sábado, 27 de abril de 2013

Excerto de uma intervenção política de Miguel Torga em Arganil, em 23 de Abril de 1976


Quando, já lá vão muitos anos, a inventariar coisas da pátria, vi Arganil pela primeira vez e me enamorei da sua rústica capelinha de São Pedro, honradamente construída de pedra rolada, estava longe de supor que esta terra viesse a figurar tão grata e repetidamente no meu itinerário existencial. Mas a vida é uma surpresa quotidiana, mesmo se não damos por isso. A minha, pelo menos. Aqui tratei o melhor que pude, na sua Misericórdia, milhares de doentes; aqui venho acordar o Alva nas madrugadas cinegéticas; aqui acompanhei à última morada os restos mortais, quase abandonados, de Veiga Simões, um dos seus filhos mais ilustres, que os esbirros dum déspota perseguiram até à cova; aqui me trouxeram, e continuam a trazer, cuidados cívicos. Hoje é em função deles, precisamente, que me encontro entre vós. Felizmente, de resto, porque em poucos sítios de Portugal e diante de nenhum mais adequado auditório eu poderia abrir tão confiada e proveitosamente o coração apertado. E sem retórica o digo.

In «Fogo Preso», de Miguel Torga, edição de autor, 1976.

CONSULTAR:
«Correspondência de um diplomata no III Reich – Veiga Simões: ministro acreditado em Berlim de 1933 a 1940»

quinta-feira, 25 de abril de 2013

PREFÁCIO (do livro «Fogo preso»), de Miguel Torga

Miguel Torga (Adolfo Rocha)
QUERIDO LEITOR:

Vais ler, baptizadas com um título simbólico, algumas páginas de circunstância. Fogo preso é, como sabes, a expressiva designação de um género de pirotecnia em que toda a inventiva se processa ao rés-do-chão. Ao invés da girândola, do morteiro ou do simples foguete de três respostas, que são delírios soltos, aqui a fantasia arde, roda, faísca, estoira, mas não voa. Amarrado, o engenho do artífice não tem licença para subir ao céu de nenhuma ilusão e desprender-se de lá, no fim da vertigem, numa lágrima de colorida melancolia.
Fiado no poder analógico da imagem, na força alusiva com que ela poderia inculcar às atenções despertas a atmosfera concentracionária dos nossos últimos cinquenta anos ou a espécie de respiração suspensa em que o convulso vinte e cinco de Abril nos tem mantido, resolvi subordinar-lhe o conteúdo do livro, mesmo o que nele parece menos condicionado e contrafeito. Na verdade, tão premente e subversivo foi, em dado momento, acusar o poder armado, tecto de todas as arbitrariedades, como alertar agora a consciência nacional contra os equívocos de uma libertação sem francas vocações de liberdade. E se outrora já era penoso, a propósito de uma simples comemoração ou homenagem, denunciar por dever de ofício o espírito da velha Universidade coimbrã – que na sua tacanhez provinciana, na sua presunção dogmática, na sua intransigência, tanto suporte e alento tem dado às várias ordens reinantes –, não o é menos, hoje em dia, subir a um estrado e expor a timidez, com a aflição contida de quem se sabe sozinho e nunca fala senão à sobreposse. Fogo Preso, portanto, pois que por vários lados o rótulo servia. Na pior das hipóteses, se algo de mais não dissesse, restar-lhe-ia a virtude de emprestar o seu calor a alguns ímpetos de comunicação reduzidos à impotência…
Páginas de circunstância, realmente, datadas como nenhumas outras no tempo e na motivação. Redigidas no ardor da refrega, sem premeditação e sem vagar, à queima-roupa, pergunto a mim mesmo que frémito poderão guardar ainda dessas horas de protesto. Em que medida serão capazes de mostrar convincentemente à curiosidade vindoira a experiência trágica que as motivou. A via dolorosa de um povo inteiro, sucessivamente traído com o mais cínico desprezo ou o mais demagógico impudor, a que só alguns, de longe em longe, por especial benevolência ou táctica do opressor – e debaixo do seu olhar vigilante – davam expressão indignada e dorida, multiplicada a medo pelo arrebatamento catártico ou mimético dos restantes.
Espécimes de grafia singular, mais revulsivos que impressivos, todos os trechos panfletários enfermam do mesmo mal. Em vez de inspiradamente revelarem à consciência colectiva a fisionomia profunda que a configura, é a paixão colectiva que neles vem à tona e neles se corporiza, seja pela expectativa com que porventura os aguardou, pelo entusiasmo com que acaso os aplaudiu, ou até pela qualidade do silêncio que manteve a ouvi-los.
À sua profana maneira, cada manifestação cívica é uma missa solene. E é como sucedâneo religioso que um comício, ao mesmo tempo, se nobilita e se degrada. O que subconscientemente toda a assembleia espera é que, através dos seus rituais gregários, as orações proferidas sejam como que exórdiios consubstanciais de uma comunhão geral. Nunca o tribuno diz de si ou dos presentes nada que valha. Mesmo sem querer, serve-se magicamente de uma linguagem superlativa, encantatória, que tenha avanço e recuo conforme as ondulações afectivas da multidão. Ansioso, atento e sensível à mais ligeira reacção dos participantes, embruxado pelo som da própria voz e medido pelo tamanho das objurgatórias que vocifera, tem tanta necessidade de se convencer do que afirma como de convencer os outros. E só quando, num esforço de auto-sugestão e teimosa indução, acaba por ficar sugestionado e consegue sugestionar o auditório, o milagre acontece. Nesse momento, a comunicação é recíproca e o transe é perfeito. O rio de veemência entra no mar emotivo e perde-se na imensidão sonora. Os horizontes da ideia pregada pouco ou nada terão sido alargados; mas saiu reforçada a fé na ideia. A retórica é isso, de resto: uma exaltação que apenas na ambivalência encontra o seu tónus. Se a música não empolga, deixa de ser um hino.
