quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O hábito da competição e a leitura, na perspectiva de Bertrand Russell

     Fotografia retirada de http://antologiaeccears.blogspot.pt

O hábito da competição tende a invadir com facilidade domínios que lhe são estranhos. Tomemos, para exemplo, a leitura. Há dois motivos para se ler um livro; um, o próprio prazer da leitura; o outro, a possibilidade de alardear conhecê-lo. Tornou-se moda na América as damas lerem (ou afectarem ler), todos os meses, certos livros; umas lêem-nos, outras procuram apenas o primeiro capítulo e algumas lêem só as críticas, mas todas têm esses livros nas suas estantes. Não lêem, porém, nenhuma obra-prima. Nunca o Hamlet ou o Rei Lear foram em qualquer mês seleccionados por um dos Book Clubs; nunca também foi necessário conhecer a obra de Dante. O que se lê são livros modernos, geralmente medíocres, e nunca obras-primas. Isto é ainda um efeito de competição, e possivelmente não muito mau, pois a maior parte dessas damas, abandonadas a si próprias, longe de lerem obras-primas leriam livros ainda piores do que os seleccionados pelos seus orientadores e mestres literários.
A importância do espírito de competição na vida moderna está em relação com o declínio do nível de cultura, tal como sucedeu em Roma depois do século de Augusto. Homens e mulheres parece terem-se tornado incapazes de apreciar os prazeres mais intelectuais. A arte da conversação, por exemplo, levada à perfeição nos salões franceses do século XVIII, era ainda há quarenta anos uma tradição viva. Era uma das artes mais delicadas, que requeria grandes faculdades de espírito, mas a sua finalidade era absolutamente evanescente. Quem nos nossos dias fará caso de ocupação tão ociosa? Na China, esta arte ainda florescia há dez anos, mas imagino que o ardor missionário dos nacionalistas a tenha desde então varrido completamente da existência. O conhecimento da boa literatura, que era universal entre as pessoas educadas de há cinquenta anos, está agora confiado a poucos professores. Todos os prazeres mais tranquilos foram abandonados. Alguns estudantes americanos levaram-me a passear, na Primavera, a um bosque situado na extremidade do seu campo de jogos, cheio de delicadas flores bravias, mas nenhum dos meus guias conhecia ao menos o nome de uma delas. Qual seria a utilidade de uma tal ciência? Ela não aumentaria os rendimentos de ninguém.
O mal não está simplesmente no indivíduo, nem o indivíduo sozinho pode impedi-lo no seu próprio caso isolado. O mal reside na filosofia da vida geralmente admitida, que concebe a existência como uma luta, uma competição, na qual é devido respeito ao vencedor. Esta concepção leva as pessoas a cultivarem indevidamente a vontade, a expensas do sentimento e da inteligência. Possivelmente, dizendo isto, nós pomos o carro à frente dos bois. Os moralistas puritanos exaltaram sempre a vontade, quando originariamente se tinha dado mais força à fé. Pode ser que séculos de puritanismo tenham produzido uma raça na qual a vontade esteja demasiado desenvolvida e anulados o sentimento e a inteligência e que uma tal raça haja adoptado a filosofia de competição como a mais apropriada à sua natureza. De qualquer maneira, o êxito prodigioso desses modernos dinossauros que, como os seus protótipos pré-históricos, preferem o poder à inteligência, faz com que sejam universalmente imitados; tornaram-se o modelo para o homem branco em todos os pontos do globo, e esse facto tem tendências para aumentar, em populações crescentes, nos cem anos mais próximos. Aqueles, porém, que não seguem a moda, podem consolar-se com a ideia de que os dinossauros não acabaram por triunfar; mataram-se uns aos outros e espectadores inteligentes herdaram o seu reino. 

In «A conquista da felicidade», de Bertrand Russell (tradução de José António Machado), Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Janeiro de 2001 (9.ª edição). 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Poema de Eugenio Montale [ANTIGO, fico embriagado pela voz], de «Ossos de choco» (1916-1927)

Eugenio Montale – fotografia retirada de http://www.excite.it












ANTIGO, fico embriagado pela voz
que sai das tuas bocas quando se abrem
como verdes sinos e voltam
para trás desaparecendo.
A casa dos meus longínquos estios
ficava a teu lado, como sabes,
naquela terra onde o sol abrasa
e os mosquitos soltam nuvens pelos ares.
Agora como então emudeço na tua presença,
mar, e não me acho digno já
do solene ensinamento
da tua respiração. Foste o primeiro a dizer-me
que o ínfimo fermento
do meu coração era apenas um momento
do teu; que eu tinha bem no fundo
a tua audaciosa lei: ser vasto e diferente
e ao mesmo tempo constante:
e esvaziar-me assim de toda a sujidade
como tu fazes quando lanças nas areias
entre cortiças algas e estrelas-do-mar
os inúteis despojos do teu abismo.

