quarta-feira, 28 de agosto de 2013

«mapa», poema de Al Berto

Al Berto – Ver http://nescritas.com/homenagemalberto/indiceobra.html






















abres o mapa da europa e
assinalas o lugar perdido junto ao mar – o sol
fulmina a narceja e o leite sábio das mães
coalhou num sabor a plâncton e húmus

na floreira da janela virada ao mar
secaram os goivos dos navegantes e um cardo amarelo
irrompeu hirsuto e firme – o tempo chuvoso
alastra pelas ruelas insinuando-se na alma
uma babugem grossa de maresia – a europa afasta-se
com seus falhanços ao som dos tambores de água

recordas assim a noite varada à porta dos grandes frios
o corpo carbonizado que perdeu a nacionalidade
as cidades sem nome o acidente a auto-estrada
o recado deixado no café a cerveja entornada
o alarme da noite a fuga
a terra dos gelos eternos a viagem sem fim a faca
rente ao pescoço e os comboios e a ponte ligando
a treva à treva
um país a outro país – onde dissemos coisas que matam
e largam rastros de aço nas pálpebras

mas
no cansaço da torna-viagem no desalento de tudo
o mapa da europa ficou aberto no sítio
onde desapareceste

ouço o atlântico uivando de abandono
enquanto os dedos se cansam a pouco e pouco
na lenta escrita de um diário – depois
fecho o mapa e vou
pela crueldade desta década sem paixão

In «Horto de Incêndio» (poesia), de Al Berto, colecção «peninsulares / literatura» (n.º 49), Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 1997 (2.ª edição).

terça-feira, 27 de agosto de 2013

«mudança de estação», poema de Al Berto

Imagem recolhida de www.artinnaturephotography.com















para te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele – peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação

In «Horto de Incêndio» (poesia), de Al Berto, colecção «peninsulares / literatura» (n.º 49), Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 1997 (2.ª edição).

«lisboa (4)», poema de Al Berto

Al Berto – Foto retirada de www.poetanarquista.blogspot.com






















vieste dos remotos desertos africanos onde
semeaste tormentos e filhos negros

enrolas-te agora no pano ardido do tempo
de lisboa – rasgas em tiras dolorosas o sonho
e tentas navegar pelos socalcos dos mares

mas a saudade pelos que partiram e agora
se aproximam desta voz – vêem
um império de navios vazios

e tu
sob o sol cruel – perdido de olhar em olhar
jogando a vida contra o sujo casco dos cacilheiros
vagueias
pelos becos à procura de um rosto que imite
a felicidade da voz perdida – ou um corpo qualquer
para fingir o sono junto ao teu

mas lisboa é feita de fios de sangue
de províncias
de esperas diante dos cafés
de vazio sob um céu plúmbeo que ensombra
os jardins de estátuas partidas

há um pressentimento de sono sem fim
refugias-te num quarto de pensão e dormitas
o dia todo – para que lisboa te esqueça

In «Horto de Incêndio» (poesia), de Al Berto, colecção «peninsulares / literatura» (n.º 49), Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 1997 (2.ª edição).

AS GRUTAS, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto retirada de http://www2.dem.uc.pt
O esplendor poisava solene sobre o mar. E – entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido – quase me cega a perfeição como um sol olhando de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetração na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são as águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.

In «Mar», de Sophia de Mello Breyner Andresen (antologia constituída por poemas de Sophia sobre o mar, organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares e com posfácio de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).

LUSITÂNIA, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Imagem retirada de http://barcosflores.blogspot.pt


Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.


In «Mar», de Sophia de Mello Breyner Andresen (antologia constituída por poemas de Sophia sobre o mar, organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares e com posfácio de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).

POEMA INSPIRADO NOS PAINÉIS QUE JÚLIO RESENDE DESENHOU PARA O MONUMENTO QUE DEVIA SER CONSTRUÍDO EM SAGRES, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen – Foto colhida em http://embaixada-portugal-brasil.blogspot.pt












I
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Movimento ritual, surdo rumor de búzios,
Alegria de ir ver o êxtase do mar
Com suas ondas-cães, seus cavalos,
Suas crinas de vento, seus colares de espuma,
Seus gritos, seus perigos, seus abismos de fogo.

Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Impetuosas velas, plenitude do tempo,
Euforia desdobrando os seus gestos na hora luminosa
Do Lusíada que parte para o universo puro
Sem nenhum peso morto, sem nenhum obscuro
Prenúncio de traição sob os seus passos.

[...]

In «Mar», de Sophia de Mello Breyner Andresen (antologia constituída por poemas de Sophia sobre o mar, organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares e com posfácio de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).

Próxima edição da colecção «Observatório da Saúde», com a chancela da Mar da Palavra: RELATÓRIO DE PRIMAVERA 2012 «Crise & Saúde – Um país em sofrimento»

Esta é uma crise grave que afecta seriamente a saúde dos portugueses. Para uma resposta adequada à crise, é indispensável conhecer as suas causas. É importante conhecer os factores “externos” e “internos” que desencadearam e sustentam a actual crise. [...] Na conjuntura que o país tem atravessado, o ponto de partida de uma política teria de ser a análise precoce do impacto esperado da crise económica e social na saúde das pessoas e no sistema de saúde português.
(OPSS, 2012) 

A crise financeira e económica no «Relatório de Primavera 2011»

A crise financeira e económica, mais do que um lugar-comum, tornou-se uma realidade na vida de um número crescente de pessoas através de fenómenos como a diminuição do poder de compra, o desemprego e o consequente risco de pobreza com tudo o que lhe está associado. A resposta à crise tornou-se o tema central de todas as discussões, de leigos a especialistas, bem como da agenda do espaço europeu. [...] As medidas acordadas com os partidos do «arco da governação» foram negociadas em plena crise política, com um governo demissionário e o país em clima de campanha eleitoral. As referidas medidas caracterizam-se, genericamente, pela imposição de um calendário muito apertado de reformas que atingem todos os sectores de actividade e, como tal, também a saúde. [...] Apesar disso, muitas das medidas acordadas para a saúde foram bem recebidas por vários sectores e entendidas como úteis e necessárias, tendo inclusivamente sido colocada a questão: Sendo tão úteis e necessárias, por que razão nunca ninguém as implementou?
(OPSS, 2011)

O OPSS e a memória dos desafios da saúde

Desde 2000 que o OPSS (Observatório Português dos Sistemas de Saúde) acompanha, analisa e descreve, em cada ano, o desenvolvimento do sistema de saúde e a evolução da qualidade da governação da saúde. A colecção «Observatório da Saúde», com a chancela da editora Mar da Palavra, reforça uma das principais funções do OPSS, ao longo dos seus 14 anos de existência, que tem sido a de memória dos desafios da saúde e da evolução do sistema de saúde português.

sábado, 17 de agosto de 2013

[Havia meses que os barcos não se faziam ao mar], excerto de «O céu é dos pássaros – Drama da emigração para França», de Luís Lourenço