Porque se operam no campo versátil da opinião pública, os textos de carácter prosélito são verdadeiras criações colectivas, pois que só no espelho do aplauso eles se reflectem acabados e agónicos. Antes dessa glorificação, não passam de barro verbal atirado à parede. Depois dela, resta-lhes o esquecimento ou o pó dos arquivos. Uma produção literária pode esperar o tempo que for preciso para ser elaborada, lida e compreendida. Mas as alocuções políticas têm os minutos de vida contados à nascença, e o juízo que as condena ou absolve é sumário e sem apelo. Próximo delas, o teatro, que também radica a vitalidade na reacção das plateias, beneficia, contudo, do recurso à emenda, à modificação, ao acerto e até à actualização em posteriores representações. O discurso, esse, esgota-se no acto de ser pronunciado. E, quem diz discurso, diz entrevista, mensagem, palestra, ou a mais ingénua lauda de natureza empenhada, a que só o carácter activista dá episódica razão de ser. Lembram aquelas fotografias instantâneas tiradas nos parques e nas feiras. O fotografado fica bem ou mal, irremediavelmente. Não há segunda prova do retrato.
Assim, ao lado de outras, talvez menos precárias, que darão testemunho do poeta, ficarão estas páginas, sem vocação e sem torno, a mostrar o cidadão. O cidadão que nos momentos inadiáveis de optar e de afirmar optou e afirmou, e que nos de correr um risco que não podia ser protelado o correu também, numa profissão de fé em que assumia antecipadamente toda a frustração que viesse a seguir. Há ocasiões em que a consciência de um escritor, por muito lúcido que seja, passa pela exigência, mesmo caprichosa, dos seus leitores. E, então, não pode hesitar nem inibir a caneta. Se determinados textos têm de estar à altura da obra de um autor, outros terão de estar à altura do autor da obra. Mais do que a doutrina que exponha e o brilho literário que exiba, é o aval do seu nome que está em jogo. E tem de fazer das tripas coração. Qualquer galeriano das letras, enquanto tal, só usa a pena ao serviço do artista que é. Escrevendo, salva-se a si próprio e salva, no que escreveu, quem depois o lê. A sua função é criadora, portanto, e não pedagógica. Mas porque é também um homem socialmente responsável, quando reconhecido na sua sinceridade, sente que tem o dever de ir junto dos que acreditam nele. E ei-lo transformado num paladino, com o verbo a vibrar por conta da grei. Simplesmente, muito do que poderá dizer, agora por obrigação e por extenso, já o tinha dito antes gratuita e sobriamente. E cai no paradoxo de acrescentar à sua obra o seu próprio comentário, muitas vezes a estragar com ênfase o que era singelo na origem. Podendo ocasionalmente ser um céptico, por não ter razões objectivas de esperança ou o seu optimismo se reduzir ao deliberado propósito de encontrar um sentido feliz à História, diante de uma leitura de esperança imediata que lhe façam nas entrelinhas do que escreveu, que remédio senão empunhar essa esperança e transformá-la em bandeira do advento próximo! E bandeira rubra, se possível, como o sangue ardente e solidário que lhe corre nas veias.
A desgraça é que, na maioria dos casos, a abnegação é em pura perda. Os exemplos abundam desde que Portugal existe. Os de Herculano, de Oliveira Martins e de Antero são eloquentes. Um a ser desrespeitado no parlamento, outro a ser corrido de ministro, e o terceiro a servir de bode expiatório no fracasso da Liga Patriótica do Norte. Pondo em termos peremptórios coisas que eram de menos evidência, coagido a falar do que lhe não vai na índole, animado de uma militância que no fundo não lhe apetece, ou a exortar vontades que no íntimo se riem dele, o artista acaba por verificar, quase sempre, que nem sequer valeu a pena o sacrifício. Os resultados são notoriamente parcos ou nulos. Quando muito, o mais que conseguiu foi ser acompanhado apenas no tempo episódico da oralidade. Ou, então, é quase certo negarem-lhe os triunfos que alcançou e responsabilizarem-no pelas derrotas de que não é culpado.
Ao fazer-se homem público, o poeta empresta a voz a quem a não tem, e arrisca-se a ficar sem voz e sem eco. Os ouvidos da multidão ouvem mas não escutam. Porque, afinal, toda a sociedade é, no fundo, conformista. Revoltado e sincero, só ele. Só ele deseja com todas as veras da alma um mundo inequivocamente livre, onde cada qual tenha vergonha da condição diminuída do semelhante, e ninguém se sinta privilegiado e se esbarre com outra sombra que não seja a sua. Infelizmente, esse anelo, aninhado no seu desespero, não se põe apenas à escala cívica, nem à escala histórica, mas ao nível do que vai de eternidade na pessoa e no tempo.
Seja como for, acossado pelos problemas do quotidiano pátrio, vinculado pela dignidade e solicitado por mil apelos, também eu roubei às minhas horas autónomas de criador, algumas horas de contestação directa. E são elas, já só mornas como brasas apagadas, que tenho agora à minha frente, amortalhadas nestes papéis, documentos de uma actuação vã e inevitável como os destinos que têm de se cumprir, bem ou mal. Papéis que não posso destruir, porque seria destruir uma parte de mim, e que só publico porque não quero lavar as mãos de nenhum dos actos que pratiquei.

