sábado, 28 de dezembro de 2013

Duas faces da saúde - Relatório de Primavera 2013


Uma das principais funções do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, ao longo dos seus 14 anos de existência é o de constituir-se como memória dos desafios da saúde e da evolução do sistema de saúde português. No decurso dos últimos quatro anos, o OPSS tem chamado a atenção para a crise e seus impactos na saúde – através de quatro Relatórios de Primavera – mas continua a não existir em Portugal um diagnóstico oficial sobre a matéria a partir do qual se organize no terreno uma resposta adequada aos efeitos da crise financeira, económica e social na saúde.

O Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) cumpre, pelo décimo quarto ano consecutivo, a sua missão de analisar, de forma independente e objectiva, a evolução do sistema de saúde português e os factores que a determinam.
Ao longo dos anos, o OPSS tem-se dedicado ao estudo de uma pluralidade de temáticas no âmbito do Sistema de Saúde português. De entre elas, podem destacar-se: a boa governação, o acesso aos cuidados de saúde, os cuidados de saúde primários, as parcerias público-privadas, a política do medicamento, o financiamento e contratualização, o planeamento e estratégias locais de saúde e, os sistemas e plataformas de informação.
Com o objectivo de melhorar a sua capacidade em vários domínios, designadamente na organização e gestão do conhecimento, o OPSS decidiu, este ano, partir para um processo de análise da responsabilidade de vários núcleos investigacionais constituídos por uma rede de observadores orientados para o desenvolvimento de temáticas específicas. Esses núcleos, uns mais ligados à investigação académica e outros mais próximos do terreno, com prestígio interpares, trabalhando de forma articulada, colaboraram, cedendo ao OPSS a melhor evidência possível na qual assenta o desenvolvimento deste Relatório.
Para além do trabalho destes núcleos contou-se ainda com estudos desenvolvidos em áreas acordadas com o OPSS, todas elas alicerçadas em grupos de investigação ligados às parcerias já existentes entre a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), o Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra (CEISUC) e a Universidade de Évora e, ainda outras como a Faculdade de Farmácia, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e o Observatório Europeu dos Sistemas de Saúde.
Tendo ocorrido um conjunto de situações que podem afectar negativamente a sustentabilidade política do SNS: sinais de uma agenda não-universalista; ausência de uma linha clara de orientação no investimento em saúde e no desenvolvimento organizacional do SNS; desmotivação dos profissionais e insatisfação de uma população mais vulnerável com a resposta do SNS, o OPSS escolheu este ano como título para o Relatório de Primavera (RP) 2013 “Duas faces da saúde”.
Este relatório procura mostrar a situação que se vive neste momento de grave crise, onde parecem coexistir dois mundos – o oficial, dos poderes, onde, de acordo com a leitura formal, as coisas vão mais ou menos bem, previsivelmente melhorando a curto prazo, mal-grado os cortes orçamentais superiores ao exigido pela Troika e a ausência de estratégia de resposta às consequências da crise na saúde da população; e um outro, o da experiência real das pessoas, em que temos empobrecimento, desemprego crescente, diminuição dos factores de coesão social, e uma considerável descrença em relação ao presente e também ao futuro, com todas as consequências previsíveis sobre a saúde. Perante esta clivagem parece haver uma parte do SNS que se está a degradar, mas há ainda uma outra em que a resiliência domina. Até quando?
Esta preocupante dúvida necessita de uma obrigatória reflexão que nos deverá conduzir a um SNS renovado, melhorado, modernizado e com futuro.

Coordenação: Ana Escoval, Manuel Lopes e Pedro Lopes Ferreira
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Contribuíram para a realização deste Relatório:
COORDENAÇÃO:
Ana Escoval
Manuel Lopes
Pedro Lopes Ferreira
EQUIPA TÉCNICA:
Filipe Rocha
João Marques Figueira
João Pedro Jesus
INVESTIGADORES:
Ana Escoval
Ana Isabel Santos
Ana Rita Pedro
Ana Tito Lívio
Bárbara Gomes
Celeste Gonçalves
Cristina Furtado
Fátima Bragança
Filipa Alves da Costa
Filipa Duarte Ramos
Inês Teixeira
João Basílio
José Aranda da Silva
José Cabrita
Manuel Lopes
Marta Pereira da Costa
Patrícia Antunes
Patrícia Barbosa
Pedro Beja Afonso
Pedro Lopes Ferreira
Raquel Almeida Chantre
Rute Simões Ribeiro
Sérgio Vilão
Suzete Gonçalves
Tiago Rodrigues
Vanessa Nicolau
Vera Sarmento
Vítor Raposo
COLABORAÇÃO ESPECIAL:
Alcindo Maciel Barbosa
Alexandra Fernandes
Ana Dinis
Ana Tato Aguiar
António Dias Alves
António Hipólito de Aguiar
Carlos Gouveia Pinto
Carolina Teixeira
Dulce Seabra
Edna Gonçalves
Eugénio Cordeiro
Fernanda Santos
Francisco Ramos
Henrique Botelho
Inês Guerreiro
Isabel Andrade
João Rodrigues
Joaquim Fidalgo de Freitas
José Poças
Manuel Luís Capelas
Manuela Felício
Margarida Eiras
Miguel Narigão
Olívia Matos
Rui Monteiro
Rui Tato Marinho
Teodoro Briz
Vítor Ramos
ORGANIZAÇÔES QUE FORNECERAM DADOS ESSENCIAIS:
Administração Central do Sistema de Saúde, I.P.
Associação de Farmácias de Portugal
Associação Nacional de Farmácias
Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos
Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. – INFARMED
Comissão Europeia
Direcção-Geral da Saúde
Fundação Calouste Gulbenkian
IMS Health
Instituto Nacional de Estatística

