segunda-feira, 25 de março de 2013

Antes que seja tarde!

«Os meus livros», de Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

In «A rosa profunda»



terça-feira, 19 de março de 2013

Excerto de «Seda», de Alessandro Baricco

Alessandro Baricco – foto retirada de http://mag.wired.it













Naqueles tempos o Japão ficava, de facto, do outro lado do mundo. Era uma ilha feita de ilhas e durante duzentos anos vivera completamente separada do resto da humanidade, recusando qualquer contacto com o continente e proibindo a entrada a qualquer estrangeiro. A costa chinesa distava quase duzentas milhas, mas um decreto imperial cuidara de a tornar ainda mais longínqua, proibindo em toda a ilha a construção de barcos com mais de um mastro. Aliás, segundo uma lógica à sua maneira iluminada, a lei não proibia a expatriação: mas condenava à morte quem tentasse voltar. Os mercadores chineses, holandeses e ingleses tinham procurado repetidas vezes quebrar esse isolamento absurdo, tendo apenas conseguido montar uma frágil rede de contrabando. Tinham ganho, com isso, pouco dinheiro, muitos aborrecimentos e algumas lendas, boas para vender nos portos, à noite. Onde eles tinham falhado, tiveram êxito, graças à força das armas, os americanos. Em Julho de 1853, o comodoro Matthew C. Perry entrou na baía de Yokohama com uma moderna frota de navios a vapor e entregou aos japoneses um ultimato no qual se «auspiciava» a abertura da ilha aos estrangeiros.
Os japoneses nunca tinham visto antes um navio capaz de cruzar o mar contra o vento.
Quando, passados sete meses, Perry voltou para receber a resposta ao seu ultimato, o governo militar da ilha consentiu em assinar um acordo no qual se sancionava a abertura aos estrangeiros de dois portos no norte do país e o começo de umas primeiras, limitadas, relações comerciais. O mar em volta desta ilha – declarou o comodoro com alguma solenidade – é a partir de hoje muito menos profundo.

In «Seda», de Alessandro Baricco (tradução de Simonetta Neto), Difel – Difusão Editorial, S.A., Miraflores (Algés), Julho de 2000 (3.ª edição).

segunda-feira, 18 de março de 2013

Fragmento da quarta carta atribuída a Mariana Alcoforado

Gravura de Eisen aberta a buril por Massard representando a infeliz freira 
em traje de dama e em ambiente do século XVIII.

















Há já muito tempo que um oficial espera esta carta. Tencionava escrevê-la de forma a não te aborrecer, mas é tão incoerente que será melhor acabá-la. Ai, não está em mim poder fazê-lo! Quando te escrevo é como se falasse contigo e estivesses, de algum modo, mais perto de mim. A próxima não será tão longa nem tão importante; podes abri-la e lê-la, confiado na minha promessa. Na verdade não devo falar-te de uma paixão que te desagrada, e não voltarei a falar nela.
Vai fazer um ano, faltam só alguns dias, que me entreguei inteiramente a ti. A tua paixão parecia-me tão sincera e ardente, que não poderia imaginar sequer que a minha te viesse a aborrecer, a ponto de te obrigar a fazer quinhentas léguas, e a expores-te a naufrágios, para te afastares de mim. Não esperava ser tratada assim por ninguém: devias lembrar-te do meu pudor, da minha confusão, da minha vergonha, mas tu não te lembras de nada que possa levar-te contra vontade a amar-me.
O oficial que há-de levar esta carta previne-me, pela quarta vez, que quer partir. Como ele tem pressa! Abandona, com certeza, alguma desgraçada neste país. Adeus. Custa-me mais acabar esta carta do que te custou a ti deixar-me, talvez para sempre. Adeus. Não me atrevo sequer a chamar-te meu amor, nem a abandonar-me completamente a tudo o que sinto. Quero-te mil vezes mais que à minha vida e mil vezes mais do que imagino. Ah, como eu te amo, e como tu és cruel! Nunca me escreves; não consigo deixar de te dizer ainda isto. Recomeço, e o oficial partirá. Se partir, que importa? Escrevo mais para mim do que para ti; não procuro senão alívio. O tamanho desta carta vai assustar-te: não a lerás. Que fiz eu para ser tão desgraçada? Porque envenenaste a minha vida? Porque não nasci noutro país. Adeus. Perdoa-me. Já não ouso pedir-te que me queiras. Vê ao que me reduziu o meu destino. Adeus.

