terça-feira, 30 de julho de 2013

BACK HOME, poema de Yvette K. Centeno

Imagem retirada de luzdeluma.blogspot.com














Partir
finalmente partir

o mar azul
ao longe

o barco
preparado

e do último pássaro
o canto desejado

In «Canções do rio profundo», de Yvette K. Centeno (com uma pintura de Jacinta Andrade), colecção «Pequeno Formato» (n.º 25), Edições ASA, Porto, Novembro de 2002 (1.ª edição).

K’ OUEN, poema de Yvette K. Centeno

Ivette K. Centeno - foto retirada de http://triplov.com/


















Desgrenhada
fugindo da tempestade
entraste na sala bruscamente.

O que vinhas dizer
que não disseste?

A casa
era a casa das crianças.

Alguém
ofereceu um chá.

Outros disseram:
não vejo o lago.

Tu desapareceste.


In «Canções do rio profundo», de Y. K. Centeno (com uma pintura de Jacinta Andrade), colecção «Pequeno Formato» (n.º 25), Edições ASA, Porto, Novembro de 2002 (1.ª edição).

sexta-feira, 26 de julho de 2013

De entre os escritores dos séculos XVII e XVIII, Miguel Torga destaca o Padre António Vieira

Imagem retirada de http://www.anovieirino.com/
Apenas um nome é justo destacar de tão rasa mediocridade, que nem os vislumbres populistas de D. Francisco Manuel de Melo, nem a candura de Bernardes conseguem atenuar: o do Padre António Vieira. Porque as suas inquietações humanas transcenderam o mastigar prolixo das aproximações bíblicas, pôde sentir a tragédia incipiente do nativo explorado pela nova civilização. No seu cristianismo tolerante cabiam índios, negros e judeus. Por isso palpitam, em algumas das suas páginas, dores que ainda persistem nas terras e nos povos aonde, juntamente com a devota cruz evangelizadora, chegava a espada da conquista e do esbulho. Alma ao serviço dos homens da pátria, o grande jesuíta é uma polarização culta e compreensiva de todos os apóstolos sinceros da fraternidade universal. E o calor que anima a sua palavra purifica o artificialismo que a enfeita. Há ainda uma escusa a acrescentar à obra que deixou, que vive e perdura mesmo sem escusas. É que o seu autor contactou profundamente com uma realidade luxuriante, tropical, de pujança exterior. E nada mais natural do que ela se fizesse sentir no artista que ele era. Desculpa que não aproveita aos contemporâneos, que ou nunca saíram das verças ou as deixaram circunstancialmente, como D. Francisco Manuel de Melo. Esses, além da falta de autêntico impulso criador, ou falsificaram os sentimentos, ou lhes falsificaram a expressão.

In «Traço de União – Temas portugueses e brasileiros», de Miguel Torga, Coimbra, 1969 (2.ª edição revista) – Excerto de «Panorama da Literatura Portuguesa», conferência realizada na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, em 17 de Agosto de 1954.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fernão Mendes Pinto evocado por Miguel Torga

Peça em bronze idealizada por António Duarte, no Pragal 
(Imagem retirada de www.almadadigital.pt)
E Fernão Mendes Pinto pode a seguir dar largas à sua penetração de Proust aventureiro. Esse estranho Mendes Pinto que o mundo leu com incredulidade e deslumbramento, mal o cravo, a canela e a pimenta aguçaram o apetite dos povos, e que desgraçadamente deixou de ler no dia em que a Índia mudou de mãos. Porque valia a pena continuar. Nos trâmites da sua acidentada Peregrinação, no enredo daquelas andanças, que seria bom completar com relatos despretensiosos e anónimos da História Trágico-Marítima, tinha a humanidade, além da mais extraordinária e penitente auto-acusação que um povo pode fazer às injustiças do seu próprio imperialismo, um dos documentos dolorosos do que custa progredir no espaço e no tempo. Livro duma vida e de muitas vidas, há nele uma autenticidade humana que tem a frescura duma reportagem de hoje e duma introspecção de sempre. A agilidade e o espanto dum espectador inteligente e sensível diante do fenómeno sempre maravilhoso e inquietante de civilizações em choque e de homens em acção.