INVESTIGADORES FUNDADORES DO OPSS:
Ana Escoval
Cipriano Justo
Constantino Sakellarides
Jorge Correia Jesuíno
Jorge Simões
José Luís Biscaia
Manuel Schiappa
Paulo Ferrinho
Pedro Lopes Ferreira
Suzete Gonçalves
Teodoro Briz
Vasco Reis
Vítor Ramos
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CAPA:
Imagem concebida com base numa fotografia de Teodoro Briz
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FICHA TÉCNICA:
Livro: Duas faces da saúde – Relatório de Primavera 2013
Autor: Observatório Português dos Sistemas de Saúde
Editora: Mar da Palavra - Edições, Lda.
Colecção: Observatório da Saúde (N.º 10)
PVP: 26,50 €
N.º de páginas: 216
Formato: 17,0 x 24,0 cm
ISBN: 9728910648 (EAN: 9789728910648)
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Registo de notícias e outras referências:
http://www.observaport.org/rp2013
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=657597774283944&set=a.401126863264371.88598.149325878444472&type=1&theater
https://www.facebook.com/events/215011928646382/?ref=3
http://www.bibliofeira.com/livro/612518593/duas-faces-da-saude-relatorio-de-primavera-2013/

domingo, 22 de dezembro de 2013

Menos «troika», muitas leituras e BOAS FESTAS...
















A editora Mar da Palavra deseja a todos os seus leitores, autores, colaboradores, bibliotecas, escolas, associações culturais, livreiros, órgãos da comunicação social e amigos os votos de BOAS FESTAS!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Crise & Saúde. Um país em sofrimento - Relatório de Primavera 2012

NOTA INTRODUTÓRIA

O título do presente relatório, “Crise & Saúde – Um país em sofrimento”, (d)enuncia de forma deliberada e inequívoca as circunstâncias em que foi elaborado.
Quem conhece as questões da saúde sabe bem como este sector é particularmente sensível à degradação das condições económicas e sociais de um povo. É sensível por fazer parte da linha da frente na assistência e protecção de todos os cidadãos, é sensível por ser facilmente afectado por decisões cujo impacto não é avaliado em todas as suas consequências (habituais num clima de forte pressão de redução de custos) e é, ainda, sensível por não poder falhar.
O Relatório de Primavera 2012 foi elaborado à luz das ideias-força anteriormente referidas e à luz do que deve ser a missão do Observatório Português dos Sistemas de Saúde. A sua análise e compreensão devem, também, orientar-se por este enquadramento.

Coordenação Executiva: Ana Escoval, Manuel Lopes e Pedro Lopes Ferreira
Coordenação Científica: Constantino Sakellarides
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AS CAUSAS DA CRISE
Portugal está a atravessar uma crise financeira económica e social muito séria.
O mesmo acontece com a Grécia e a Irlanda e, mais recentemente, com a Espanha e a Itália. Apesar de uma forma menos notória, esta crise atinge também outros países europeus da zona Euro (como a Holanda, a França e a Estónia) e fora dela (como a Hungria).
Uma crise desta importância afecta necessariamente a saúde e o sistema de saúde do país. Por isso, o que se vai passar na saúde depende, em grande parte, da qualidade e da oportunidade da resposta à crise instalada. Uma resposta adequada a esta crise não pode deixar de depender do entendimento rigoroso das suas causas.
Esta é uma crise, desencadeada pelos sistemas financeiros, que convergiu com graves falhas na gestão do Euro e que atingiu mais intensamente países económica e socialmente mais frágeis. A situação foi agravada pela inadequação das respostas nacionais, europeias e internacionais.
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Contribuíram para a realização deste Relatório:
COORDENAÇÃO EXECUTIVA:
Ana Escoval
Manuel Lopes
Pedro Lopes Ferreira
COORDENAÇÃO CIENTÍFICA:
Constantino Sakellarides
EQUIPA TÉCNICA:
Filipe Rocha
João Marques Figueira
Marta Pereira da Costa
Patrícia Barbosa
INVESTIGADORES:
Ana Isabel Santos
Ana Rita Pedro
Ana Tito Lívio
Carla Sandra Pereira
Celeste Gonçalves
Fátima Bragança
Felismina Mendes
Filipa Costa
Henrique Botelho
Inês Teixeira
Jaime Correia de Sousa
José Aranda da Silva
José Cabrita
Margarida Eiras
Mauro Serapioni
Patrícia Antunes
Patrícia Barbosa
Paula Bruno
Pedro Beja Afonso
Rute Simões Ribeiro
Suzete Cardoso
Suzete Gonçalves
Vanessa Nicolau
COLABORAÇÃO ESPECIAL:
Adriano Moutinho Garcez
Ana Cristina Guerreiro
Carlos Gouveia Pinto
Gilles Dussault
Filipe Froes
José Feio
José Reis
José Vinhas
Manuel Carvalho da Silva
Manuel Schiappa
Margarida Mesquita
Paulo Espiga
Rui Monteiro
Teodoro Briz
E DAS ORGANIZAÇÕES QUE FORNECERAM DADOS ESSENCIAIS:
Administração Central do Sistema de Saúde
Administração Regional de Saúde do Alentejo
Administração Regional de Saúde do Algarve
Administração Regional de Saúde do Centro
Administração Regional de Saúde do Norte
Direcção-Geral da Saúde
INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P.
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CAPA:
Imagem concebida com base numa fotografia de Teodoro Briz
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FICHA TÉCNICA:
Livro: Crise & Saúde. Um país em sofrimento – Relatório de Primavera 2012
Autor: Observatório Português dos Sistemas de Saúde
Editora: Mar da Palavra - Edições, Lda.
Colecção: Observatório da Saúde (N.º 9)
PVP: 26,50 €
N.º de páginas: 216
Formato: 17,0 x 24,0 cm
ISBN: 9728910617 (EAN: 9789728910617)
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Registo de notícias e outras referências:

sábado, 7 de dezembro de 2013

[Somente Eguchi diferia um pouco dos velhos que frequentavam aquela casa], excerto do livro «A Casa das Belas Adormecidas», de Yasunary Kawabata

Yasunary Kawabata – Fotografia retirada de http://japandailypress.com



















O universo mais desumano tornava-se humano à força de hábito. Mil depravações estão escondidas nas sombras deste mundo. Somente Eguchi diferia um pouco dos velhos que frequentavam aquela casa. Poder-se-ia mesmo dizer que ele diferia completamente. O velho Kiga, que o tinha lá introduzido, tinha-se enganado acerca dele, julgando que se encontrava no estado de todos eles, porque Eguchi ainda não perdera a sua virilidade. Por conseguinte, era de presumir que ele não podia compreender nem a verdadeira tristeza, nem as alegrias, nem as saudades nem a solidão que sentiam os velhos que frequentavam aquela casa. Para ele não era de maneira alguma indispensável que a rapariga estivesse a dormir de tal forma que não pudesse acordar em nenhuma circunstância.
Logo na sua segunda visita, por exemplo, estivera quase, com a rapariga provocante, a infringir as interdições da casa e apenas a surpresa de a encontrar virgem tinha feito com que se retirasse. Depois disso tinha jurado respeitar as regras da casa, ou melhor, a tranquilidade das «Belas Adormecidas». Tinha jurado não quebrar o segredo dos velhotes. E, contudo, a que preocupações podia corresponder o facto de, naquela casa, não se pedir colaboração senão a raparigas virgens? Seria para responder a um desejo, que poderíamos chamar piedoso, dos velhos? Eguchi julgava compreender aquilo, ao mesmo tempo que lhe parecia estúpido.
Contudo, a rapariga daquela noite era bizarra. O velho nem queria acreditar. Soergueu o busto, apoiou o peito no ombro da rapariga e contemplou-lhe o rosto. Como todo o seu corpo, o rosto da rapariga era irregular. E contudo, contrariando as expectativas, era ingénuo. A base do nariz era um pouco achatada e a parte superior baixa. As faces eram redondas e largas. Os cabelos desciam até um ponto bastante baixo da testa, formando um bico. Os sobrolhos curtos eram crespos e vulgares.
«Ela é graciosa!», murmurou o velho, apoiando a face contra a face da rapariga. Também esta era lisa. Sob o peso que se comprimia sobre o seu ombro, a rapariga virou-se de barriga para o ar. Eguchi afastou-se.
O velho ficou um momento com os olhos fechados. Isso devia-se também ao facto de o odor da rapariga ser extraordinariamente denso. Sabe-se que nada é mais propício a evocar as recordações do passado que os odores, mas aquele era particularmente adocicado e espesso. Não evocava mais nada a não ser o cheiro leitoso de um bebé ao peito. Os dois odores diferiam em tudo. Mas não eram, por outro lado, os odores fundamentais da espécie humana? Sempre tinham existido velhos que procuravam fazer do odor que emanam as rapariguinhas uma droga de rejuvenescimento e de longevidade. Dava vontade de perguntar se o odor daquela rapariga não era um perfume dessa natureza. Se o velho Eguchi se atrevesse a infringir em relação àquela rapariga as interdições daquela casa, ela espalharia um odor odioso e acre. Contudo, se ele pensava assim, não era isso sinal de que estava já demasiado velho? Um odor intenso e acre como o daquela rapariga não seria, também, o que estava na origem do nascimento do ser humano? Era uma rapariga que devia conceber com muita facilidade. Por mais profundamente adormecida que estivesse, os processos fisiológicos não eram interrompidos e no dia seguinte acabaria por acordar. Supondo que ela concebia, isso ficava completamente ao seu arbítrio. Que se passaria se o velho Eguchi, aos sessenta e sete anos, deixasse no mundo um filho concebido dessa forma? O que conduz o homem ao «mundo dos demónios» é mesmo, ao que parece, o corpo da mulher.
Contudo, a rapariga tinha sido privada de toda e qualquer resistência. Em proveito dos seus velhos clientes, em proveito de lamentáveis velhos. Não tinha qualquer roupa sobre o corpo e não despertaria em circunstância alguma. Eguchi sentia-se desgraçado como se estivesse doente do coração e surpreendeu-se a murmurar: «Ao velho a morte, ao jovem o amor, a morte uma só vez, o amor não sei quantas vezes!» Tinha sido apanhado de surpresa, mas aquilo apaziguou-o. Não estava na sua natureza ser enfático até àquele ponto. Lá fora ouvia-se o tombar da neve misturada com a chuva. O barulho do mar parecia ter sido abafado. A visão de um mar vasto e sombrio onde os flocos de neve se dissolviam quando tombavam, deparou-se ao velho. Uma ave de rapina semelhante a uma águia imensa, segurando no bico uma coisa meia devorada e sangrenta, volteava sobre as negras vagas que rasava com as asas. Seria essa coisa um bebé? Era muito improvável. Vendo mais de perto, seria aquela a imagem das depravações humanas? Eguchi sacudiu levemente a cabeça e dissipou a visão.