In «Cartas portuguesas», atribuídas a Mariana Alcoforado (prefácio e tradução de Eugénio de Andrade; com pinturas de Ilda David), edição bilingue (o texto francês reproduzido neste livro segue o da edição original, publicado em Paris por Claude Barbin, em 1669), colecção Documenta Poética (n.º 18), Assírio & Alvim, Lisboa, Abril de 1998 (2.ª edição).

sábado, 16 de março de 2013

«S.O.S.», poema de Miguel Torga

Imagem retirada de momentusmomentus.blogspot.com 


















Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia,
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia…

Sei que ninguém acode à íntima certeza
De que tudo acabou quando naufraga
O veleiro do sonho.
Mas honrado poeta sinaleiro
Do destino de quantos aqui vão,
Ponho
A correr mundo o grito derradeiro
Da nossa desgraçada perdição.

In «Cântico do Homem» (poesia), de Miguel Torga, edição do autor, Coimbra, Janeiro de 1974 (4.ª edição).

terça-feira, 12 de março de 2013

[Procurem a mulher o homem que num bar], excerto de «A invenção do amor e outros poemas», de Daniel Filipe


Daniel Filipe (Imagem retirada de http://saber-literario.blogspot.pt)


















[…]
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios   Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever.

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de
         automóveis
Já não basta ficar frente ao copo no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los   E é preciso encontrá-los
[…]

In «A invenção do amor e outros poemas», de Daniel Filipe, colecção Forma (n.º 1), Editorial Presença, Queluz de Baixo (Lisboa), Maio de 2006 (11.ª edição).

