domingo, 30 de setembro de 2012

Desejo de mar


(…) Era assim, um estranho desejo de mar, uma vontade sentida de refúgio uterino. E eu sabia que estava perto de alguma coisa íntima, divina, talvez do primeiro toque de magia da vida. E deslocava-me, de passos repousados, em gravitação pelo encantamento do oceano, planície profunda de resíduos ocultos. (…)

In “Pelo lado do invisível”, de Luís Bizarro Borges, colecção “Instantes de leitura” (n.º 43), Campo das Letras – Editores, SA, Porto, Maio de 2003 (1.ª edição)

sábado, 29 de setembro de 2012

O verdadeiro pão tem alegria!



















O verdadeiro pão tem alegria!
Tem o saibo da terra e a luz do sol!
E é de todos!
E há-de acalmar a mão,
se é realmente o pão
da pele, dos ossos e do coração!

E depois dele há-de ficar no sangue
um desejo sem fim de amar a vida!
Mas amá-la na seiva, no mais fundo,
no mais branco do mundo,
lá onde ela se estrema, recolhida!

Há-de correr nas veias
uma onda de paz.
E as horas, depois,
longas e fundas como o azul do mar,
hão-de ser puras e de cada um.
A chorar,
a sorrir,
cada qual há-de poder passar,
e chegar,
se tinha verdadeiramente onde ir!

Pelas noites mais vastas e desertas,
quando se gera orvalho e nascem flores,
– Os rouxinóis que fazem, Senhor Homem?
Comem?
– Não: cantam os seus amores!

Miguel Torga, in “Lamentação”, Coimbra, 1970 (3.ª edição)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"O outro mundo em nós", colectânea de contos de Joaquim Manuel Pinto Serra

O outro mundo em nós”, da autoria de Joaquim Manuel Pinto Serra, é a nona obra do autor e completa a trilogia ficcional, na modalidade de conto, de que fazem parte os livros “Estas aparências que nos doem” e “Os novíssimos afectos”, com a chancela da editora Mar da Palavra. A presente obra surge dez meses após a publicação do romance “As palavras sensuais da nossa ausência” (em Fevereiro de 2007).








(…) Desde nova que a morte a atemorizava, sobretudo pelas incertezas de que ela se rodeava: o Inferno de que lhe falavam, o Céu que não entendia, o Purgatório desconhecido que não era carne nem peixe. Tudo isso a intrigara quando andara na catequese. Era agora o imaginário a pressioná-la na solidão dos seus pensamentos finais... Sozinha, casada apenas durante alguns meses, procurara na religião o significado da morte, mas ninguém a convencera do que viria depois. Por isso, não queria morrer... Mas a dúvida persistia em tudo o que ela fazia e em tudo o que ela pensava: estaria mesmo viva ou já teria morrido?
Esse limiar absurdo, tão nítido para toda a gente, mas para ela imperceptível, porventura inexistente, deixava-a tão indecisa que a passagem imaginária se transformara em pesadelo nos seus próprios pensamentos. Com aquela cara de múmia, observada ao espelho, poderia já estar morta e ter ultrapassado o patamar sem se ter apercebido; teria mudado de margem, sem sentir a travessia, entrando num outro mundo com a naturalidade própria de quem vive por viver...
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O AUTOR:
Algarvio, Joaquim Manuel Pinto Serra nasceu em Loulé, onde fez a instrução primária (na antiga Escola Conde de Ferreira) e os dois primeiros ciclos do ensino liceal (no extinto Colégio Infante D. Henrique). Concluiu os estudos secundários em Faro, no então liceu dessa cidade. Em Coimbra, licenciou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria. Como médico, fez o internato geral nos Hospitais da Universidade de Coimbra e trabalhou no Centro de Saúde de Santa Clara (Coimbra).
Na qualidade de psiquiatra, foi assistente hospitalar no Hospital Psiquiátrico de Sobral Cid (Serviço de Inimputáveis Perigosos do Ministério da Justiça) e chefe de serviço no Centro Psiquiátrico de Recuperação de Arnes, de que foi director (de 1984 a 1996).Exerceu a sua especialidade em Tomar (Centro de Saúde e consultório particular), durante quinze anos. Actualmente, é aposentado da carreira hospitalar e, como profissional liberal, continua a trabalhar em psiquiatria.
É membro de várias associações artísticas e literárias e integra o Conselho Fiscal da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos (SOPEAM).
Publicou cinco livros de poesia e três de ficção. A nona obra do autor – “O outro mundo em nós” – complementa a trilogia, na modalidade de conto, de que fazem parte “Estas aparências que nos doem” e “Os novíssimos afectos”.
Escreveu as obras poéticas “As mãos e o silêncio” (Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres – 1998), “Mágoas de solidão e desassossego” (1.ª Menção Honrosa do Prémio António Patrício da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos – 1998), “Cinco canções de amor para violino e orquestra” (Prémio António Patrício da SOPEAM – 2000), “De passagem para o outro lado da ternura” (Menção Honrosa do Concurso Arte na Medicina da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos – 2003) e “Pelas margens da serenidade” (Prémio António Patrício da SOPEAM, em 2004), editado em Novembro de 2005, com a chancela da Mar da Palavra. É autor das colectâneas “Estas aparências que nos doem” (1.ª Menção Honrosa do Concurso Nacional de Conto Manuel da Fonseca – 2004) e “Os novíssimos afectos” (Menção Honrosa do Prémio Literário Paul Harris – 2005), também editados pela Mar da Palavra (Dezembro de 2004 e Maio de 2006). A presente obra – “O outro mundo em nós” – completa a trilogia ficcional na modalidade de conto, dez meses após a publicação do romance “As palavras sensuais da nossa ausência” (em Fevereiro de 2007).Está representado na obra “Louvor a Cascais – Antologia em prosa e poética do passado ao presente” (2003).
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FICHA TÉCNICA:
Livro: O outro mundo em nós
Autor: Joaquim Manuel Pinto Serra
Capa: Pintura a óleo “Bailado”, de Maria Luísa Reimbau
Editora:
 Mar da Palavra - Edições, Lda.
Colecção: Cais da Ficção (N.º 5)
PVP:
 17,67 €
N.º de páginas:
 200
Formato:
 13,0 x 19,0 cm
ISBN:
 972-8910-31-0 (EAN: 978-972-8910-31-0)

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Registo de notícias e outras referências:

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

«Tabacaria», de Álvaro de Campos



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede
                                                                                                  sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas
                                                                                            como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E
saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

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Fernando Pessoa dito por João Villaret:
http://www.youtube.com/watch?v=NkTQAFmAKvQ&feature=share