In «Traço de União – Temas portugueses e brasileiros», de Miguel Torga, Coimbra, 1969 (2.ª edição revista) – Excerto de «Panorama da Literatura Portuguesa», conferência realizada na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, em 17 de Agosto de 1954.

O cronista Fernão Lopes lembrado por Miguel Torga

Imagem retirada de www.passeiweb.com
Quanto a Fernão Lopes, a visão virginal e concreta que testemunha – História que dum passo se emancipa da pletora dos cronicões e enche as veias dum sangue que deixou de ser apenas azul –, permitirá a floração extraordinária de toda a prosa da expansão ultramarina. Notação precisa da realidade, sem medo das palavras e da nudez dos factos, abre uma clareira de luz na cerração compacta da rememoração cortesã. Aparece a liberdade crítica embutida na coragem da expressão. O povo actua finalmente ao lado dos heróis oficiais. Na cena dos acontecimentos passam a caber todos os figurantes.

In «Traço de União – Temas portugueses e brasileiros», de Miguel Torga, Coimbra, 1969 (2.ª edição revista) – Excerto de «Panorama da Literatura Portuguesa», conferência realizada na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, em 17 de Agosto de 1954.

A literatura portuguesa, Gil Vicente e Camões sob o olhar de Miguel Torga

Com muitos séculos já de duração – seiscentos e cinquenta anos bem medidos – a literatura portuguesa tem tido, como todos os corpos vivos, as suas horas de pujança e de torpor. Erguida do plano nacional para o plano universal por alguns dos seus obreiros, agrilhoada às fronteiras pátrias por outros, a sua fortuna variou através dos tempos, ora a brilhar, ora a bruxulear. Independentemente do condicionalismo histórico a que esteve sujeita, com três fases sucessivas no crescimento – período de inconsciência, onde não há sombra sequer de propósito criador, mas acaso; período de imitação, em que se copiam sem qualquer rebuço modelos alheios; e período de originalidade, quando aparece pela primeira vez aquilo a que podemos chamar brio ou responsabilidade profissional –, e apesar de certas rugas fradescas que a desfeiam às vezes, e de certo pendor arcaizante que a trava nas horas de corrida, não há dúvida que temos diante de nós uma evidência expressiva, com os seus monumentos inconfundíveis e o seu particularismo temperamental. Evidência expressiva que o tempo há-de acabar por tornar conhecida e amada, uma vez que a consciência do mundo se alarga e o mundo se torna pequeno. Começa a compreender-se que em matéria de cultura não pode haver compartimentos estanques, e que basta uma lacuna para invalidar um juízo universal. Acontece ainda que a língua portuguesa, semeada em vários continentes, alastra cada vez mais. E é de esperar que uma curiosidade viva se debruce sobre as obras em que palpita o seu coração original. Então, não será mais possível a ignorância dum tesouro espiritual onde fulguram Gil Vicente, um génio que fechou com chave de ouro as portas ogivais da Idade Média, e Camões, o único grande poeta dos Descobrimentos marítimos, esse golpe vertical na história da humanidade. Na meditação das criações dum e doutro poderá a burguesia dominante reviver em termos dramáticos e épicos o fim da classe a que se opôs, e o princípio do comercialismo internacional que a consolidou. Isto, pelo menos. Verificar como o primeiro embarcava as Almas maceradas e religiosas do passado nos batéis transcendentes da teologia, antes que o outro povoasse as naus da ventura de homens heróicos e desejosos de conhecer o corpo inteiro da terra mãe, ávidos duma certeza objectiva que era já ciência e finalidade temporal. Na verdade, se na Trilogia das Barcas (do Inferno, do Purgatório e da Glória) atravessavam as águas estagnadas do Letes os restos duma época que se esgotara devorando-se – fazendo, como a cobra do mito germânico, um círculo do seu próprio corpo –, o vento duma outra vida varria o convés das caravelas transatlânticas. Num, a alma em agonias canónicas; no outro, a avaliação do cosmos em que vivemos.