Imagem retirada de http://www.cafeportugal.net
Na Vieira, como em toda a costa portuguesa, o Outono traz na bagagem, ao chegar, fome e penúria, às gentes ribeirinhas.
Com ele se instala a angústia no peito dos bravos pescadores, esses seres audaciosos que, com o decorrer dos anos, conquistaram uma condição anfíbia.
Enquanto o mar é brando, rosários de gaivotas ondulam sobre as águas, com terra à vista, entre a praia e o horizonte, entre o céu e o mar, buscando sustento ou preparando-se para demandar o norte.
Mas quando o vento agita as águas, as aves alvas e planadoras aproximam-se mais e mais da costa, onde fazem vida, se a chuva tomba do céu ou a tempestade se instala no mar.
Nos primeiros cem a duzentos metros de água as ondas enrolavam-se na própria espuma, deixando ali as mensagens, trazidas de longe, talvez do outro lado dos oceanos.
Num destes dias de tempestade, o Melro levantou-se cedo e desceu à praia.
O sol não rasgara ainda a neblina, daí que a procela fosse mais apregoada pelo rugir do mar que pelo encastelar das vagas.
Fazia rio e, mesmo embrulhado no velho capote alentejano, já em desuso e velha relíquia do avô materno, a frieza arranjava manhas para descer entre as golas e o pescoço do rapaz e, daí, pelos interstícios da camisola e camisa rota.
Havia meses que os barcos não se faziam ao mar e, na sua loja, mesmo fiando de bom grado, o Palardo mostrava um ar contristado sempre que o Melro lhe mandava assentar mais um copo de aguardente que lhe aquecesse o corpo, ou de vinho que lhe redobrasse o ânimo.
Lá fora, bem rente ao paredão, permaneciam, como exemplares de natureza morta, os barcos e os remos, já que às redes fora dado, em devido tempo, restauro e abrigo.
O frustrado pescador mal levantava o olhar do “Senhora dos Navegantes” que, na areia, mantinha a proa apontada ao mar, desde que ele e a restante gente da companha o deixara, ali.
Mas o seu pensamento não estava tanto na faina da pesca da sardinha, da tainha ou do cação, como na outra banda do oceano, que alguns colegas seus, esquecidas as tradições mas também as angústias da pesca, um dia haviam demandado.
Muitos desses amigos apareciam por ali pelas festas da Senhora da Boa Estrela, jactando importância, exibindo cruzeiros, relatando façanhas, mostrando os seus auríferos e rutilantes dentes.
Ah, o Brasil, esse mundo maravilhoso!... Quem lhe dera a ele, Melro, poder deitar-se sobre aquelas ondas pressurosas e arribar às terras de cujo maná sobreviviam e viviam tantos que, em dias de penúria, deixaram a Vieira, o Pedrógão e tantas praias de escravidão.
Ah, se ele, imitando as gaivotas, pudesse cruzar o Oceano parando por aqui e por ali, sobre um molho de algas, o casco dum navio ou qualquer tábua ou pipo abandonados à tona da água. Mas… o céu é dos pássaros.
Mesmo assim, não deixava de cogitar. Porque havia ele de continuar a viver subjugado à fome e atormentado pelo frio, em barracas esburacadas pelo tempo e pela maresia?
Com o rolar da manhã, a neblina foi-se afastando, deixando que a espuma prateasse a areia.
Estacas longas e desoladas, empinadas na praia, aguardavam as redes que há três meses, ao partirem, as tinham deixado nuas e fúteis.
Como carneiros em rebanho, as gaivotas acotovelavam-se na areia húmida e alisada pelas vagas.
O mar desenhava trilhos de neve, por vezes suja, quando as águas tresloucadas se estatelavam na areia.
De longe em longe, as ondas serenavam, trazendo à memória do frustrado jovem o tempo saudoso do verão e da azáfama.
Triste vida a dum pescador de arrasto a quem estranha magia prende a uma permanente escravidão! Mas… conseguiria o Melro sobreviver tão longe deste ruído constante, ora cavo ora agudo, ara forte ora brando, que nem um só dia, um só momento, mesmo, deixara de escutar desde o seu nascimento? E que mais saberia ele fazer que lançar redes e colher redes; empurrar barcos e puxar barcos; carregar cestos e despejar cestos; avistar areia e palmilhar areia? Ainda se soubesse juntar duas letras!...

In «O céu é dos pássaros – Drama da emigração para França», romance de Luís Lourenço, edição de autor, Leiria, 2005.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

[Nessa noite devorou o seu primeiro livro], excerto de «Um caso de bibliofagia», de António Victorino D’Almeida