In «Poesia», de Eugenio Montale (selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos), colecção ‘Documenta Poetica’, Assírio & Alvim, Junho de 2004 (1.ª edição).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ALEGRIA DA ESCRITA, poema de Wislawa Szymborska, do livro «Spo pociech» (Tem piada)

Wislawa Szymborska  – fotografia retirada de http://regresso-a-itaca.blogspot.pt














Para onde corre esta corça escrita pela mata escrita?
Beber da água escrita
que reflectirá o seu focinho como o papel químico?
Por que levanta a cabeça, ouvirá algo?
Sobre as quatro patas pela realidade concedidas,
debaixo dos meus dedos, apura o ouvido.
A palavra silêncio vai farfalhando no papel
e afastando
os galhos pela palavra “bosque” suscitados.

Por cima da folha branca, agacham-se para saltar
letras que se podem dispor mal,
frases que acuam,
das quais não escapa.

Numa gota de tinta há vários
caçadores de olhar franzido
prestes a correr caneta abaixo,
cercar a corça e fazer pontaria.

Não sabem que estão fora da vida real,
que neste preto no branco há outras leis.
Um pestanejar dura tanto quanto eu queira,
posso seccioná-lo em pequenas eternidades
cheias de balas imobilizadas no ar.
Se eu assim dispuser, nada te acontecerá.
Nem uma folha cairá sem a minha vontade,
nem um cisco se vergará sob o casco de um ponto final.

Será que há um mundo
cujo destino dependa do meu poder absoluto?
Um tempo acorrentado pelas minhas letras?
Uma realidade que persista por minha ordem?

Alegria da escrita.
Oportunidade de eternização.
Vingança da mão mortal.

In «Alguns gostam de poesia – Antologia», com poemas de Czeslaw Milosz e de Wislawa Szymborska  
(selecção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; e revisão de Vasco Renato), 
Cavalo de Ferro Editores, Lda., Março de 2004 (1.ª edição).

sábado, 5 de janeiro de 2013

A CRIAÇÃO DO MUNDO, poema de Czeslaw Milosz, do livro «Dalsze okolice» (Arredores afastados)

Czeslaw Milosz – fotografia retirada de http://www.the-tls.co.uk












Os Seres Celestiais rebentam de riso no Gabinete de Projectos,
Pois um deles desenhou um ouriço,
Outro, para não ficar atrás, uma cantora soprano –
Pestanas, seios, anéis de cabelo, muitos anéis.

É um excelente divertimento no oceano de energia espumante,
Entre estalos e descargas prenunciadoras da electricidade.
Borbulham baldes de proto-tinta, proto-pincéis trabalham,
Um vórtice potente de quase-galáxias por trás de quase-janelas,
E uma claridade pura, livre de nuvens.

Sopram nas conchas, dão cambalhotas no quase-espaço,
No seu país dos arquétipos, no sétimo céu.
A Terra está quase pronta, os seus rios brilham,
As selvas crescem, cada uma das criações
Aguarda o seu nome, um raio passeia-se de longe,
As manadas nos prados não levantam a cabeça.

Desabrocham as cidades, as ruas estreitas,
O penico despejado pela janela, a roupa interior.
E logo as auto-estradas para o aeroporto,
A estátua no cruzamento, o parque, o estádio
Para milhares que se levantam e gritam: golo!

E como se fosse pouco descobrir
O comprimento, a largura e a altura,
Dois vezes dois e a força da gravidade, ainda surgem
As cuecas de renda, o hipopótamo, o bico do tucano,
O cinto da castidade com horríveis dentes eriçados,
O peixe-martelo, o capacete achatado,
E por fim, o tempo, quer dizer, a divisão no que será e foi.

Glória, glória, cantam as coisas existentes.
Ao ouvi-las, Mozart senta-se ao pianoforte
E compõe a música, que já estava pronta
Antes de ele ter nascido em Salsburgo.

