porque sob as frondosas faias se treinam cavalos, homens, cães-polícias, enquanto Pedro, na sua boa fé, vai construindo prédios… E quando soar a palavra pão, virão tiros, pegadas, baba – confusão!
Porque… «Há o que diz que sim e diz que não / conforme a meia cara com que fala» e o importante senhor «viu escadas subiu escadas / ficou ao nível das gruas / e ao nível dos cifrões / Não ao nível das pessoas», embora alicie: «Come o milho, passarinho, vem cá abaixo à minha mão»; mas… «o passarinho tem asas: antes morto que no chão!»
Vem o título do livro de um poema, breve como o são quase todos, de que me prendeu, de modo especial, a 1.ª quadra, numa invocação às «doces aves» que – com esse fio das harpas – vão tecendo o tempo… São as andorinhas da capa, em revoada no azulejo, sedentas de insectos, em algazarra, não são, Fernando? Primavera após Primavera… Este, um poema de 1980, onde, se calhar, carecia haver em cima, ao jeito de José Gomes Ferreira, uma breve frase, em itálico, a contar do motivo da inspiração e da frase, porque, de seguida, há estranhas perguntas à mãe: sobre esse mesmo tempo, sobre açucenas por regar, sobre penas que se revivem. Este tempo que voa… tem doçuras, tem flores imaculadas, tem penas de doer…
E quase nos apetece ficar no rochedo, à beira-mar, ouvindo o piar das aves, o marulhar das ondas… e as açucenas por regar…
Poeta, que queres tu? Que o tempo não voe, que as flores nunca murchem, que as penas desapareçam? Não, poeta! Estás a querer o impossível, ainda que amor de mãe tudo suplante e saiba inventar melopeias e te ofereça os perfumes que inebriam as penas!...

Disse amor e fez o gesto
Disse amor e deu a mão

Este é um daqueles momentos a eternizar, Fernando! E que bonito que é!

Disse amor e pensou homem
disse homem pensou irmão.

Nisto nos levam a palma os poetas, quando, com palavras simples, são do tamanho do mundo!
Termina-se na «construção por vir». Diria eu, a construção que se faz, que se quer fazer, que urge fazer! Para que, na realidade, haja no topo as flores e, espraiando a vista por zimbórios e terraços, de uma vez por todas, dali se veja luz, muita luz e nunca, nunca, a terrível mordaça que silencia, que impõe negras vendas nos olhos, que castiga o grito e ameaça a revolta!
Que, afinal, Amigos, é de fraternidade a mensagem, fraternidade em construção, uma construção difícil, sim, mas tremendamente consoladora:

Pedra sobre pedra
a mão
o muro abraça!

Abracemo-lo!
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FICHA TÉCNICA:
Livro: O fio das harpas
Autor: Fernando Miguel Bernardes
Capa: Arranjo fotográfico de João Nuno (com base em imagem de “Aves de Portugal”, de Raul Serra Guedes e Luís Costa)
Editora: Mar da Palavra - Edições, Lda.
PVP:16,15 €
N.º de páginas: 160
Formato: 14,8 x 21,0 cm
ISBN: 972-8910-39-6 (EAN: 978-972-8910-39-6)

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Registo de notícias e outras referências:
http://www.e-cultura.pt/AgendaCulturalDisplay.aspx?ID=22668&print=1
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:DVxAE0Eo1x4J:www.cm-loures.pt/fonewsdetail.asp%3FiAno%3D2010%26iMes%3D03%26iSearch%3DPesquisar%26iTexto%3D%26id%3D2346%26stage%3D2+%22O+fio+das+harpas%22&cd=11&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pthttp://nasfaldasdaserra.blogspot.com/2009/05/fernando-miguel-bernardes-lanca-o-fio.html
http://www.cm-loures.pt/Agenda_mar10_DPoesia.asp
http://www.avante.pt/pt/1856/assembleiadarepublica/29548/?tpl=395
http://www.livapolo.pt/livro/detalhe/fio-das-harpas-o/76116
http://www.avante.pt/pt/2187/argumentos/137573/

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