António Victorino D’Almeida – Foto retirada de http://vava-diando.blogspot.pt
Dormiam todos, apesar da trovoada, moídos pelo serão com as visitas, pelo álcool do espumante, dos licores e dos bagaços. Dormiam sempre que havia festa, cada um com os seus sonhos, cada um com os seus grunhidos… E de novo a luz de um relâmpago iluminou o caminho de Leonardo: já estava na sala onde havia uma estante pomposamente chamada – a biblioteca… Juntos com estatuetas e retratos, os livros aninhavam-se, lado a lado. Havia livros de todos os tamanhos, de todas as espessuras, de todas as cores… Eram belos, os livros! E ele, que era poeta, embora não soubesse fazer versos, deslizava a mão lasciva pela fieira das lombadas e sentia aquele estranho calor dos poentes cor-de-rosa, ou da espreita minuciosa de um canto de corredor onde a Aidinha tinha mil dedos…
Detiveram-se os seus dedos na carícia de um livro amarelado, de capa já esgarçada pelo tempo, nunca pelo uso… Lá fora, a tempestade uivava num furor de invernia escabrosa. Na sala, abraçado à estante, Leonardo sorria e recordava, rendia-se ao prazer da memória, ouvia a voz do Professor chamar-lhe poeta, revivia o longo diálogo em que falara r fora ouvido, as palavras justas e cuidadas que escolhera para dar de si a imagem saudável de um sôfrego devorador da filosofia que é a base transcendente do moderno saber…
E, numa volúpia gestual de câmara lenta, levou o livro amarelado à boca e começou a trincá-lo, primeiro suavemente, mordiscando as folhas do prefácio, depois com mais intensidade, num mastigar vigoroso, até ao rasgar das páginas em golpes asselvajados de mandíbula gulosa e insaciável!
Nessa noite devorou o seu primeiro livro.

In «Os devoradores de livros» (ficção), de António Victorino D’Almeida, Oficina do Livro (Leya), Alfragide, Junho de 2010 (1.ª edição).

Excerto de «Um caso de bibliofagia», de António Victorino D’Almeida

António Victorino D'Almeida - Imagem retirada de http://www.gazetadosartistas.pt
Todos se espantavam com aquele animado diálogo, sabendo-se que Leonardo raras vezes conversava com os outros, sempre fechado no seu quarto, às voltas com as suas manias. Para obter um tal êxito de comunicação, o Professor tinha de ser, de facto, um homem extraordinário, um mestre! Um iluminado, mesmo!
E Leonardo continuava a expor ideias:
– As pessoas só não passam sem as hortaliças… E talvez por essa razão se diz cá em casa, constantemente, que o Fialho é o homem mais importante da terra…
O Professor compreendia o alcance do sarcasmo; retribuía com um olhar amarotado, já muito cúmplice: enfim, cada pessoa tinha um lugar na vida, consoante as apetências naturais, as características, a chamada idiossincrasia; havia quem se considerasse feliz a devorar um longo romance de Tolstói, a digerir o pensamento de um Emmanuel Kant, a sorver o seu racionalismo, ou ainda a aspirar o perfume de um poema de Verlaine. Outros havia que sentiam igual prazer a aplaudir uma jogada bem urdida por qualquer negro possante, contratado a peso de ouro para fazer delirar multidões. Outros ainda, como o seu primo Fialho, perdiam positivamente a cabeça com uma bela dobrada tripeira, um bom cozido à portuguesa comido à sombra de uma latada, regado com o vinho da região: excelente!... E, no fundo, se os livros de autores geniais, os pontapés do negro hercúleo e os encantos da sonolência pós-alimentar produziam idêntico efeito, respectivamente, no primeiro, segundo e terceiro tipo de pessoas citadas, não havia que buscar nenhum erro de base nessa realidade. A questão residia em cada um ter acesso ao lugar certo para estar na vida. E, por aquilo que pudera observar, o lugar do Sr. Leonardo seria mais perto dos livros do que das hortas, mais perto dos pensamentos do que das couves. Como tão bem definiria: nascia-se poeta, nascia-se filósofo…
Leonardo escutava-o, atento, concentrado na assimilação de nomes e palavras que jamais escutara. E perguntava:
– Mas serão mesmo necessários, os filósofos?...
Estava aberto o dique torrencial para a consagração do Professor. Não uma só resposta à pergunta, mas respostas catadúpicas saíam-lhe pela boca fora, numa linguagem fluida, articulada, refulgente. Mas claro que os filósofos eram necessários! A filosofia estava na base de tudo: era a mãe de todas as ciências, e também das artes do espírito. Ela, sim, a verdadeira alavanca do progresso pois, sem filosofia, o mundo estaria condenado ao retrocesso…
E quase enrouquecia ao dizer “retrocesso”, tal a tonalidade cava que escolhia para pronunciar a palavra condenatória.