In «A Casa das Belas Adormecidas», de Yasunary Kawabata (com Introdução de Yukio Mishima e tradução de Luís Pignatelli), Colecção «O imaginário» (n.º 11), Assírio & Alvim, Maio de 1986 (1.ª edição).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

[gosto de escrever e escrever, mesmo que apenas para passar o tempo], excerto de «Diário de um velho louco», de Junichirō Tanizaki

Junichirō Tanizaki – Imagem retirada de http://www.beholdmyswarthyface.com
23 de Julho – Mantenho um diário apenas porque gosto de escrever; não tenciono mostrá-lo a ninguém. A minha vista está a falhar de tal maneira que não posso ler tanto como quero e, visto que não tenho outra forma de me divertir, gosto de escrever e escrever, mesmo que apenas para passar o tempo. Escrevo em caracteres grandes, com um pincel, de forma que a minha letra seja fácil de ler. Para evitar embaraços, fecho o diário num pequeno cofre. Neste momento, tenho cinco cofres desses. Suponho que, realmente, devia queimar isto tudo um dia, mas poderá haver uma vantagem em preservá-lo. Quando o olho para um dos meus velhos diários, fico espantado ao descobrir como me tornei esquecido. Os acontecimentos de um ano atrás parecem-me inteiramente novos, o meu interesse nunca esmorece.
No Verão passado, enquanto estávamos em Karuizawa, mandei remodelar o quarto, a casa de banho e o lavabo. Apesar de estar tão esquecido, recordo-me disso muito bem. Mas, ao rever o diário do ano passado, vejo que omiti pormenores. Surgiu agora algo que torna necessário acrescentar alguns.
Até ao Verão passado, a minha mulher e eu dormíamos lado a lado num quarto de estilo japonês mas, no ano passado, substituímos os tapetes por um pavimento de madeira e colocámos duas camas. Uma é para mim e a outra ficou para a enfermeira Sasaki. Mesmo antes disso, a minha mulher costumava, de vez em quando, dormir sozinha na sala de estar e, desde a remodelação, temos dormido sempre separados. Levanto-me e deito-me cedo, mas minha mulher dorme até tarde e gosta de ficar levantada também até tarde. Embora eu prefira uma casa de banho de estilo ocidental, ela diz que tem dificuldades se não for de estilo japonês baixo. E houve várias outras razões para a remodelação, como a conveniência do médico e da enfermeira. Assim, o nosso lavabo, a divisão a seguir no corredor à direita, foi equipado com uma sanita tipo cadeira e reservado para meu uso, tendo aberto uma porta na parede entre o lavabo e o meu quarto. Também fizemos mudanças substanciais na casa de banho, que se encontra do outro lado do quarto: a nova é toda revestida de azulejo, incluindo a banheira, tendo até instalado um chuveiro. Isto foi feito a pedido de Satsuko. Colocámos também uma porta entre a casa de banho e o quarto mas, se necessário, pode fechar-se a casa de banho por dentro.
Devo acrescentar que o quarto para lá do lavabo é o meu escritório (abrimos também uma porta entre estas divisões) e o outro a seguir é o quarto da enfermeira. Esta dorme na cama junto à minha de noite mas, durante o dia, está geralmente no seu próprio quarto. Tanto de dia como de noite, a minha mulher fica na sala de estar ao fundo do corredor e passa a maior parte do tempo a ver televisão ou a ouvir rádio. Raramente sai, a não ser que tenha algo específico para fazer. Jokichi, a mulher e Keisuke ocupam o segundo andar, que inclui um quarto de hóspedes mobilado ao estilo ocidental. Parece que o jovem casal decorou a sua sala de estar com bastante luxo mas, como estou tão pouco seguro das pernas, raras vezes ma aventuro a subir pela escada em espiral.
Houve alguma discussão quando remodelámos a casa de banho. A minha mulher insistiu numa banheira de madeira, argumentando que a água não se manteria quente durante tanto tempo numa de azulejos e que estes seriam desconfortavelmente frios no Inverno. Mas eu aceitei a sugestão de Satsuko (sem mencionar o seu capricho à minha mulher) e mandei fazer tudo de azulejo. Mesmo assim, foi um fracasso – talvez devesse dizer um sucesso – porque se verificou que os azulejos molhados são perigosamente escorregadios para uma pessoa idosa. Uma vez, a minha mulher patinou no novo pavimento e deu uma bela queda. E outra vez, quando me agarrei à borda da banheira para sair, a minha mão escorregou e não consegui pôr-me de pé. Como só posso usar uma mão, a situação foi bastante complicada. Mandei colocar escorredouros sobre o chão, mas não pude fazer nada quanto à banheira.
De qualquer forma, houve um novo desenvolvimento ontem à noite.