Estátua de Gil Vicente, em Lisboa
Não é que estes aspectos religiosos e sociais sejam tudo quanto se deva tirar dos autos e das farsas do grande dramaturgo ou da epopeia que conta os feitos de Vasco da Gama e dos seus marujos. Longe disso. A graça espontânea do dizer, o lirismo natural, a funda pungência de certas falas, o pitoresco de muitas e variadas situações e, sobretudo, o marulhar duma irreverência que não tem ainda possibilidades de completa expressão, fazem das peças de Gil Vicente realizações singularmente vivas desse período atribulado do espírito humano, insatisfeito já dentro dos seus quadros formais, mas sem força para os quebrar duma vez. Realizações tão extraordinárias, que nunca mais o teatro português viu coisa igual. A corda poética duma fé ingénua, esticada por todos os dogmatismos contra-reformistas, estalou, dramaticamente falando. E será preciso que outra espécie de sublimação humana condicione o aparecimento dum Frei Luís de Sousa, ainda assim menos convincente, pela maior contingência dos seus ingredientes.
Pelo que diz respeito a Camões, aí a poesia voou com asas doutra força em todos os sentidos. Lírico ainda não superado em língua portuguesa – pela finura de sentimentos, pureza da formulação e modernidade de visão da complexidade humana –, pôde ainda erguer-se epicamente à altura da gesta de que foi serôdio participante. Tudo quanto uma inesperada experiência colectiva tinha de angustioso e promissor, de permanente e caduco, de transcendente e rasteiro, aí está gravado indelevelmente nesses Lusíadas, onde, do princípio ao fim, o espírito é uma curiosidade incessante. O homem, agora, não venera apenas um Deus, não teme apenas um medo, não sente apenas uma fome. Universal e cosmopolita, o indivíduo é presa de todas as solicitações do corpo e da alma. Observa os fenómenos da natureza, investiga as leis que regem os astros e os seres, debruça-se inquieto sobre os abismos, mede as distâncias que nos separam do infinito e do finito. Estamos diante do bípede polimórfico da Renascença, essa hipertrofia magnífica e divina de virtualidades até aí açaimadas pela humildade. Tudo pode ser tentado, exaltado ou negado pelo espírito. Deus perdeu a sua omnipotência. A razão desacredita-lhe o melhor da sua força.
Imagem colhida em sociedadedospoetasamigos.blogspot.com
Ao lado de meia dúzia de obras fundamentais que constituem a riqueza indestrutível do mundo, Os Lusíadas têm um lugar à parte. São e serão pelos séculos fora o único padrão artístico desse ímpeto que arredondou definitivamente a terra e a consciência dos que nela habitam. A ênfase patriótica que às vezes os encarna numa visão estreita de nacionalismo, não lhes faz minguar o tamanho, verdadeiramente gigantesco. E podemos considerar tão grande generosidade do destino que coubesse a Portugal a glória de vencer o Mar Tormentoso, como dar-lhe o cantor da façanha. Na verdade, o milagre foi completo: o feito e o seu arauto. Nem lhe falta a ponta do cepticismo que a Idade Moderna não dispensa. No fim da aventura, a náusea do próprio triunfo.

In «Traço de União – Temas portugueses e brasileiros», de Miguel Torga, Coimbra, 1969 (2.ª edição revista) – Excerto de «Panorama da Literatura Portuguesa», conferência realizada na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, em 17 de Agosto de 1954.

terça-feira, 23 de julho de 2013

[Foi numa aula de francês], excerto de «O miúdo que pregava pregos numa tábua», de Manuel Alegre