domingo, 10 de março de 2013

AO LUAR, trecho de «O tesouro», de Selma Lagerlöf

Selma Lagerlöf (1858-1940) 
(Imagem retirada de www.cavalodeferro.com)
Passados catorze dias da morte do senhor Arne, houve um par de noites de luar intenso e claro. Ora, numa dessas noites, andava Torarin por fora, conduzindo ao luar. Parava o cavalo de vez em quando, como se tivesse dificuldade em encontrar o caminho. No entanto, não enveredou por nenhum bosque aprazível, mas pelo que lhe pareceu ser uma vasta e aberta planície, na qual se erguiam pequenos montes pedregosos.
Toda a região estava coberta de uma neve branca e brilhante que tinha caído com tempo sereno, de forma regular e homogénea, não em montões ou turbilhões. Tão longe quanto a vista podia alcançar, só havia em redor a mesma planície regular e os mesmos montes pedregosos.
– Grim, amigo cão – disse Torarin, – se tivéssemos visto esta paisagem pela primeira vez esta noite havíamos de julgar que estávamos a atravessar uma extensa charneca. Mas decerto nos admiraríamos que o solo fosse tão regular e o caminho não tivesse pedregulhos nem covas. Mas que região é esta, diríamos nós, onde não há valas nem vedações, nem galhos ou arbustos sobressaindo da neve? E por que não vemos ribeiros nem riachos, que, aliás, costumam traçar sulcos negros por sobre os campos brancos mesmo com o frio mais agreste?
Torarin deleitava-se com estes pensamentos, e até Grim os achava agradáveis. Não se mexia do seu lugar na carroça, onde ia deitado, abrindo e fechando os olhos.
Precisamente quando Torarin terminava a sua peroração, passou por uma haste alta, à qual estava amarrada uma bóia.
– Se fôssemos forasteiros neste lugar, Grim, amigo cão – disse Torarin, – perguntar-nos-íamos decerto que espécie de charneca era esta, onde colocam marcas semelhantes às que se usam no mar. «Será que isto aqui poderia ser mesmo o mar?», diríamos finalmente. Mas iríamos achar que isso era impossível. Será que este solo, tão estável e seguro poderia ser apenas e somente água? Será que todos esses montes rochosos, tão firmes e juntos, seriam apenas ilhéus e recifes, separados por ondas agitadas? Não, não poderíamos acreditar que fosse possível, Grim, amigo cão.
Torarin ria-se, mas Grim permanecia deitado, imóvel e sereno. Continuou a conduzir, até dar a volta a um alto monte rochoso. De repente gritou, como se tivesse visto algo de estranho. Fingiu-se muito admirado, soltou as rédeas e juntou as mãos.
– Grim, amigo cão, e tu que não querias acreditar que isto era o mar! Agora já vês o que é. Levanta-te, e vais ver que aqui, à nossa frente, está um grande barco! Não querias reconhecer as marcas marítimas, mas isto não podes tu ignorar. Agora, já não podes negar que estamos a andar sobre o mar.
Torarin parou uns instantes e contemplou um grande barco, imobilizado no meio do gelo. Parecia ali completamente perdido, rodeado por aquele manto de neve, plano e homogéneo.
Ao ver que saía fumo do castelo da proa, Torarin conduziu até lá a sua carroça e chamou o mestre do barco, para saber se ele queria comprar-lhe algum peixe. No fundo da carroça já só tinha um par de bacalhaus, dado que ao longo do dia tinha passado por todos os pequenos barcos de carga no arquipélago que se encontravam imobilizados pelo gelo, tendo vendido todo o seu carregamento.
A bordo, sentados, estavam o capitão e os seus homens, morrendo de tédio. Compraram peixe ao vendedor, não porque necessitassem, mas para terem alguém com quem falar.
Quando desceram para o gelo e foram ter com Torarin, este adoptou uma expressão inocente. Começou a falar com eles sobre o tempo.
– Desde tempos imemoriais que não fazia um tempo tão bom como este ano – disse Torarin. – Já há quase três semanas que temos tido tempo calmo e um frio de rachar. É diferente daquilo a que estamos habituados aqui, no arquipélago.
Porém, o mestre do barco, que estava ali com a sua grande galeaça carregada de barricas de arenque e tinha ficado aprisionado no gelo, numa baía de Marstrand, justamente quando se preparava para se fazer ao mar, olhou severamente para Torarin e respondeu:
– Ah, sim? Chamas tu a isto bom tempo?
– E que outra coisa havia de chamar-lhe? – retorquiu Torarin inocentemente, como uma criança. – O céu está claro, azul e sereno, e a noite está tão boa quanto o dia. Nunca antes me aconteceu poder conduzir, semana após semana, a minha carroça pelo gelo. Não acontece frequentemente o mar gelar aqui ao largo, e se, por acaso, algum ano esteve coberto de gelo, veio uma tempestade logo a seguir quebrá-lo em poucos dias.
O capitão do barco permanecia de pé, sombrio e taciturno, não dando qualquer resposta à conversa de Torarin. Este começou então a perguntar-lhe porque é que não recolhia a Marstrand com a restante tripulação.
– É que não é mais do que uma hora de caminho a pé, pelo gelo.
A isto também não obteve qualquer resposta. Torarin percebeu que o indivíduo não queria abandonar a galeaça nem por um só momento que fosse, com medo de não se encontrar no seu posto quando o gelo quebrasse. […]

In «O tesouro», romance de Selma Lagerlöf (tradução de Liliete Martins e revisão de Maria Aida Moura), colecção Gente Independente (n.º 4), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2010 (1.ª edição).

sábado, 9 de março de 2013

«Processo delirante» [Teolinda Gersão, GT AO90]