In «Fogo preso», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1976.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Excerto de «O golpe de misericórdia», de Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar – Foto retirada de http://frases.globo.com
Fi-lo revistar sem lhe encontrar nos bolsos um único papel que me informasse sobre o destino de Sofia. Em compensação, trazia consigo um exemplar do Livro de Horas de Rilke, que Conrad também tinha apreciado. Este Grigori fora provavelmente o único homem, naquele país e naquela época, com quem eu teria podido conversar agradavelmente durante um quarto de hora. É preciso reconhecer que essa mania judaica de se elevar acima do comércio de velharias paterno tinha produzido em Grigori Loew esses belos frutos psicológicos que são a dedicação a uma causa, o gosto pela poesia lírica, a amizade para com uma jovem ardente e, finalmente, o privilégio, um tanto aviltado, duma bela morte.
Um punhado de soldados resistia ainda no celeiro de feno situado no alto duma granja. A longa galeria sobre estacaria, vacilando sob a pressão das águas, ruiu finalmente com alguns homens agarrados a uma longa trave. Colocados na contingência de ter de escolher entre o afogamento e a execução, os sobreviventes renderam-se sem alimentar ilusões quanto à sorte que os esperava. De uma, e outra parte, já se não fazia prisioneiros – e como arrastar prisioneiros atrás de si naquela devastação? Um a um, seis ou sete homens extenuados desceram com passo incerto a íngreme escada de mão que conduzia do celeiro de feno ao barracão, a abarrotar de pequenos fardos de linho bolorento e que dantes servira de armazém. O primeiro, um jovem gigante loiro ferido na anca, vacilou, falhou um degrau e estatelou-se no solo, onde alguém o acabou. De súbito, reconheci no alto dos degraus uma cabeleira resplandecente e em desalinho, idêntica à que vira desaparecer debaixo da terra três semanas antes. O velho jardineiro Miguel, que me tinha vagamente acompanhado à maneira duma ordenança, levantou a cabeça entontecida por tantos acontecimentos e fadigas, e exclamou estupidamente:
– Menina…
Era efectivamente Sofia, que me fez de longe o aceno de cabeça indiferente e distraído duma mulher que reconhece alguém, mas que não tem empenho em ser abordada. Vestida, calçada como os outros, dir-se-ia um soldado muito jovem. Atravessou com passo longo e flexível o pequeno grupo hesitante reunido na poeira e na fraca luminosidade da alva, aproximou-se do jovem gigante louro estendido junto da escada, lançou sobre ele o mesmo olhar duro e terno que tinha concedido ao cão Texas numa tarde de Novembro, e ajoelhou-se para lhe fechar os olhos. Quando se levantou, o rosto retomara a expressão ausente, monótona e tranquila como a dos campos lavrados sob um céu de Outono. Obrigámos os prisioneiros a ajudarem no transporte das reservas de munições e de víveres até à estação de Kovo. Sofia fechava a marcha; as mãos pendentes, tinha o ar desenvolto dum rapaz que acaba de ser dispensado dum trabalho penoso, e assobiava Tipperary.  
Chopin e eu caminhávamos no mesmo passo a alguma distância, e as nossas fisionomias carregadas dir-se-iam de familiares num enterro. Mantínhamo-nos calados, e cada um de nós, desejando nesse momento salvar a jovem, suspeitava o outro de se opor ao seu projecto. Quanto a Chopin, pelo menos, essa crise de indulgência não tardou a passar, pois daí a algumas horas já ele se mostrava tão decidido ao extremo rigor como teria procedido Conrad, se estivesse no lugar dele. Para ganhar tempo, dispus-me a interrogar os prisioneiros. Encerraram-nos num furgão, para gado abandonado na via, e trouxeram-mos um por um até ao gabinete do chefe da estação.