A menina Sasaki passa a noite com a família uma ou duas vezes por mês; parte à noite e volta antes do meio-dia do dia seguinte. Nas noites em que está ausente, a minha mulher toma o seu lugar na cama junto à minha. Estou habituado a deitar-me às dez, logo a seguir ao banho. Desde que caiu, a minha mulher não me ajuda a tomar banho, por isso fazem-no Satsuko ou a empregada, mas nenhuma é tão hábil ou competente como a menina Sasaki. Satsuko é bastante diligente a preparar as coisas mas, depois, fica a observar sem propriamente ajudar. Na prática, tudo o que faz é passar-me a esponja pelas costas. Quando saio da água, seca-me com uma toalha por detrás, polvilha-me com talco e liga a ventoinha eléctrica. Seja por modéstia ou repulsa, nunca dá a volta pela frente. Finalmente, ajuda-me a vestir o roupão de banho e leva-me para o quarto, após o que se afasta, apressada, pelo corredor fora. Só falta dizer-me que o resto é dever da minha mulher e que ela não é responsável por isso. Não posso impedir-me de desejar que ela também passasse, de vez em quando, a noite no meu quarto mas, talvez porque a minha mulher a mantém debaixo de olho, Satsuko é deliberadamente esquiva.
A minha mulher não gosta de dormir na cama de outra pessoa. Muda todos os lençóis e cobertores e deita-se constrangida. Devido à sua idade, tem de fazer duas ou três deslocações por noite para se aliviar, mas diz que uma casa de banho de estilo ocidental não serve, pelo que utiliza a japonesa. Resmunga que isso a impede de ter uma boa noite de sono. Secretamente, tenho desejado que em breve seja pedido a Satsuko que tome o lugar dela numa noite em que a menina Sasaki esteja ausente.
Ontem à noite, por acaso, foi o que aconteceu. A menina Sasaki pedira folga para essa noite e partira às seis da tarde. Depois do jantar, a minha mulher começou a sentir-se mal e foi deitar-se no seu quarto. É claro que Satsuko teve de ficar comigo, além de me ajudar a tomar banho. De início, usava calças pelo joelho à toureiro e uma blusa desportiva com um desenho da Torre Eiffel azul-vivo. Parecia maravilhosamente fresca e elegante. Talvez fosse apenas a minha imaginação, mas parecia esfregar-me com cuidado invulgar. Conseguia sentir o toque das suas mãos aqui e ali, no pescoço, nos ombros, nos braços.
Depois de me levar para o quarto, disse:
– Venho já, espere só um minuto, está bem? Também quero tomar duche.
A seguir, entrou de novo na casa de banho. Tive de aguardar cerca de meia hora. Ao sentar-me na beira da cama, esperando, senti-me estranhamente nervoso. Por fim, ela reapareceu à porta da casa de banho mas, desta vez, com um roupão de linho cor de salmão e chinelos de seda semelhantes aos chineses bordados com peónias.
– Desculpe ter demorado tanto.
Ao atravessar o quarto, a porta para o corredor abriu-se e Oshizu entrou com uma cadeira de rota dobrada. – Pai, ainda não foi para a cama? – perguntou Satsuko.
– Ia mesmo agora, minha querida. Mas para que queres uma coisa dessas?
Quando a minha mulher não está presente, tenho tendência a falar com Satsuko de forma mais íntima do que é habitual. Com frequência, faço-o propositadamente, embora pareça muito natural quando estamos sós. A própria Satsuko, se estamos sós, fala comigo de uma maneira curiosamente impudente. Está bem consciente da forma de me agradar.
– Vai para a cama demasiado cedo para mim; por isso, vou sentar-me aqui a ler.
Desdobrou a cadeira de rota numa espécie de chaise longue, estendeu-se nela e abriu um livro que trouxera. Parecia um texto em língua francesa. Cobrira o candeeiro com um pano para afastar a luz dos meus olhos. Sem dúvida, também não gosta da cama da menina Sasaki e decidiu, por certo, dormir na cadeira.
Estava ali estendida e, por isso, deitei-me também. Tenho ar condicionado no meu quarto, mas mantenho-o muito reduzido, para evitar o frio no braço. Durante os últimos dias, o tempo tem estado tão abafado e húmido que o médico e a enfermeira dizem que é melhor utilizá-lo, quanto mais não seja para secar o ar. Fingindo estar a dormir, observava, na verdade, as pequenas pontas dos chinelos chineses de Satsuko, que espreitavam por debaixo do roupão. Pés deliberadamente afunilados são raros num japonês.
– Pai, ainda está acordado, não está? A menina Sasaki diz que o ouve ressonar logo que se deita.
– Por qualquer razão, esta noite não consigo dormir.
– Por minha causa?
Como não respondi, riu-se e disse:
– É mau para si ficar excitado!
E prosseguiu, após uma pausa:
– Talvez seja melhor dar-lhe Adalin.
Era a primeira vez que Satsuko se mostrava tão provocante, o que realmente me excitou.
– Não é necessário.
– Não se preocupa, eu vou buscar!
Enquanto ela ia procurar o medicamento, tive uma ideia brilhante.
– Aqui está? Dois serão suficientes?
Deitou dois comprimidos do fraco de Adalin para um pires e foi buscar um copo de água à casa de banho.
– Agora, abra bem a boca! Não está satisfeito por ser eu a dar-lhos?
– Sim, mas não mos dês num pires, pega-lhes com os dedos e põe-mos na boca.
– Então, vou lavar as mãos.
E foi de novo à casa de banho.
– A água vai entornar – avisei, logo que ela voltou. – Já agora, porque não mos dás boca a boca?
– Não seja ridículo! Ser atrevido não o leva a lado nenhum!
Antes de eu dar por isso, atirou os comprimidos, rapidamente, para a minha boca e deitou água a seguir. Tencionara fingir que adormecia mas, contra a minha vontade, adormeci mesmo.

In «Diário de um velho louco», de Junichirō Tanizaki (tradução de Maria José de La Fuente; revisão de texto de Francisca Cortesão), Colecção «Ficções» (n.º 125), Relógio D’Água Editores, Outubro de 2008 (1.ª edição).