Liceu Alexandre Herculano, no Porto















Foi numa aula de francês, no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. O miúdo que engolia comprimidos do avô está distraído. O professor dá-lhe com o ponteiro na cabeça. O miúdo levanta-se e arranca a vara das mãos de António Cobeira, o mesmo de quem Fernando Pessoa enviou um poema, «A Romaria das Árvores», a Álvaro Pina, para publicação na revista Águia. Mas isso o miúdo ainda não sabe. Por ora dói-lhe a cabeça da bordoada. Mas dela nascerá a amizade com o professor e a descoberta de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Em sua casa, ao cimo da Rua Santos Pousada, Cobeira lê-lhe cartas pessoais e manuscritos dos seus dois amigos poetas.
Anos antes, em Águeda, o miúdo que embirrava com mangas curtas, abre um dos armários onde estão os livros que vieram de Aveiro, da casa do avô paterno. Folheia uma revista chamada Orpheu. Começa a ler um texto longo, assinado por Álvaro de Campos: Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, / olho pró lado da barra, olho pró Indefinido. Vai por ali fora, entre o horror e o fascínio. Apetece-lhe rasgar a revista, mas não resiste, não consegue parar. De súbito as palavras perderam o sentido, estão cheias de mistério, é outra língua na mesma língua. Acaba por riscar a primeira página, irritado com o seu próprio encantamento. Mais tarde, no discurso de agradecimento do Prémio Pessoa, dirá que «aqueles riscos desesperados nas páginas daquele velho exemplar de Orpheu talvez tenham sido o seu primeiro poema». Tal como a primeira leitura de Mário de Sá-Carneiro ainda hoje se confunde com a paulada na cabeça que lhe deu o professor António Cobeira. Um dia Miguel Torga perguntar-lhe-á se já sentiu «o coice da literatura». O miúdo que pregava pregos numa tábua pensa nas estrelas que viu quando o ponteiro lhe acertou na cabeça. A poesia bate com força.

In «O miúdo que pregava pregos numa tábua» (novela), de Manuel Alegre, Publicações Dom Quixote, Alfragide, Abril de 2010 (3.ª edição).

segunda-feira, 22 de julho de 2013

[Avancemos então por aí fora], excerto de «O miúdo que pregava pregos numa tábua», de Manuel Alegre

Imagem retirada de http://www.angolaeseusfilhos.blogspot.pt/












Avancemos então por aí fora. Um livro é como uma estrada, muitas são as curvas, ora avança ora recua, ora vai dar a nenhures, que é talvez onde agora estou. Na terra de ninguém, ou aquela que fica junto à fronteira e que sempre tanto me fascinou, Talvera, diz-se em provençal, a língua, como a italiana, da poesia. Talvera, junto à raia, terra de ninguém. Ou a terra de ninguém da guerra, a clássica e a moderna, uma pequena clareira perto de Quipedro, eles de lado de lá, no meio da floresta, nós do lado de cá, por detrás de jipes, unimogues e GMC. Veja-se onde um livro nos leva, da palavra nenhures à palavra Talvera, e desta que não é propriamente a de ninguém da guerra das trincheiras, mas a do perigo e da morte, a uma clareira no meio do mato, entre Nambuangongo e Quipedro, em Angola, tenho vinte e seis anos, o miúdo que pregava pregos numa tábua está agora deitado de espingarda na mão, não tem espelho onde se mire, veste uma farda camuflada, não sei se o rosto será o mesmo, nem o rosto nem o resto. As balas assobiam, batem na chapa das viaturas, haverá sempre uma bala a assobiar, na prosa e no verso, na escrita e na vida. Uma bala assobia pelo livro dentro, fura o caderno que trago na mochila, enche de terra e sangue uma antologia do Eugénio de Andrade que levo para ler à noite em Quipedro onde, neste momento, não sei sequer se chegarei. Quem chega é o Zé Pedro, vamos chamar-lhe assim, companheiro de pelotão em Mafra, veio de Zala para me desenrascar, cigarro ao canto da boca. Isto só vai à bazucada, diz ele, que sabe do que fala e nem sequer gosta da guerra, já estava contra antes de partir, o problema é que não há como escolher, caímos na emboscada, agora temos de nos safar.
– Faz tiro a tiro – diz Zé Pedro –, tens boa pontaria, assim bates melhor o terreno, eu vou mandar-lhes uma bazucada.
Mas antes que o faça, as balas deixam de bater nas chapas, já não passam por cima de nós a assobiar.
– Piraram-se – diz o que veio de Zala para me ajudar. – Vamos esperar mais um bocado, pelo sim pelo não enfio-lhes à mesma uma bazucada, o barulho assusta-os.
– Assustados estamos todos – respondo eu.
– Pois é, mas antes os gajos do que nós.
E zás.
Pode ser que se tenham assustado com o disparo, mas quem tem os ouvidos a chiar sou eu.
Quarenta e seis anos depois, é essa a chiadeira que sinto dentro dos meus ouvidos, um zumbido que parecia de cigarras no Verão e, agora, por causa da escrita e do som metálico da bazuca, se transforma neste estrondo de guerra diante da página que é uma clareira no meio do mato entre Nambuangongo e Quipedro.