In «O golpe de misericórdia», de Marguerite Yourcenar (com introdução/prefácio de Agustina Bessa-Luís; e tradução de Rafael Gomes Filipe), colecção Biblioteca de Bolso [Literatura] (n.º 52), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 2003 (2.ª edição de bolso).

sábado, 13 de abril de 2013

O CHARLATÃO, conto de Miguel Torga

Miguel Torga – Foto retirada de http://largodamemoria.blogspot.pt





















– Quando qualquer de V. Ex.as, às quatro horas da manhã, arrancado brutalmente dos braços de Morfeu por uma guinada do dente do siso, se vir desamparado e desgraçado, dirá então com amargura: – Razão tinha o amigo Balsemão ao microfone! Comprasse eu um tubo daqueles famosos comprimidos, e não estaria agora aqui a sofrer como um cão! – Dores reumáticas ou ciáticas, nevralgias, enxaquecas, cólicas e pontadas – tudo este maravilhoso remédio alivia instantaneamente, isto é: num abrir e fechar de olhos.
Falava de cima duma cadeira, em pé, ao lado da mesa onde colocara um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pelos ombros, e era impossível fugir à magia da enorme cabeleira que lhe coroava a larga fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada tinha já freguesia a beber-lhe as palavras. Da sua voz sugestiva, grave, difundida pelo ampliador, tirava quantas inflexões eram necessárias para encantar homens de todas as terras e feitios.
– E o mais curioso é que este tubo, que vale doze escudos na farmácia, não custa nem dez, nem oito, nem sete, nem mesmo seis, aqui. Custa apenas cinco! Menos de metade, portanto. Barato, e a última descoberta científica do século! Ácido acetilossalicílico! Façam favor de ver…
E só mesmo um cego é que não via.
– Produtos Balsemão! Ninguém se esqueça: Balsemão! E a propósito: vou contar-lhes uma rica piada.
Os que já faziam parte da roda, arrebitavam a orelha; os que andavam na sua vida, paravam e ficavam maravilhados a ouvir. No fim todos se riam, que a coisa não era para menos.
– No período aflitivo da guerra, quando eu seguia muito sossegado da vida na carripana, aparece-me de repente um polícia da fiscalização. – Que leva o senhor na furgoneta? – perguntou, carrancudo. – Produtos Balsemão – respondi, na minha inocência. – Abra! Abri, e mostrei-lhe os meus quatro filhos, que iam dentro, a dormir…
Os tempos corriam mal. Deus sabe com que vontade quem tinha os precisos para o resto do ano os vinha vender por qualquer preço. Por isso, depois de duas lágrimas dadas ao balido saudoso duma ovelha, à mansidão dum porco criado a caldo, ou à brancura duma peça de linho fiada à luz da candeia em horas roubadas ao sono, era um alívio perder meia hora ali. Iam-se embora as tristezas, as canseiras, os cuidados, e a feira passava a ter o ar de festa que o coração de todos pedia.
E não pensasse lá que acreditavam nas aldrabices que dizia do novo elixir! Quem?! Enfim, como eram só dez tostões… Às vezes, para um remedeio…
– Vou agora mostrar à digna assistência, a título de curiosidade, a autêntica víbora da fortuna! A autêntica, reparem bem. Porque, infelizmente, até nestas coisas sérias e sagradas há contrafacções, vigários, como se costuma dizer. Mas esta, garanto a V. Ex.as
E ele a dar-lhe com a excelência! Que trampolineiro!
Adivinhava a muda censura, e sorria. Quem é que não gosta uma vez na vida de ser tratado por excelência?! E a prova é que um de Almalaguês perdeu a cabeça e comprou por trinta escudos, sem hesitar, aquele «Talismã da Ventura».
– Bem burro! – não se conteve uma criada, cheia de pena de não ter sido ela.
– Era única, menina! Aproveitasse! – dizia, a entregar a cobra enfrascada e a tirar já nova maravilha das profundezas do baú.
– Sarna, pruridos, eczemas, impingens, urticária, lepra, psoríase, furúnculos – tudo quanto uma pele humana possa conceber –, é um ar que lhe dá. Reparem: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouca, que é para poupar, cobre-se com um farrapinho, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze!
Até um soldado estendeu o braço à pechincha.
– Tu para que é que queres isso?! – perguntou, espantado, um colega.
– Sei lá!
Não prestava, era a convicção geral. Mas aqueles olhos a fuzilar o mal e a curá-lo, aquele rato branco de quando em quando parado e atento às palavras do dono, aquela mão erguida ao alto como um destino, dobravam a vontade do mais pintado.
Aldrabão!... – gritava o resto do bom senso de cada um. Pois sim! Viessem ouvi-lo. Esperassem um instantinho, e então se veria.
– Eu sei que há muitas pessoas que me chamam charlatão. Coitadas! Onde pode chegar a ignorância humana! Ora vejamos…
E trapaceiros, daí a nada, passavam a ser os honrados indivíduos que todos os da roda consideravam pessoas de bem. Agora ele?! Pelo amor de Deus! Quem é que tinha a coragem de vir assim honestamente explicar os factos, receber sugestões, pôr-se, numa palavra, em contacto directo com a massa dos humildes? Charlatão! Sempre a mesmíssima coisa! Sempre a costumada ingratidão pátria pelos seus valores! Conheciam a anedota, não é verdade? Numa festa do Minho, cheia de animação, um rapazito subia a um mastro ensebado. Por acaso, estavam presentes um francês, um inglês e um português. O francês aplaudia, apenas; o inglês não aplaudia e, disfarçadamente, ajudava o garoto, se o via desanimar; o português, esse, berrava como um danado: – Força, força! Mas quando o cachopo ia agarrar a prenda, puxou-lhe por uma perna! Hã? De topete, o patriciozinho! Ora por essas e por outras é que ele era charlatão. Queriam-lhe puxar também por uma perna. Felizmente que não se deixava vencer às primeiras, e tinha a consciência tranquila. Dava o mundo inteiro por testemunha da sua isenção e da sua honradez…