O Acordo Ortográfico foi um processo infeliz, tratado nas costas da população dos países lusófonos, como se a língua fosse propriedade de um grupo de linguistas e os governos tivessem legitimidade para mudar por decreto uma língua que não é propriedade sua, mas do país e dos cidadãos. 
O percurso errático do Acordo Ortográfico arrasta-se há 23 anos (ou melhor, há 38, porque começou a ser pensado em 1975) e ainda não está legalmente em vigor, porque as populações dos vários países lhe resistem e porque, quando se tentou impô-lo pela força de um decreto, o resultado foi o caos. 
O que faltará acontecer para que os sucessivos governos reconheçam que pretendem a quadratura do círculo e que estas tentativas pura e simplesmente não funcionam? 
Recentemente a presidente Dilma adiou para 2016 a entrada em vigor do Acordo Ortográfico no Brasil, e, a acreditar nos jornais, tomou essa decisão unilateralmente, sem consultar os seus parceiros. 
Pretende-se vender-nos a ideia patética de que o português de grafia uniformizada (vulgo, o “acordês”) é a língua do poder e dos negócios. Seguindo o “acordês” todos seríamos, a reboque do Brasil, grandes potências emergentes, a caminho de um mundo magnífico de poder e riqueza, partilhado por 240 milhões de falantes. Será que não percebemos a irracionalidade desta ideia? 
A verdade é que o Brasil – ele sim – é uma grande potência emergente, o que nos alegra porque também nós o amamos. Mas Portugal, e outros pequenos países lusófonos, jamais serão grandes potências ou terão o peso do Brasil. Esse peso não é partilhável, a nível nenhum. 
Manter em cada país a sua variante da língua é uma marca de identidade e um património, que está acima do poder de qualquer governo. Porque os governos passam e mudam, mas as línguas não podem passar nem mudar como se fossem governos. 
É natural que o Brasil pretenda maior protagonismo liderando estas alterações linguísticas. Mas os restantes países lusófonos não têm nada a lucrar com isso, só têm a perder. E o Brasil, como grande potência emergente que já é, não precisa de nós, a não ser a nível simbólico. Porque, com Acordo Ortográfico ou sem Acordo Ortográfico, o Brasil vai sempre cuidar dos seus negócios e dos seus interesses, e só deles, o que é normal e legítimo: os países cuidam de si próprios, e tomáramos nós ter em Portugal quem defendesse os nossos interesses como Dilma defende os do Brasil. 
Os laços e afectos só existem a nível das pessoas. A nível dos países, há apenas interesses. Não sentimos isso na pele, aqui na Europa? Estas mudanças linguísticas são apenas uma jogada política. Em todos os outros aspectos, são incongruentes: 
Só dois exemplos: Se o Acordo Ortográfico é fundamental para que nos entendamos, então por que razão no Brasil os livros portugueses, escritos segundo o “acordês”, são traduzidos para o português do Brasil como se estivessem escritos numa língua estrangeira? Por que razão “mesa de cabeceira” passa a “criado mudo”, “ficou pasmado” a “ficou pasmo” ,”foi apanhado pela polícia” a “foi pego pela polícia” etc. etc.? 
Por que razão a nós nunca nos passou pela cabeça traduzir para o português europeu Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Ruben Fonseca ou qualquer outro autor? 