In «O miúdo que pregava pregos numa tábua» (novela), de Manuel Alegre, Publicações Dom Quixote, Alfragide, Abril de 2010 (3.ª edição).

[No fim de Setembro, os Alemães atacaram Londres], trecho de «Antes do amanhecer», de William Somerset Maugham

Imagem retirada de http://portalsegundaguerra.blogspot.pt













Assim se passou o Verão. Em toda a Inglaterra se trabalhava febrilmente para enfrentar a invasão que parecia iminente. Os entendidos estudavam as marés e concluíam em que dia exacto ela ocorreria. Corria o boato de que um grupo de sabotadores desembarcara na costa Sul e que fora exterminado. Dizia-se, também, que uma frota de barcaças fora interceptada e afundada ao largo da Cornualha, que os hospitais em Paris estavam cheios de soldados alemães vítimas de terríveis queimaduras. A Luftwaffe iniciou com fúria os ataques à Inglaterra e, diariamente, eram bombardeadas cidades. O povo aprendeu a distinguir, pelo ruído dos motores, os aviões alemães e os ingleses. Houve lutas furiosas nos ares, e centenas de aviões inimigos foram abatidos. No fim de Setembro, os Alemães atacaram Londres. As docas foram bombardeadas, ruas inteiras de casas pobres no East End foram reduzidas a uma massa de escombros fumegantes; o Buckingham Palace foi atingido; Regent Street, Bond Street, Piccadilly; viam-se em Mayfair grandes buracos onde fora outrora uma velha mansão georgiana. Uma fábrica em Croydon foi bombardeada e morreram duas centenas de jovens. De vez em quando, uma bomba atingia um abrigo e poucos dos que ali se achavam conseguiam escapar. Os «raids» começavam ao escurecer e o sinal de «perigo passado» não soava antes dos alvores da madrugada. O povo de Londres passou noites terríveis, mas continuou a trabalhar e manteve a calma.
O país vivia preocupado com os rumores correntes de que os «quinta-colunistas» andavam activos; era notório que tais actividades muito haviam ajudado o inimigo nas invasões da Polónia, Bélgica, Holanda e Noruega, e não era de crer que os Alemães deixassem de empregar na Inglaterra os métodos que haviam dado tão bom resultado em toda a parte. Corriam boatos terríveis e era geral a queixa contra o governo, por não estar suficientemente cônscio do perigo. Por consequência, os estrangeiros foram vigiados e muitos deles mandados para campos-prisões. Correu então o boato de que haviam sido detidos sem critério, tanto os que eram suspeitos como os que estavam acima de qualquer suspeita; os jornais da esquerda mostravam-se violentos contra a falta de discriminação do governo. Mas isto também fixava o assunto no interesse do público.

In «Antes do amanhecer», romance de William Somerset Maugham (tradução de Moacir Werneck de Castro), colecção «Autores de Sempre», Livros do Brasil, Lisboa, [1990].