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

[O que me tinha incomodado fora aquela história do meu diário], excerto de novela de Junichirō Tanizaki

Imagem retirada de http://www.clubotaku.org
24 de Abril – Este era o segundo domingo após o enfarte. Tivemos duas ou três visitas, mas não as convidei a entrar. O Dr. Kodama não veio vê-lo. O seu estado mantém-se inalterável.
Toshiko chegou por volta das duas, muito antes do costume. Ela tem vindo tarde depois do almoço, e fica apenas algumas horas. Hoje, enquanto estava ali ao lado do pai, que dormia, afirmou: “Pensei que deviam ter muitas visitas.” Ao mesmo tempo que dizia aquilo, olhava para mim.
Como não respondo, ela prosseguiu: “Mamã, não tem compras para fazer? Podia ir apanhar ar, hoje é domingo.”
Teria sido mesmo ideia dela?, pensei. Talvez tenha sido ele a sugerir aquilo. É claro que podia muito bem ter-me dito qualquer coisa. Teria preferido que fosse Toshiko a dizê-lo em seu lugar, ou seria pura e simplesmente ela a tentar confirmar as suas suspeitas?... Subitamente, vi-o no nosso hotel de Osaka, ansioso à minha espera, naquele preciso momento. E se ele estivesse mesmo lá? – pensei, mas recompus-me imediatamente. Afinal de contas, isso era altamente improvável. Porém, a ideia começou a perseguir-me. No entanto, era evidente que não tinha tempo de ir a Osaka. Não podia estar tanto tempo fora, pelo menos até domingo próximo.
Porém, tinha outra ideia em mente, por isso disse a Toshiko que ia buscar algumas coisas ao mercado de Nishiki. “Estou de volta daqui a uma hora”, afirmei. Eram três horas quando saí de casa.
Apanhei um táxi e segui logo para a Rua Nishiki. Primeiro, para justificar a viagem, comprei bolos de glúten de trigo, coalhada de feijão tostado e alguns legumes. A seguir, percorri o Teramachi até Sanjo, e parei na papelaria para comprar dez folhas grandes de papel de arroz e uma folha de cartolina. Mandei cortá-los do tamanho do meu diário e mandei embrulhar tudo; depois coloquei-os no meu cesto das compras, por baixo dos legumes. Fui apanhar um táxi à Rua Kawaramachi – mas não posso esquecer-me de referir que lhe telefonei do mercado.
“Não, não tencionava sair durante todo o dia”, disse-me ele. Afirmou-o com ar hesitante, como se pensasse que eu podia estar a sugerir que nos encontrássemos. No entanto, limitámo-nos a conversar durante alguns minutos.
Cheguei a casa pouco antes das quatro (tinha estado fora pouco mais de uma hora), escondi o embrulho de papel de arroz por trás do suporte dos guarda-chuvas e levei o cesto das compras a Baya, que estava na cozinha. O meu marido ainda parecia estar a dormir, embora não ressonasse.
O que me tinha incomodado fora aquela história do meu diário. Por que motivo teria ele surgido com aquilo? Ter-se-ia esquecido, devido ao seu estado de confusão mental, que não era suposto saber da sua existência? Ou será que estava a dizer “Penso que não há razão para continuarmos a fingir”? E quando tentei esquivar-me dizendo-lhe que nunca tive nenhum diário, será que aquele sorriso estranho queria dizer “Pára de te fazeres de inocente”? Seja como for, é evidente que ele queria saber se tenho escrito o meu diário. A seguir vai querer lê-lo. Como já não pode lê-lo nas minhas costas, começou a sugerir que queria ter a minha autorização. Tenho de estar pronta para quando ele mo pedir abertamente.
Quanto aos registos até ao dia dezasseis deste mês, estou disposta a mostrar-lhos quando ele quiser. Mas ele deve saber que o diário não acaba aí. Dir-lhe-ei: “Como andas a ler o meu diário em segredo, é escusado continuar a escondê-lo. Podes lê-lo à vontade, embora de pouco te adiante. Como hás-de ver, acaba no dia dezasseis. Desde então, tenho estado demasiado ocupada para escrever o diário – embora também não tenha feito nada que merecesse a pena referir.”
Porém, terei de prová-lo mostrando-lhe que só existem páginas vazias a partir do dia dezasseis. Com o meu novo papel de arroz, posso dividir o caderno nesse ponto, acrescentar o número suficiente de folhas em branco e voltar a uni-lo em dois volumes.
Não dormi a minha sesta, pelo que fui até lá acima descansar durante cerca de uma hora. Quando voltei para baixo, às seis e meia, trouxe o diário e pu-lo na gaveta do armário da sala. Toshiko foi-se embora a seguir ao jantar, às oito. Às dez, mandei a menina Koike subir. Às onze ouvi passos no jardim.  

In «A chave», ficção de Junichirō Tanizaki (tradução da versão inglesa por Maria Augusta Júdice), colecção «Outras estórias», Editorial Teorema, Lisboa, Fevereiro de 2003 (1.ª edição).