– Sim, porque eu sou um cavalheiro na verdadeira acepção da palavra! Ou duvidam?
O silêncio de todos bastava-lhe como resposta. Simplesmente, aquele universal acordo quanto à sua dignidade moral e honestidade profissional tocava-lhe as fibras mais sensíveis do coração. Era um sentimental. E a esse respeito, até para amenizar a conversa, ia abrir-se com o seu fiel auditório, com o bom e generoso povo da sua terra. Ia contar o que nunca contara, nem gostava até de recordar. Mas, enfim, já agora… Porque, debaixo daquela aparência de pessoa alegre, bem disposta e saudável, tinha tido também os seus dissabores e as suas aflições… Justamente por ser um emotivo, um banana!
Um de Vila-Meã, presente, ouvira-lhe o mesmo palavreado em Pombal. Apesar disso, ficou. Sempre queria ver se a história a seguir seria a mesma.
– Aqui há vinte anos, acabara de eu chegar de Paris, quando de repente, numa rua de Lisboa… Quê?! O senhor não acredita que eu fui a Paris?! Olha, olha, não acredita! Sou um homem muito viajado, santinho! Está aqui o meu passaporte. Queira examinar… Faça favor.
Tinha de provar tudo. Como um professor atento à disciplina e às dúvidas da turma, mal alguém se mexia impaciente ou mostrava nos olhos uma névoa de incredulidade ou de incompreensão, estendia-lhe o documento elucidativo ou a palavra iluminada, a ajudá-lo! Só quando todo o auditório respirava entendimento e aceitação, sossegava e prosseguia.
– Está convencido? Muito bem. Dizia eu então que ia a passar numa rua de Lisboa, quando de repente vejo à janela dum sexto andar uma linda rapariga. Alto! – gritei, entusiasmado. – Aquela cachopa convém-me! E como sempre fui um rapaz desembaraçado, pelas escadas acima parecia um gamo. Cheguei lá com o coração a sair-me pela boca. Porque, parecendo que não, este meu relógio não é de fiar… Muitas emoções seguidas. Enfim, misérias do corpo humano. Segue-se que bati à porta, vieram abrir, e aqui é que foram elas! – Desejava alguma coisa? Os senhores estão a ver a cena?! Os senhores representam bem na imaginação o meu encravanço?! Há horas na vida!... Palavra de honra! Bem, mas a gente não deve desistir às primeiras. Enchi-me de coragem e disse cá para comigo: Balsemão, quem não se arriscou, nem perdeu nem ganhou! E zás: – Queria falar com a menina. – Diga-me o nome, faz favor. – Carlos Balsemão Pimentel da Silva, um seu criado. – Tenha a bondade de entrar e de esperar um instantinho. E que é que o respeitável público cuida que aconteceu? Que fui corrido a pontapés? Que fui preso? Nada disso. De alguma coisa me há-de valer a experiência. Um mês depois estava casado com a tal pequena.
Realmente não se podia deixar de aprovar com um sorriso tanta ousadia e desfaçatez.
– Entre os presentes há certamente quem esteja a pensar nos inconvenientes dum casamento assim. E têm toda a razão… Eu que o diga!...
O de Vila-Meã, pela calada, ia-o observando. Até ali a história era exactamente a mesma. Quanto à tristeza que lhe ensombrava o rosto, não podia ser fingida. Certas coisas não se fingem… Não. Aquilo não podia ser tudo mentira…
– Pois é verdade! Casamentinho excomungado! Eu a pensar que ia buscar a felicidade ao tal sexto andar, que tinha tido, ao passar na rua, o palpite da sorte grande, e sai-me um bilhete branco!
O de Vila-Meã sorriu à imagem.
– Bem, mas um fulano quando compra a burra não lhe apalpa o fígado. Fia-se na cor dos olhos… E já agora, que falei em fígado, não me vá depois esquecer…
E começou então a cura universal da icterícia, com um chá maravilhoso de folhas duma planta secreta, cujo nome lhe fora revelado por um landim que conhecera numa das suas numerosas viagens à África…
Desta vez, porém, a assistência ficou insensível.
– Não?! Não há nenhum hepático, aqui?! Mas isso é um milagre! Isso é um fenómeno! Nenhum dos presentes tem dores na barriga, à direita, ou sente enjoos, ou aparece com a língua saburrosa, de manhã?
O mesmo silêncio desconfiado. Icterícia! O homem parecia parvo! Chá dos pretos, de mais a mais! Quem é que ia agora meter porcarias daquelas no corpo?! E logo para o fígado! Livra! A história, se a queria acabar, e viva o velho! Uma pomadinha para a pele, vá lá com mil diabos! Mas drogas para o fígado!...
De segundo a segundo a onda de indignação subterrânea ia crescendo.
Mas o timoneiro daquele barco humano conhecia o mar.
– Não há?! Pronto, não se fala mais nisso! Os meus sinceros parabéns, e podem levar uma vela a Santo Ambrósio…
Olhou a muda agitação da seara. O povinho! O patarata do Zé Pagode a congeminar! Ele tratava-lhe da saúde! Ainda tinha pulso para o dominar. Para o fazer rir ou chorar consoante lhe desse na real gana, e para lhe impingir no intervalo quantas porcarias coubessem no baú. Não queriam agora o chá da icterícia? Gramavam-no para outra vez. Tão certo como dois e dois serem quatro! Lá isso, santa paciência…
 – E vamos então continuar a nossa história. A minha, afinal de contas. E um grande romance, se eu soubesse escrever! Desgraçadamente, não sei. Conto… Conto, e a maior parte das vezes a sentir que toda a gente está a duvidar de mim…
O de Vila-Meã continuava atento, a observá-lo.
– Pois é verdade: o raio da mulher parecia um anjo! Como tinha os olhos azuis e uma vozinha de rola, ó senhores, aquilo era como um querubim: – Carlinhos, tu não queres marmelada? Carlinhos, vamos ao cinema, vamos? Chamava-me Carlinhos, o coirão! – Mas, ó Maria da Luz, tu não vês que me faz desarranjo?! Que se não durmo não posso ir amanhã fazer a feira a Setúbal?!! – Deixa lá a feira, filho! Então tu trocas a tua Mariluz pela feira?! Estão a ver o paleio?! Era de um homem ficar doido. – Ó mulher dos meus pecados, bem sabes que temos que pensar no futuro, que é preciso trabalhar!... – Então vai… Vai, meu querido… E no dia seguinte lá ia eu. – Adeus, meu amor! Adeus… São só três dias… Tem paciência… Dá cá uma beijoca…