In «Os devoradores de livros» (ficção), de António Victorino D’Almeida, Oficina do Livro (Leya), Alfragide, Junho de 2010 (1.ª edição).

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Capítulo do romance «Lolita», de Vladimir Nabokov

Imagem retirada de http://oanaogigante.blogspot.pt/
Quando olhei em meu redor pela última vez, os olmos e os choupos viravam as suas costas encrespadas a uma súbita rajada de vento, e uma nuvem negra, de trovoada, acastelava-se sobre a torre da igreja branca de Ramsdale. A caminho de aventuras desconhecidas, abandonava a lívida casa onde alugara um quarto havia apenas dez semanas. As persianas – económicas e práticas de bambu – já estavam descidas. A sua rica contextura emprestava uma aura de drama moderno aos alpendres e à casa. Depois daquilo, a mansão celestial devia parecer muito nua. Caiu-me nos nós dos dedos um pingo de chuva. Reentrei em casa, para ir buscar qualquer coisa, enquanto John punha as minhas malas no carro, e então aconteceu algo engraçado. Não sei se, nestas trágicas notas, salientei suficientemente o peculiar efeito de «irradiação» que o agradável aspecto do autor – pseudocéltico, atraentemente simiesco, juvenilmente másculo – exercia nas mulheres de todas as idades e condições. Claro que tais declarações, feitas na primeira pessoa, podem parecer ridículas. Mas de vez em quando tenho de recordar ao leitor a minha aparência, do mesmo modo que um romancista profissional, que atribuiu a uma personagem certo maneirismo ou um cão, tem de continuar a apresentar esse maneirismo ou esse cão sempre que a referida personagem aparece, no decorrer do livro. No presente caso, talvez isso seja ainda mais importante. O meu aspecto melancolicamente atraente deve permanecer na mente do leitor, para que a minha história seja convenientemente compreendida. A púbere Lo sucumbiu ao encanto de Humbert como sucumbia à música sincopada; a adulta Lotte amou-me com uma paixão madura, possessiva, que deploro e respeito agora mais do que sou capaz de exprimir; Jean Farlow, que tinha trinta e um anos e era absolutamente neurótica, parecia sentir, também, forte inclinação por mim. Era bonita, de um tipo de beleza que lembrava escultura índia, e tinha uma tez escura, de terra-de-sena queimada. Os seus lábios eram dois grandes e escarlates pólipos, e, quando soltava a sua gargalhada especial, que parecia um ladrido, mostrava grandes dentes baços e gengivas descoradas. 
Era muito alta, usava calças e sandálias ou saias rodadas e sapatilhas de bailarina, bebia qualquer bebida forte em qualquer quantidade, tivera dois abortos, escrevia histórias acerca de animais, pintava – como o leitor sabe – paisagens lacustres, já andava a chocar o cancro que a mataria aos trinta e três anos e era absolutamente desprovida de atractivos, aos meus olhos. Imaginem, por isso, o meu susto quando, poucos segundos antes de eu partir (encontrávamo-nos os dois no corredor), Jean, com os dedos eternamente trémulos, me segurou pelas têmporas e, de lágrimas nos luminosos olhos azuis, tentou, sem o conseguir, colar-se aos meus lábios.
– Cuide de si – recomendou-me – e beije a sua filha por mim.
Ecoou pela casa um trovão, e ela acrescentou:
– Talvez um dia, algures, numa ocasião menos angustiosa, nos voltemos a ver. – (Jean, o que quer que seja e onde quer que esteja, num negativo espaço-tempo ou num positivo tempo-alma, perdoe-me tudo isto, incluindo o parêntese.)
Passados instantes, apertava a mão a ambos, na rua, na rua íngreme, com tudo a rodopiar e a voar ante a aproximação do dilúvio branco, e uma furgoneta, com um colchão vindo de Filadélfia, descia confiadamente a calçada, a caminho de uma casa vazia, e a poeira girava e dançava sobre a laje precisa em que Charlotte, quando tinham levantado a manta escocesa, se me revelara, encolhida, de olhos intactos e pestanas pretas ainda húmidas e coladas umas às outras como as tuas, Lolita.