[Durante vários anos fui um leitor voraz], excerto de Junichirō Tanizaki

Junichirō Tanizaki – Foto retirada de http://rateyourmusic.com
15 de AbrilNoto que o meu cérebro está num processo de deterioração constante. Desde Janeiro, quando me decidi a satisfazer Ikuko, comecei a perder interesse em tudo. A minha capacidade de pensar está tão reduzida, que não consigo pensar durante mais de cinco minutos. Tenho a cabeça cheia de fantasias sexuais. Durante vários anos fui um leitor voraz, fossem quais fossem as circunstâncias, mas agora passo o dia inteiro sem ler uma única palavra. E no entanto, por hábito, continuo a sentar-me à secretária. Fico com os olhos fixos num livro, mas não leio nada. É certo que sofro de uma perturbação visual que dificulta extremamente a leitura. Vejo as letras a dobrar, e tenho de ler a mesma linha várias vezes seguidas.
Agora, por fim, sou vítima de um encantamento que me transformou num animal que vive de noite, um animal que apenas serve para acasalar. De dia, quando estou fechado no escritório, sinto-me intoleravelmente cansado e aborrecido; ao mesmo tempo, sou presa de uma ansiedade terrível. Ir dar um passeio contribui para distrair um pouco, mas as tonturas fazem-me ter dificuldade em andar. Sinto-me como se estivesse quase a cair para trás. Mesmo que saia à rua, não me aventuro a ir muito longe de casa. Apoiado na bengala, vagueio por Hyakumamben, por Kuodani, pelo Templo de Eikan; afasto-me das ruas movimentadas, e passo a maior parte do tempo a descansar nos bancos. Tenho as pernas tão fracas, que fico logo exausto.
Hoje, quando voltei, Ikuko estava a conversar com a menina Kawai, a costureira, na sala de estar. Ia parar para tomar uma chávena de chá, mas ela exclamou: “Não entres agora!” Espreitei na mesma, e via-a a experimentar um vestido de corte estrangeiro. Ela opôs-se à minha presença, e retirei-me para o escritório. Mais tarde, ouvi-a dizer em voz alta que ia sair um pouco. Parecia estar a sair com a menina Kawai.
Olhei pela janela do segundo andar, e vi as duas a andar juntas. Era a primeira vez que via Ikuko de roupas ocidentais. Não há dúvida que era para isto que se preparava quando começou a usar luvas e brincos com quimono. Mas, para dizer a verdade, o seu vestido novo não lhe fica lá muito bem. Parece que não condiz com ela. Devia ter pensado que, em comparação com a menina Kawai, que é lisa e disforme, Ikuko devia ficar atraente com essas roupas. Mas a menina Kawai já está habituada a elas, e usa-as com um ar descontraído. Os brincos e as luvas de renda da minha mulher não lhe ficavam tão bem como antes. Nessa altura, pareceram-me exóticos, mas hoje, com o vestido estrangeiro, pareceram-me artificiais e mal combinados. Havia uma falta de harmonia entre as roupas, os acessórios e a sua figura.
Hoje em dia, passou a ser popular usar coisas japonesas à ocidental, mas Ikuko faz exactamente o contrário. Vê-se que foi feita para usar quimono. Os seus ombros são demasiado inclinados para as roupas ocidentais. E o pior é que ela tem as pernas arqueadas – magras e suficientemente elegantes, mas excessivamente curvas entre o joelho e o tornozelo. Com meias de seda, os seus tornozelos ficam muito largos. Além disso, o seu porte – a sua maneira de andar, os movimentos dos ombros e do tronco, a maneira como dispõe as mãos, a inclinação da cabeça – tudo nela é flexível e feminino ao estilo tradicional japonês, um estilo que fica bem com o quimono.
Mesmo assim, senti uma volúpia estranha na sua figura esguia e flexível, na curva desajeitada das suas pernas. Isto é uma coisa que me era ocultada quando ela usava quimono. Enquanto a via caminhar, admirei a beleza distorcida das suas pernas por baixo da saia de tweed. E pensei na noite de hoje.

In «A chave», ficção de Junichirō Tanizaki (tradução da versão inglesa por Maria Augusta Júdice), colecção «Outras estórias», Editorial Teorema, Lisboa, Fevereiro de 2003 (1.ª edição).