Na expectativa da ocupação nazi, por William Somerset Maugham

Fotograma do filme «Paris está em chamas?» (1966), dirigido por René Clément















Esta história relaciona-se com a guerra exclusivamente na medida em que afecta os destinos de um pequeno grupo de pessoas, membros de uma única família inglesa, e portanto nada é preciso dizer aqui dos acontecimentos que se seguiram em rápida e espantosa sucessão: as invasões da Dinamarca e da Noruega, da Bélgica e da Holanda. Depois, as linhas francesas foram rompidas ao sul de Sedan; poucos dias mais tarde os alemães capturavam Arras e Amiens, e alcançavam as costas do Canal da Mancha. Daí a uma semana o rei Leopoldo capitulava com o exército belga. O comunicado alemão anunciou que a sorte das forças aliadas estava decidida.
Jane ficou aniquilada. Que significa então tudo que tinham dito durante os últimos três meses aquelas criaturas optimistas que vinham tomar cocktails a sua casa? Nem sequer haviam vislumbrado a possibilidade de um desastre. E o próprio Chamberlain, quando os alemães invadiram a Noruega, não declarara na Câmara dos Comuns que Hitler tinha perdido a chance? Ainda não havia um mês que um dos figurões, com o peito cheio de fitinhas, lhe tinha dito que o Exército francês estava em magnífica forma, e que apostaria a cabeça em como o Huno receberia ali a maior surpresa da sua vida. Ian estava em França. Talvez morresse, e o melhor que se podia desejar era que fosse feito prisioneiro. Roger também estava lá. Mas Roger sabia cuidar de si. Ian era tão tolo! Jane sentia-se tomada de terror. Corria Ceca e Meca, à procura de notícias, apelava para amigos influentes. Um ministro disse-lhe pelo telefone que as forças expedicionárias britânicas estavam encurraladas e seria um milagre se mais de trinta ou quarenta mil homens conseguissem escapar.
– Nada animador, hem? – disse ela.
– Péssimo – respondera-lhe.
Jane teve um breve riso gutural.
– Creio que Ian vai ficar prisioneiro. Há anos que lhe digo que faça um tratamento para emagrecer. É o que vai fazer agora, quer queira, quer não.
– Não perca a coragem, minha amiga – disse o ministro. – Havemos de nos sair desta.
– Naturalmente.

In «Antes do amanhecer», romance de William Somerset Maugham (tradução de Moacir Werneck de Castro), colecção «Autores de Sempre», Livros do Brasil, Lisboa, [1990].