Por que razão as livrarias portuguesas têm bancas de livros brasileiros e a literatura do Brasil nos é tão familiar, quando o inverso não se verifica? 
Por que razão há cada vez MENOS estudos de literatura portuguesa nas universidades brasileiras, e cada vez MAIS estudos de literatura brasileira nas universidades portuguesas? 
A resposta é simples: Porque Portugal se abriu há muitas décadas ao Brasil, cujos autores circulam livremente entre nós, porque os sentimos como se também fossem “nossos”, enquanto o Brasil sempre levantou barreiras alfandegárias intransponíveis aos livros portugueses, que lá chegam a preços proibitivos, e na maior parte dos casos nunca chegam. 
A solução não está em “acordizar”, mas em ter um intercâmbio maior e mais simétrico, em conhecer-nos melhor, valorizando as nossas diferenças. 
Quanto ao “acordês” ser a língua dos negócios, “acção” e “facto”, por exemplo, são mais compreensíveis para qualquer estrangeiro do que “ação” e “fato” (porque mais próximas de “action” e “fact” em inglês, língua de recurso que é, e continuará a ser, a língua franca dos negócios internacionais). 
No ponto em que estamos, temos dois caminhos: 
O do senso comum, que é reconhecer que a língua portuguesa admite variantes, nos diferentes países onde é usada, o que só a enriquece. Não pode haver qualquer hierarquia entre os países lusófonos, nem entre as suas variantes linguísticas: Nenhum país é dono da língua, e nenhum é inquilino. Vamos deixar a língua evoluir naturalmente, a partir de dentro e não por decretos, porque ela é um organismo vivo, e cada país a usa a seu modo, como bem entende e quer, porque ela é sua e lhe pertence por direito próprio. Nenhum país tem o direito de policiar ou fiscalizar o uso da língua em qualquer outro país lusófono. O português não é uniformizável, qualquer acordo é um contra-senso. Mesmo que fosse possível “acordar” e “simplificar” o resultado seria imensamente empobrecedor. 
Ou entendemos isto e desistimos de acordos, ou vamos persistir por muitas décadas neste processo delirante de acordos impossíveis – um acordo ortográfico falhado atrás de outro, seguido de um já anunciado acordo de vocabulário que irá ser igualmente falhado, e depois um acordo de sintaxe falhado, etc. etc. – …até bater na parede de um imenso Desacordo final, que deixará profundo desgaste e feridas a todos níveis, entre países que sempre souberam entender-se e conviver, respeitando e valorizando as suas diferenças. 
Deixo ainda uma breve nota de carácter prático: Certamente que é útil a existência de Vocabulários e Dicionários que abranjam as variantes usadas nos diversos países. Mas apenas como instrumentos de informação e de consulta, onde se encontrem respostas a perguntas como: em que variantes da língua se escreve húmido ou úmido, ou o que significam palavras como xiluva, caxinde, imbandas, quizumba, tambarina, cachupa, kebur, ipê etc. Mas considero que os Vocabulários e os Dicionários só fazem sentido sem qualquer valor normativo, cada país tendo direito exclusivo à sua variante da língua, sem imposições ou interferências de outro país. 