O fiel auditório ria da beijoca. Mas ele não se queria demorar ali.
 – Ficava em soluços ao cimo da escada. Ora, como sabem, a minha vida é de casa de Caifaz para casa de Pilatos… Estou a maçá-los?! Vejam lá! Se estou, digam, que eu mudo de assunto.
(O mesmo paleio de Pombal)
– Não? Bem, então, se não incomodo, continuo. Em que ponto íamos nós? Ah, já sei! Falava das sucessivas deslocações a que me obriga a profissão. Muito bem! Ora eu morava, como disse, em Lisboa. Não?! Não disse? Então é que me esqueceu. Mas morava. Na mesma casa. Naquele sexto andar fatídico!... É claro que quando saía me demorava vários dias por fora. O que ainda hoje acontece, de resto. A correr o país de lés a lés, tem de ser. De Trás-os-Montes ao Algarve, parecendo que não, é longe. A minha residência actual é nas Caldas da Rainha. E como das Caldas da Rainha aqui são apenas cento e cinquenta e cinco quilómetros, em três horas ponho-me lá. Mas se tenho de me deslocar a Monção, por exemplo? Felizmente que não viajo de comboio! Utilizo exclusivamente esta maravilhosa criação do progresso – o automóvel. De contrário estava desgraçado. Mesmo assim, não posso fazer milagres! E a maior parte das vezes fico por lá. Durmo sossegado em qualquer pensãozita barata, aproveito o dia seguinte para visitar novas terras…
Uma das maneiras de tomar o pulso à assistência era divagar um pouco. Havia sempre alguém mais insofrido que protestava. E a história, assim reclamada, tinha outro sabor.
– Não interessa? Pronto, já aqui não está quem falou! Adiante. Dizia eu que na minha profissão sou muitas vezes obrigado a pernoitar fora de casa. É natural. Ora naquela data, 24 de Novembro, lembro-me como se fosse hoje, quando em Palmela dava início aos meus trabalhos, desata a chover, que qual feira nem meia feira! Parecia o dilúvio universal. Casa, Balsemão! Casinha, até que Deus Nosso Senhor nos traga sol. Eu gosto muito de sol!
Olhou o céu, como a reforçar a afirmação. Depois, cheio de dignidade, desceu novamente à terra das suas atribulações.
– V. Ex.as estão a ver a minha disposição! Cansado, desanimado, e com os meus ricos bolsinhos vazios… Mas havia uma estrela a brilhar naquelas trevas. Claro que já toda a gente adivinhou… Casadinho de fresco, de mais a mais… Bom, não há quem não goste do seu aconchego… É humano! Cheguei a Lisboa às três da manhã. E que é que os senhores calculam?
(Ria-se. Em Pombal também se rira. Mas era um riso amarelo… Sabe Deus o que iria lá por dentro…)
– A luz do meu quarto acesa àquela hora! Subi os seis lanços da escada dum fôlego, e mais tenho o coração fraco, como já disse! Ia doido! – Ai, Balsemão, se é verdade! Ó desgraçado! Toquei a campainha, e a luz apagou-se imediatamente. – Pronto, Balsemão, não há que ver! O ombro à porta, e foi o fim do mundo!...
Olhou o efeito das suas palavras, bebeu um gole de água, e levou ao rubro, numa só frase, o calor da multidão.
– Para encurtar razões: meti três balas no corpo daquela miserável!
Fosse aldrabice, fosse o que fosse, estavam todos sem ar.
Mas ele era generoso. Limpou o suor da testa, olhou por alguns momentos a emoção colectiva, e atirou a seguir um piedoso balde de água fria na fogueira.
– Não morreu, sosseguem! Era da pele do diabo!
– E ele? – não se conteve a criada do talismã.
– Um covardola! Enquanto eu arrombava a porta, fugiu pelas traseiras…
(Exactamente o que respondera em Pombal. E não… O suor que lhe escorria da testa não era do calor… A tarde até estava a refrescar…)
– Fui julgado e condenado em cinco anos de cadeia… Cadeiinha, pois então! Que cuidam? Cinco anos… Foi quanto me custou aquela olhadela para o tal andar!
Passado o calafrio do desfecho inesperado, começou a fazer-se dentro de cada um a crítica lógica da história. E alguns sorrisos incrédulos afloraram à tona de alguns rostos.
– O respeitável público não acreditou em patavina do que acabo de dizer! Está no seu direito, e faz bem. Eu cá também não acreditava, se me contassem… Mas infelizmente é verdade… Cinco anos numa penitenciária! Cuidei que nunca mais deixava de ver o sol aos quadradinhos… Ainda por cima ferra-se-me uma constipação! Ah! rapazes, que se não tenho lá este maravilhoso xarope, não sei o que havia de ser de mim! Cheguei a filosofar: – Bem, Carlos Balsemão Pimentel da Silva, coração ao largo, e tira daí o sentido. Desta vez morres mesmo. Escusas de alimentar ilusões: nunca mais voltas a fazer bem à humanidade! E se não fosse o xarope…
Não havia dúvida nenhuma que a atenção do público descera com o fim da narrativa. Aquele homem, porém, era um prodígio de tenacidade.
– É claro que os meus desânimos não tinham razão de ser! Com vinte e cinco anos estava ainda uma criança. Por isso tratei de comer e beber, cumpri a pena, divorciei-me, casei de novo, e já vou em quatro filhos… Os tais produtos Balsemão da piada que lhes contei…
Tempo perdido. O lume apagara-se na lareira. Contudo, fez ainda um derradeiro esforço.
– Asma?! O senhor?! Ó homem de Deus, e então não dizia nada?!! Se eu não reparo… Ora valha-o Nosso Senhor!
À voz de asma, instintivamente, os sãos foram-se retirando discretamente, com aquela meia hora desfeita num zum-zum inútil de cigarra.
Mas lá conseguiu vender aos que ficaram dez frascos de xarope, justamente os que restavam.