Excerto de «Antes do amanhecer», de William Somerset Maugham

Foto retirada https://www.facebook.com/wsomersetmaugham
Mrs. Henderson pôs-se a trabalhar sem perda de tempo, porque era urgente aprontar a casa, no menor prazo possível, para receber as crianças de que devia tomar conta. Todos esperavam que Londres fosse intensamente bombardeada, e os hospitais tinham instruções no sentido de se prepararem para acomodar vários milhares de feridos. Os doentes em condições de viajar deviam ser enviados para o campo, e os que pudessem ser dispensados sem perigo voltariam para suas casas. Houve um alarme antiaéreo no primeiro dia de guerra, e uma multidão de gente, uns por brincadeira, outros por medo, a maioria porque achava que se esperava deles aquilo mesmo, correram aos abrigos ainda inadequados. As autoridades insistiam na necessidade de se evacuarem as crianças, e os comboios, repletos, partiam da cidade. Era difícil, em tão curto prazo, encontrar acomodações convenientes para aquele fluxo diário.
Mrs. Henderson retirou a mobília da sala de baile e colocou camas pneumáticas, mandadas vir à pressa de Londres, em duas fileiras ao longo das paredes; esvaziou a grande sala de visitas e transformou-a em sala de brincar; e na ampla sala de jantar, só utilizada nas grandes festas, instalou o refeitório. Assim, ficava para uso da família o hall, decorado por William Kent – um dos locais mais notáveis da casa – além de uma sala de visitas e uma de jantar menores, e a biblioteca, com trabalhos de Grinling Gibbons. A conselho de Roger, ela decidira começar com trinta crianças, que vieram em dois grupos, um de doze e outro de dezoito. Procediam de Stepney, e tinham de quatro a doze anos; algumas, eram educadinhas, filhas de trabalhadores respeitáveis, mas outras deixavam transparecer lamentavelmente a aviltante pobreza dos pais. Vinham esfarrapadas e piolhentas. Tinham de ser lavadas, esfregadas e vestidas. As mais novas eram bastante fáceis de tratar mas algumas das mais velhas, especialmente os meninos, eram duras de dominar. Tinham hábitos anti-higiénicos, diziam palavrões e revelavam instintos de destruição. Duas ou três, a princípio, pareceram absolutamente ingovernáveis. Quebravam tudo o que pezinhos travessos pisavam maldosamente os canteiros, de modo que nem uma flor ficou de pé. Algumas nunca se haviam sentado, antes à mesa durante as refeições: comiam sentadas no chão, e quando as obrigavam a ir para a mesa, numa raiva desesperada, punham-se a atirar ao chão tudo que encontravam ao seu alcance. Mas talvez as mais difíceis de tratar fossem as que tinham saudades da família. Sentiam-se assustadas e sozinhas na grande casa perdida no campo, e cheias de nostalgia das ruas barulhentas e imundas dos bairros pobres de Londres. Havia também as mães, que vinham durante o dia visitar os filhos. Muitas ficavam contentes de sabê-los a salvo, e embora sentissem a falta deles não podiam deixar de ver que lhes fazia bem viverem aquela vida saudável do campo. Sentiam instintivamente que podiam confiá-los à bondosa senhora que falava com tanta amabilidade. Mas outras eram mais difíceis. Achavam ruim a comida simples e sadia que Mrs. Henderson dava às crianças, e queixavam-se de que elas estavam a passar fome. Outro motivo de reclamações era que ela fornecesse leite fresco em vez de condensado. «Mesquinha!» diziam. Estavam convencidas de que Mrs. Henderson recebia dinheiro do governo para sustentar as crianças, e não procuravam esconder a crença de que ela estava a fazer um bom negócio. Protestavam contra as roupas novas que ela lhes comprara; achavam aquilo um acinte à própria capacidade de vestirem os filhos decentemente; e como todos estavam vestidos da mesma maneira, qualquer um podia pensar que «eles eram uns enjeitados». Também não concordavam com os «banhos a toda a hora» que Mrs. Henderson insistia em dar às crianças. «O que vai acontecer é que eles morrem de frio, os pobrezinhos», protestavam. Muitas chegaram a insistir para levar os filhos. Esses forma substituídos por outros – e antes deles chegarem ninguém poderia dizer se seriam bonzinhos e bem comportados, ou pequeninos bandidos dados a desordens.
Em poucas semanas, porém, combinando firmeza e brandura, Mrs. Henderson conseguiu criar autoridade mesmo sobre os mais turbulentos. Com o seu coração bondoso, ela alegrava-se ao ver que a boa comida e o ar puro os fazia engordar e ficar corados. As mães mais azedas eram obrigadas a reconhecer que os filhos davam a impressão de ir muito bem, e admitiam, comicamente vexadas, que a «velha afinal de contas não era das piores». Foi um triunfo para Mrs. Henderson quando uma mulher ríspida, de traços duros, mãe de seis filhos, lhe disse:
– A senhora é mesmo uma dama, não tem que ver. E isto digo-o eu para quem quiser ouvir.

In «Antes do amanhecer», romance de William Somerset Maugham (tradução de Moacir Werneck de Castro), colecção «Autores de Sempre», Livros do Brasil, Lisboa, [1990].

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A CASA / MANUEL ALEGRE, poema de Eugénio de Andrade

Imagem retirada de http://www.arqal.com
















Paredes brancas pátios interiores
as mesas largas as cadeiras quase toscas
despojamento de convento e de deserto
a planície prolonga-se na casa
com seu rigor e sua estética
do necessário
do liso
do elementar.

Aristocracia do pobre
com sua manta e com seu cobre.

Há um cheiro a pão recém-cortado.

A casa alentejana está escrita na planície
como o poema no branco descampado.

In «Alentejo não tem sombra», de Eugénio de Andrade (antologia da Poesia Moderna sobre o Alentejo, com um desenho de Armando Alves), colecção «Pequeno Formato» (n.º 3), Edições ASA, Porto, Outubro de 2001 (4.ª edição).

BREVE SONATA EM SOL [UM] (MENOR, CLARO) / RUY BELO, poema de Eugénio de Andrade

Fotografia retirada de http://www.mun-aljustrel.pt












A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

In «Alentejo não tem sombra», de Eugénio de Andrade (antologia da Poesia Moderna sobre o Alentejo, com um desenho de Armando Alves), colecção «Pequeno Formato» (n.º 3), Edições ASA, Porto, Outubro de 2001 (4.ª edição).