Se pelo menos tudo isto perdurasse. Mas não.
Muda, passa, rodopia numa bolinha de sabão
Junto com a invocação dos Seres Celestiais para os mortais:

“Ó geração deturpada, como não ter piedade de vós!
Os vossos trapos coloridos, as vossas danças
Aparentemente devassas, mas apenas deploráveis,
Os espelhos onde fica o rosto com brincos,
As pálpebras pintadas, pestanas ilusórias.
Como pode não ter-se nada mais além da festa amorosa!
Que frágil defesa contra o abismo!”
E o sol nasce e o sol põe-se.
E sol nasce e o sol põe-se.
Enquanto eles correm e correm.

In «Alguns gostam de poesia – Antologia», com poemas de Czeslaw Milosz e de Wislawa Szymborska 
(selecção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; e revisão de Vasco Renato), 
Cavalo de Ferro Editores, Lda., Março de 2004 (1.ª edição).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

«BAILE», poema de Wislawa Szymborska

Wislawa Szymborska - fotografia retirada de http://www.valor.com.br 

















Enquanto não se souber nada de certo
por faltarem sinais que cheguem até nós,

enquanto a Terra não for
como os planetas, até agora, próximos e distantes,

enquanto não houver novas nem mandados
de outras ervas honradas pelo vento,
de outras árvores majestosas,
de outros animais comprovados como nossos,

enquanto não existir outro eco além do nativo
que saiba falar por sílabas,

enquanto não se tiver notícia
de melhores ou piores
mozarts, edisons ou platões,

enquanto os nossos crimes
só entre si puderem rivalizar,

enquanto a nossa bondade
não se assemelhar à de mais ninguém
e for excepcional até na sua imperfeição,

enquanto as nossas cabeças cheias de ilusões
passarem por ser as únicas cabeças cheias de ilusões,

enquanto só do céu das nossas bocas
subirem clamores ao céu,

sintamo-nos convidados especiais
e distintos neste baile dos bombeiros e
dancemos ao ritmo da banda local,
na ilusão de que este seja
o baile dos bailes.

Não sei como é para os outros,
mas para eu ser feliz e infeliz
basta-me em absoluto:

uma aldeola perdida
nos quintos das estrelas,
à qual elas mandam umas
piscadelas insignificantes.

In «Instante», de Wislawa Szymborska (tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves), Relógio D’Água Editores, Janeiro de 2006 (1.ª edição).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

É UMA COISA FECHADA, CHEIA, LISA COMO UM OVO, excerto de «Pauis», de André Gide

André Gide - fotografia retirada de http://beretandboina.blogspot.pt
"Meu pobre amigo, dar-se-á o caso de nunca teres entendido as razões de ser de um poema? a sua natureza? o seu surgimento? Um livro… mas um livro, Hubert, é uma coisa fechada, cheia, lisa como um ovo. Não se pode enfiar lá dentro absolutamente nada, nem sequer um alfinete, a não ser à força, e a sua forma fica então destruída.
– Quer dizer que o teu ovo está cheio? interrogou Hubert.
– Ó meu caro amigo, gritei, os ovos não se enchem: os ovos nascem cheios… Aliás, já assim sucede nos Pauis… e depois acho estúpido dizer que faria melhor em escrever outra coisa… estúpido! ouviste?... outra coisa! em primeiro lugar, para mim até seria óptimo; mas vê se compreendes que aqui também há taludes a marginar, como nos outros sítios; as nossas estradas são forçadas, tal como os nossos trabalhos. Posto-me aqui porque era um espaço vago, sem ninguém; escolho um tema por exaustão, e Pauis porque estou certo de que não aparecerá ninguém sobejamente deserdado para vir trabalhar na minha terra; foi o que tentei exprimir mediante estas palavras: Sou Títiro e solitário. – Li-te isto, mas não atentaste… E, de mais a mais, quantas vezes já te pedi que nunca me falasses de literatura! A propósito – prossegui em jeito de diversão – vais esta noite a casa de Angèle? ela recebe.
– Literatos… Não, respondeu-me ele, não gosto, tu bem sabes, dessas reuniões concorridas onde nada mais se faz a não ser falar; e julgava que também te faziam sufocar a ti.
– É verdade, admiti, mas não quero magoar Angèle; ela convidou-me. De resto, pretendo encontrar-me lá com Amilcar para lhe fazer notar que se sufoca. A sala de Angèle é demasiado pequena para estes serões; procurei dizer-lho; até empregarei a palavra exígua;… depois preciso de falar com Martin.
– Faz como entenderes, disse Hubert, vou andando; adeus.”

In «Pauis», de André Gide (tradução de Gemeniano Cascais Franco), Editorial Seis Filetes, Lda. (Fradique), Paio Pires (Setúbal), Setembro de 2002 (1.ª edição portuguesa).