Retirado de http://literalmente.portalmundonerd.com.br
Depois deram as seis, a feira desfez-se, e a vida retomou a crua realidade habitual. Na sua carrinha o Balsemão deixou então o Largo Velho e meteu apressado pela estrada da Figueira da Foz. A buzinar, ia ultrapassando rapidamente os fregueses, já esquecidos dele e de quantas aldrabices lhes dissera.
Só na curva da morte, à Portela, é que o de Vila-Meã, ao vê-lo passar, o reconheceu, lhe tirou o chapéu, e juntou à poalha do sol que caía a ternura duma palavra:
– Coitado!
  
In «Rua», contos de Miguel Torga, edição do autor, Coimbra, 1985 (5.ª edição).

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DA VERDADE DO AMOR, poema de José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça – Foto retirada de http://ler.blogs.sapo.pt















Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor

In «Poemas de Amor – Antologia de Poesia Portuguesa», organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2001 (2.ª edição).

CORAÇÃO POLAR, poema de Manuel Alegre

Manuel Alegre – Foto retirada de http://cabelosaovento.blogspot.pt/
















1.
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

In «Poemas de Amor – Antologia de Poesia Portuguesa», organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2001 (2.ª edição).

terça-feira, 9 de abril de 2013

AS PALAVRAS INTERDITAS, poema de Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade – Foto retirada de http://aopedaraia.blogspot.pt

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

In «Poemas de Amor – Antologia de Poesia Portuguesa», organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2001 (2.ª edição).

[Que nenhuma estrela queime o teu perfil], poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Sophia de Mello Breyner Andresen – Fotografia retirada de http://bibliotecaesmt.blogspot.pt

















Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

In «Poemas de Amor  Antologia de Poesia Portuguesa», organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2001 (2.ª edição).

segunda-feira, 8 de abril de 2013

[Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.], poema de Ricardo Reis [Fernando Pessoa]

Fernando Pessoa (1888-1935)












Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas.
               (Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa.
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
               Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
               E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz.
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos.
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria.
               E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
               Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
               Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
               Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
               Pagã triste e com flores no regaço.



In «Poemas de Amor - Antologia de Poesia Portuguesa», organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2001 (2.ª edição).

IDÍLIO, poema de Antero de Quental (1842-1891)

Antero de Quental – Foto: Shutterstock (retirado de http://noticias.universia.pt/)














Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos de um fôlego as colinas
Do rocio da noite inda orvalhadas;

Ou vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longe no horizonte amontoadas;

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces…

O vento e o mar murmuram orações
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

In «Poemas de Amor – Antologia de Poesia Portuguesa», organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2001 (2.ª edição)