PROJECTO / SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, poema de Eugénio de Andrade

Fotografia retirada de http://amd2750.blogspot.pt













O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto

In «Alentejo não tem sombra», de Eugénio de Andrade (antologia da Poesia Moderna sobre o Alentejo, com um desenho de Armando Alves), colecção «Pequeno Formato» (n.º 3), Edições ASA, Porto, Outubro de 2001 (4.ª edição).

quarta-feira, 17 de julho de 2013

METAMORFOSES DA PALAVRA, poema de Eugénio de Andrade

Imagem retirada de http://bibliotecadearoes.blogspot.pt





















A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto ou chama.

In «As palavras interditas / Até amanhã» (poesia), de Eugénio de Andrade (com retrato de Carlos Carneiro), Colecção «Obra de Eugénio de Andrade» (n.º 2), Fundação Eugénio de Andrade (FEA), Porto, Maio de 2002 (13.ª edição).

AS PALAVRAS INTERDITAS, poema de Eugénio de Andrade

Imagem retirada de http://www.notapositiva.com






















Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

In «As palavras interditas / Até amanhã» (poesia), de Eugénio de Andrade (com retrato de Carlos Carneiro), Colecção «Obra de Eugénio de Andrade» (n.º 2), Fundação Eugénio de Andrade (FEA), Porto, Maio de 2002 (13.ª edição).

terça-feira, 16 de julho de 2013

COM AS MAÇÃS, poema de Eugénio de Andrade

Fotografia retirada de http://gesterra.blogspot.pt














As crianças chegam com as maçãs.
Vêm do sul,
os choupos brancos sabem o seu nome.
Também as gaivotas as conhecem:
aposto que foram elas,
estas ciganas das areias,
quem lhes mostrou o caminho.
Chegam com as maçãs:
as crianças, as abelhas.

In «Coração habitado» (poesia), de Eugénio de Andrade (com um desenho de José Rodrigues), colecção «Pequeno Formato» (n.º 4), Edições ASA, Porto, Abril de 2002 (3.ª edição, aumentada).

QUASE NADA, poema de Eugénio de Andrade

Pintura de Salvador Dalí


















Passo e amo e ardo.
Água? Brisa? Luz?
Não sei. E tenho pressa:
levo comigo uma criança
que nunca viu o mar.

In «Coração habitado» (poesia), de Eugénio de Andrade (com um desenho de José Rodrigues), colecção «Pequeno Formato» (n.º 4), Edições ASA, Porto, Abril de 2002 (3.ª edição, aumentada).

[NENHUM BÚZIO CANTOU A TUA IMAGEM...], poema de Eugénio de Andrade






















Nenhum búzio cantou a tua imagem.
Nenhum pomar se abriu à passagem
da morte tranquila nos teus braços.
Só uma criança acordou,
mordeu o silêncio e chorou
o abandono diurno dos teus passos.

In «Coração habitado» (poesia), de Eugénio de Andrade (com um desenho de José Rodrigues), colecção «Pequeno Formato» (n.º 4), Edições ASA, Porto, Abril de 2002 (3.ª edição, aumentada).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

VERDADE POÉTICA, de Eugénio de Andrade

Imagem retirada de http://www.flickr.com/photos/amigosdosacores/
















Há quantos anos estás aí, na eira
ou no telhado, esgadanhando
o pão difícil sol a sol,
aceitando as migalhas do nosso coração,
compartilhando entre a poeira
a cama da nossa obscura condição;
irmão libidinoso e romano
pássaro de Catulo; sempre
à nossa roda, mais verdade poética
que criatura natural, como um poeta
americano disse do pardal.
Hoje é um português nada orgulhoso
de o ser que te abre as portas
do poema e te convida a entrar,
pois não fizeste do teu canto um luxo
nem traficaste com o bem comum –
por isso como os garotos da rua
descobres o gosto da vida
até num charco de água turva.

In «Com o sol em cada sílaba» (poesia), de Eugénio de Andrade (com uma fotografia do autor por Dario Gonçalves), colecção «Pequeno Formato» (n.º 5), Edições ASA, Porto, Abril de 2002 (3.ª edição).