In «Lolita» (romance), de Vladimir Nabokov (traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues e revisto por José António Almeida), Colecção “Biblioteca Visão” (n.º 23), ACJ – Abril/Controljornal/Edipresse, Linda-a-Velha, Julho de 2000 (edição conjunta da revista Visão).

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Excerto do romance «Lolita», de Vladimir Nabokov

Vladimir Nabokov – foto retirada de http://dianedooley.wordpress.com

Os trâmites do divórcio atrasaram a minha viagem, e a sombra de mais outra guerra mundial descera sobre o globo quando, depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal, cheguei finalmente aos Estados Unidos. Em Nova Iorque aceitei sem hesitar o calmo emprego que o destino me ofereceu: consistia principalmente em inventar e compor anúncios de perfumes. Agradou-me o carácter ligeiro e os aspectos pseudoliterários do trabalho, a que me dedicava quando não tinha nada melhor que fazer. Por outro lado, uma universidade de tempo de guerra, de Nova Iorque, instou comigo para que concluísse a minha história comparativa de literatura francesa para estudantes de língua inglesa. O primeiro volume ocupou-me uns dois anos, durante os quais raramente trabalhei menos de quinze horas por dia. Ao recordar esses dias, vejo-os ordenadamente divididos em ampla luz e sombra estreita: a luz pertencente ao conforto de efectuar pesquisas em bibliotecas palacianas; a sombra, aos meus angustiantes desejos e insónias, de que já falei o suficiente.

In «Lolita» (romance), de Vladimir Nabokov (traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues e revisto por José António Almeida), Colecção “Biblioteca Visão” (n.º 23), ACJ – Abril/Controljornal/Edipresse, Linda-a-Velha, Julho de 2000 (edição conjunta da revista Visão).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CENA PARA O FINAL DE UM TERCEIRO ACTO, poema de Mário Cesariny

Fotografia recolhida de pt.board.bigpoint.com 

















Uma esquina outra esquina
depois os breves canteiros floridos
de quando a cidade era pequenina

depois os longos rochedos brutais
a lua      o mar eterno      o cais

In «Manual de prestidigitação» (poesia), de Mário Cesariny, colecção ‘Documenta Poetica’, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005 (2.ª edição, revista).

ARTE DE INVENTAR OS PERSONAGENS, poema de Mário Cesariny

Imagem retirada de http://zebetosa.blogspot.pt
















Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos nomes
e os personagens aparecem

In «Manual de prestidigitação» (poesia), de Mário Cesariny, colecção ‘Documenta Poetica’, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005 (2.ª edição, revista).

[à claridade sóbria], poema de Mário Cesariny

Foto colhida de http://blogatauro.blogspot.pt/ (postada por Cirilo Vargas)

















à claridade sóbria
insistente e velada
o cargueiro desliza
e o nada
do pequenino ponto
que vai ser
pontilha a face lisa
da enseada

em fim de tarde e luz
demanda o céu escurento
uma forte nostálgica
– mas benéfica! – vela
pelo seu movimento

e ela
a água que tem
o seu correr
abre-lhe o seio suave
de mãe fria, de mãe
que o não pode saber

In «Manual de prestidigitação» (poesia), de Mário Cesariny, colecção 'Documenta Poetica', Assírio & Alvim, Lisboa, 2005 2.ª edição, revista).

[suave], poema de Mário Cesariny

Foto retirada de http://www.oportoencanta.com
















suave
a vela abre
e principia
o dia

ela
que pelo azul
que corta
considera e chama
outras velas irmãs para o claro rio
e enquanto
o cais
é um enorme navio
que se nega
e no entanto cumpre
a mais estranha viagem

ele
que parte
vira
para o que abandona
um olhar de brancura
que é toda a matemática
singela
da manhã que inspira

In «Manual de prestidigitação» (poesia), de Mário Cesariny, colecção 'Documenta Poetica', Assírio & Alvim, Lisboa, 2005 (2.ª edição, revista).