[Transcrição de sinopse da intervenção da escritora Teolinda Gersão na audiência de 07.03.13 concedida pelo Grupo de Trabalho parlamentar sobre o AO90.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Excerto de «O Senhor Ventura», de Miguel Torga


A volta do meu herói a este velho continente faz-me sempre estremecer o coração.
A história do filho pródigo nunca me deixou sereno. Quando em pequeno lia essa trágica novela do primeiro revoltado contra a palha puída da casota onde a vida nos mete, e onde medram, gordas, as pulgas domésticas, comovia-me sempre. Já nesse tempo eu era capaz de ver o que há de legítimo em cada partida e de fatal em cada regresso. Com os anos, a rebeldia do primeiro capítulo e a alegria do último perderam muito da sua magia. Até que era bom não amar e não ser amado eu aprendi! E aquele jovem insubmisso a guardar porcos em casa alheia passou a ser a meus olhos um símbolo invejável e promissor da fecunda solidão. Depois, fui mudando de ideias. Comecei a achar graça aos próprios parasitas do ninho, e, sem de nenhum modo pensar que é um alto destino ser mordido por eles, aceitei sem relutância que o rapaz da Bíblia tornasse, arrependido, à casa paterna.
Que é o caso presente do Senhor Ventura. O alentejano vem direito a Penedono. Traz às costas algumas mortes, um lar falhado, a certeza de um filho, e os olhos cheios de estranhas e sobrepostas imagens. Não foi, visivelmente, a castiça saudade nossa que o empurrou de oriente para ocidente, nem parece ter consciência de que há uma solidariedade que nada pode destruir entre a pedra rolada e a penedia de onde saiu. Mas vem. Milagrosamente, a mão do infortúnio lavou-o das nódoas mais essenciais. Entra no lar, não digo repeso de ter partido (nem era de desejar que assim acontecesse), mas instintivamente disposto a pagar o que deve à condição nativa. E isto toca-me cá por dentro.
Como logo no princípio expliquei, toda a história do meu herói é-me conhecida já, e eu conto-a a mim próprio nas horas de melancolia. Em cada paragem não faço mais do que tentar uma pequena meditação sobre um destino que é mais colectivo do que individual. Agora, desembarcado nesta urbana Europa, e a caminho de casa, que é o Senhor Ventura senão o efeito irremediável dum tropismo que nos anda no sangue e nos chama em qualquer parte do mundo a este pobre redil lírico e desconfortável, ao mesmo tempo tão absurdo e tão humano? Ah, eu acredito que esta fidelidade inconsciente ao granito, ao luar e à urgueira, encerra uma grande lição de vitalidade e de singularidade. Vejo nela uma prova do nosso destino nacional e universal. Mandado pelo governo chinês, ou pela sorte, ou até por um acaso onde não haja nem a hipótese duma razão, o alentejano, que foi do mundo inteiro, é outra vez daqui. A misteriosa e peregrina verdade é esta.

In «O Senhor Ventura» (com um prefácio do autor), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1985 (2.ª edição refundida).

terça-feira, 5 de março de 2013

[Mais versos de amor], excerto de «Poemas de amor do Antigo Egipto»

Imagem retirada de http://cinabrio.over-blog.es 
















VII

ELE
Navego pelas «Águas do Rei»,
E depois pelos canais de Heliopolis:
O meu destino o sítio das tendas
À entrada do Porto de Mertu.
Tenho de me apressar!
Inquieto, excitado,
O meu coração exalta-se em oração,
Oração a Ra, o deus do sol.
Poderei vê-la
Quando caminha ao longo do rio.

ELA
Contigo aqui em Mertu
É como se já estivesse em Heliopolis.
Regressamos ao jardim das muitas árvores,
Os meus braços cheios de flores.

Olhando o meu reflexo no quieto lago –
Os meus braços cheios de flores –
Vejo-te a aproximares-te pé ante pé
Para me beijares por trás,
Os meus cabelos carregados de perfume.

Com os teus braços à minha volta
Sinto-me como se pertencesse ao faraó.

In «Poemas de amor do Antigo Egipto» (os poemas datam de entre 1567 a.C. e 1085 a.C.), com tradução de Hélder Moura Pereira e introdução de Paulo da Costa Domingos, Colecção Gato Maltês (n.º 35), Assírio & Alvim, Lisboa, Janeiro de 1998 (1.ª edição).

domingo, 3 de março de 2013

[A HORA DA PARTIDA], excerto do livro «O amante» de Marguerite Duras

Marguerite Duras – Fotografia retirada de http://www.lefigaro.fr
Quando se aproximava a hora da partida, o barco lançava três apitos de sirene, muito compridos, de uma força terrível, ouvia-se na cidade toda e para os lados do porto o céu ficava negro. Então os rebocadores aproximavam-se do barco e puxavam-no para o meio do rio. Depois, os rebocadores soltavam as amarras e voltavam para o porto. Então o barco dizia adeus ainda mais uma vez, lançava de novo os seus mugidos terríveis e tão misteriosamente tristes que faziam as pessoas chorar, não só as da viagem, as que se separavam, mas também as que tinham vindo ver, e as que estavam ali sem uma razão precisa, que não tinham ninguém em quem pensar. O barco depois, muito lentamente, com as suas próprias forças, embrenhava-se no rio. Via-se durante muito tempo a sua forma alta avançar para o mar. Muita gente ficava ali a olhá-lo, a acenar cada vez mais lentamente, cada vez mais desencorajadamente, com os seus xailes, os seus lenços. E depois, por fim, a terra levava a forma do barco na sua curvatura. Em tempo claro, víamo-lo afundar-se lentamente.