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

[ao ler um prefácio de Gilberto Freyre], registo diarístico de Miguel Torga

Gilberto Freyre – Imagem retirada de http://sotaquesbrasilportugal.blogspot.pt
Coimbra, 3 de Março de 1943 – Parece não ter remédio o complicado problema da guerra de gerações. Ainda hoje, ao ler um prefácio de Gilberto Freyre num livro de crítica de poesia, verifiquei isso mesmo. À camada literária que chegou depois da sua, chama, nada mais, nada menos, o claro espírito de Casa-Grande & Senzala «numa espécie de sexta coluna sinistra!»
Ora, não é impensadamente, nem por caturrice lamentável de velho, que uma tal acusação sai da pena do penetrante ensaísta brasileiro. Nem o autor de Nordeste tem cem anos, nem coisas duma gravidade assim se dizem por desfastio. À violência da expressão há-de por força corresponder, na ideia de quem a emprega, uma realidade dolorosa. Deve mesmo existir no escritor, consciente ou inconscientemente, o propósito de estigmatizar com palavras de fogo o que há de irremediável nessa desgraça que vem desde que o mundo é mundo.
«Sexta coluna sinistra», e eu estou a ver, em Portugal, Castilho ter insónias por causa dela, Camilo escrever romances realistas por causa dela, e o próprio Herculano imunizar-se prudentemente contra ela. Estou a ver, por toda a parte e em todos os tempos, de um lado, uns pacatos senhores esfalfados de prosa e verso, aterrorizados diante da obra realizada, com a ideia de que tudo aquilo vai ser atirado ao ar por meia dúzia de bombas de pataco; do outro, uns mocinhos imberbes, com toda uma vida diante para se convencerem que isto de escrever um autêntico livro é tão difícil como a celebrada passagem do camelo pelo rabo da agulha, – sem ideias concretas, sem a mão assente, sem o mistério do ofício sequer pressentido –, importantes, infalíveis, a assobiar aos velhotes como quem assobia a um cão.
Vista de fora, a tragédia chega a fazer rir. Mas, olhada de dentro, talvez não haja nada de mais doloroso e triste. Que seja necessário ou fatal semelhante duelo na história das artes, é realmente de meter pena. Porque, embora contínuo, real e objectivamente verificável, não parece que o fenómeno tenha uma razão de ser transcendente, apoiada em fundamentos lógicos. Se até certo ponto se compreende que Castilho fosse apupado por um Antero, já não era de maneira nenhuma razoável que Camilo recebesse as ironias de um Eça.
É evidente que no espólio de qualquer época há sempre muito que condenar, corrigir, deitar fora, e até combater. Mas, na pressa com que vem, a rapaziada nova esquece que igual auto-de-fé há-de queimar no futuro parte da produção dos inquisidores de agora. Bem sabemos que no início de uma jornada, de mais a mais árdua como a sua criação, todo o entusiasmo é pouco e toda a cegueira é pouca. Mas por que hão-de ser sempre o entusiasmo e a cegueira contra os que a lei do tempo encaneceu? Boa ou má, a obra que realizaram foi um esforço e um exemplo. Na maioria dos casos, foi nela, até, que os mesmos atacantes mataram a primeira sede. De maneira que não se chega a compreender a causa de tanta irreverência e muitas vezes tanto ódio. Embora a imagem seja um bocado crua, depois de uma meditação serena sobre certas injustiças, é-se levado a pensar que há na base dessa feroz hostilidade aos velhos qualquer coisa de semelhante ao que acontece com aqueles bichos que, apenas fecundados pelo companheiro, se apressam a matá-lo e a devorá-lo. É como se cada geração, mal acabasse de sorver da anterior todo o sumo vital, indignada por não encontrar lá mais com que nutrir a insaciedade, passasse a odiar o favo que chupou, onde agora somente vê cera morta.
Por outro lado, é um fenómeno quase miraculoso encontrar no passado duma literatura um autor idoso com autêntica compreensão pela seiva naturalmente um pouco irresponsável de qualquer principiante. Parece que a idade, a cultura, a maturidade, o incapacitam de se lembrar sequer dos bons tempos em que também ele era a mesma ânsia e obstinação. A compostura clássica que necessariamente atingiu impossibilita-o de ver um outro futuro clássico no jovem e desconexo companheiro. Uma obra é uma experiência, muito dolorosa e muito profunda, tornada expressão. E nada mais difícil de conseguir do que o justo equilíbrio entre o que se quer dizer e o que se diz. Por isso, quando ao cabo do caminho, e com a esquadria das emoções aprumada, um artista realizado olha um moço só a emparedar seixos toscos, como poderá entendê-lo?
Há ainda a mensagem de cada um. Independentemente da limpidez formal, que, a seu modo, todo o criador consegue mais cedo ou mais tarde, temos de considerar também os valores que cada época traz, e de que o artista é, por condição, porta-bandeira. Anteontem amava-se romanticamente; hoje, existencialmente; amanhã... E assim por diante. A ubiquidade, porém, pertence a Deus Nosso Senhor. É quase uma impossibilidade orgânica, quando se lutou trinta ou quarenta anos por uma verdade, aceitar de mão beijada que alguém venha dizer-nos que a verdade verdadeira é a novíssima, a que esse alguém traz no bolso. As ideias gerais de qualquer período são, como coisa em si, em tudo respeitáveis e legítimas. São as ideias de então, e nada autoriza a dizer em absoluto que o pensamento do século XVII superava o do século XVII, ou vice-versa. Como já se usaram saias de balão, usam-se agora outras modas. Ora as saias de balão, em relação ao tempo respectivo, eram perfeitamente correctas e de bom gosto. Mas basta a gente não ver cada coisa integrada no clima que a motivou, para que a sua aparência se torne ridícula e detestável. E por isso tão horrível é para uma senhora que usa saia rodada uma saia travadinha, como o contrário. É evidente que semelhantes bizantinices nada dizem a uma dama da Renascença, imunizada como está do contingente pela consumação dos anos. Mas poderá quem respira ainda sublimar-se a ponto de perder o pé na vida? Certo que não. Todos nós temos visto homens de noventa anos morrer aos vivas a determinada Patuleia que os faz vibrar. A dita Patuleia já no cisco da História, e eles ainda com aquele sonho no coração!
E resta finalmente a malfadada meretriz, às graças da qual poucos escapam: – a vaidade. A exacta glória é a póstuma, a que nenhum dente rói, e que só desce sobre um nome depois da ressurreição intemporal do seu possuidor. Todos sabemos que a imortalidade do poeta lhe nasce das cinzas. Mas o artista enquanto vive é homem. Rege-o tanto uma lei de cima como uma lei de baixo. E por isso, pela transitória fama entre meia dúzia de condicionados contemporâneos, é capaz de matar um irmão. Velhos e novos aprestam nesta triste luta as mesmas armas e as mesmas unhas. Os velhos querem guardar os loiros; os novos querem tirar-lhos das mãos. E sem haver a mais pequena esperança de paz entre as duas forças. É da própria natureza dos contendores que nenhum ceda. A sofreguidão é tanto da fisiologia senil, como da infantil...

In «Diário» (2.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1977 (4.ª edição).