Ela também, fora quando o barco lançara o seu primeiro adeus, quando tinham recolhido a escada de portaló e os rebocadores começado a puxá-lo, a afastá-lo da terra, que tinha chorado. Fizera-o sem mostrar as suas lágrimas, porque ele era chinês e não se devia chorar esse género de amantes. Sem mostrar à mãe e ao irmãozinho que sofria, sem mostrar nada, como era habitual entre eles. O grande automóvel dele estava lá, comprido e negro, no banco da frente o motorista fardado de branco. Estava um pouco afastado do parque de automóveis da companhia marítima, isolado. Ela tinha-o reconhecido por esses sinais. Era ele na parte de trás, essa forma quase invisível, que não fazia qualquer movimento, abatido. Ela estava encostada à amurada como da primeira vez na barcaça. Sabia que ele olhava para ela. Ela também o olhava, já não o via mas ainda olhava para a força do automóvel preto. E depois, por fim, tinha deixado de o ver. O porto apagara-se, e a seguir a terra.

Havia o mar da China, o mar Vermelho, o oceano Índico, o canal de Suez, de manhã acordávamos e já estava, sabíamo-lo pela ausência de trepidações, avançávamos pelas areias. Mas antes do mais havia aquele oceano. Era o mais distante, o mais vasto, chegava ao Pólo Sul, o mais comprido entre escalas, entre Ceilão e a Somália. Às vezes estava tão calmo e o tempo tão puro, tão suave, que, quando o atravessávamos, parecia como que uma outra viagem que não esta através do mar. Então o barco todo se abria, os salões, as coxias, as vigias. Os passageiros evitavam as cabinas tórridas e dormiam mesmo no convés.

No decorrer de uma viagem, durante a travessia desse oceano, alguém morrera. Ela já não sabia muito bem se foi no decorrer dessa viagem ou doutra viagem que isso aconteceu. Havia gente que jogava às cartas no bar da primeira classe, entre os jogadores, um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, tinha pousado as cartas, saíra do bar, atravessara o convés a correr e atirara-se ao mar. O tempo de parar o barco que ia com muita velocidade, e o corpo tinha-se perdido.

Não, ao escrever isto, ela não vê o barco mas um outro lugar, o lugar em que ouviu contar a história. Era Sa Déc. Era o filho do administrador de Sa Déc. Ela conhecia-o, ele também andava no liceu de Saigão. Lembra-se dele, muito alto, o rosto meigo, moreno, óculos de aros de tartaruga. Não se tinha encontrado nada na cabina, nenhuma carta. A idade ficou na memória, aterrorizante, a mesma, dezassete anos. O barco voltara a pôr-se em funcionamento ao alvorecer. O mais terrível era isso. O nascer do Sol, o mar vazio, e a decisão de abandonar as buscas. A separação.

E outra vez, ainda no decorrer dessa mesma viagem, durante a travessia desse mesmo oceano, a noite já começara também, aconteceu no grande salão do convés principal o estalar duma valsa de Chopin que ela conhecia de modo secreto e íntimo porque tentara aprendê-la durante meses e nunca tinha conseguido tocá-la correctamente, nunca, o que fizera com que depois a mãe consentisse em deixá-la abandonar o piano. Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha passara-a justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada através do mar.
………………….

In «O amante», de Marguerite Duras (tradução de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira), Círculo de Leitores (licença editorial por cortesia de Difel), Casais de Mem Martins (Rio de Mouro), Fevereiro de 2003 (1.ª edição).