quarta-feira, 30 de outubro de 2013

[uma opinião pessoal sobre o chá-no-iu], por Wenceslau de Moraes

Wenceslau de Moraes
Não me peçam agora, a mim, profano na matéria e viageiro fatigado de tão multíplices impressões que tenho vindo colhendo por este mundo fora, uma opinião pessoal sobre o chá-no-iu. Estive uma vez, é certo, com dois ou três amigos, em uma das chaias de mais fama da cidade de Cobe; e Tama-Guicu (o Malmequer Precioso) era a esplêndida sacerdotisa da cerimónia. A impressão que daquela noite guardo é indefinida, fugidia, como de um vago sonho que tivesse. Ficaram-me reminiscências indecisas do luxo sóbrio e harmonioso e do asseio extremo das coisas impregnadas de exotismo onde poisou o meu olhar. Na meia-luz do plácido aposento, amplo e silencioso como um templo, contornava-se, distante, um vulto de mulher, de joelhos, envolta em sedas magníficas. As atenções fixavam-se especialmente, como que por atracção hipnótica, nas suas mãos finíssimas, alvejando no espaço como se fossem de marfim, tomando de estranhos utensílios, preparando não sei que filtro de magia, poisando em mímicas hieráticas, quais mãos de mística oficiante de uma religião desconhecida. Por fim, convidado a partilhar no sacrifício, aceitava uma taça com chá que me era oferecida e levava-a aos lábios comovido, com não sei que súbitos escrúpulos de apóstata mal firme...
Tama-Guicu concluíra. Ergueu-se, deslumbrante de graças, de atavios, de majestade. O seu rostinho meigo iluminava-se então da exaltação beatífica que lhe electrizava o espírito; dirigiu sobre nós a ardência negra dos seus olhos, saudou-nos reverente... reverente, não porque uma ínfima cortesia sequer lhe merecêssemos – pobres ocidentais ignaros! –, mas em estrita obediência aos preceitos rituais; e desapareceu da cena.

In «O culto do chá», de Wenceslau de Moraes (com ilustrações de Iochiaqui, gravadas por Gotô Seikodô), Frenesi, Lisboa, Abril de 2004 (conforme à 1.ª edição japonesa, de 1905, assinalando os 150 anos do nascimento do autor e os 25 anos da casa Frenesi).

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

[Muitas águas que se juntaram...], registo diarístico de Miguel Torga

Foto retirada de mesozoico.wordpress.com  
Nazaré, 3 de Julho de 1940 – O mar...
Era uma coisa de que eu gostava: saber o que dele pensavam os homens portugueses de mil e tal. Possivelmente, que era extenso, medonho, e se interpunha entre uma costa e outra costa. O que não deixa de ser simples e verdadeiro. Mas, se iam além desta definição, que pensariam?
Hoje, de manhã, interroguei um pescador. O mar, que será isto? Respondeu-me textualmente: – Muitas águas que se juntaram... Ainda tentei descobrir por detrás deste positivismo qualquer reminiscência de lenda ou mito. Nada. O homem, que me levava de barco ao largo, remava, remava, e via em todo aquele fervilhar, em toda aquela inquietação – água apenas.
Eu, porém, é que já estou tão perdido que nem sou como os saveiros baianos, nem como os pescadores da Nazaré. E ponho-me então a sentir que, embora a terra seja ainda capaz de manter a vida, a parte do mundo onde ela nasce, e onde a ciência terá de ir procurá-la, se quiser surpreendê-la no seu primeiro alento, é nele.
Que o mar é em última análise o coração do mundo. Que pulsa, que geme, só por ser como o nosso: fonte e consciência biológica de tudo.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

[Ora quem é lá capaz de escrever o capítulo de um romance, de memória, num cenário destes?], registo diarístico de Miguel Torga

Foto retirada de bancadadirecta.blogspot.com
Sítio da Nazaré, 1 de Julho de 1940 – Aqui estou, sentado numa pedra, com o mar em frente e ao fundo, calmo. Cheguei ontem. Uma viagem horrível, de comboio, cheia de pó e de calor. Tinha a camioneta. Mas gosto de retomar de vez em quando o convívio com o caminho-de-ferro. Dão-me como que umas saudades ancestrais de tudo aquilo, desde a gare às carruagens e ao revisor. Aqueles ferros negros, igualmente húmidos e gordurosos por todo o mundo, aquelas faúlhas insistentes que penetram nos olhos, nos ouvidos, no sabugo das unhas e nas algibeiras, aqueles homens fardados, calmos e rotineiros, enchem-me de uma melancolia imbecil, mas gostosa.
Arrumada a mala, e logo que o comboio se pôs em andamento, puxei pelo meu Pascal. Les Provinciales. Mas li pouco. Comecei a pensar na ideia fantástica que o bom do jansenista teve das viagens colectivas. Pois não é realmente um achado isto de meter no mesmo carro trinta sujeitos que não se conhecem mutuamente, e fazê-los andar juntos durante quatro horas? E então se um desses indivíduos é aprendiz de violino e resolve estudar pelo caminho?!
Navegava nestas águas, e tirava as consequências respectivas, quando cheguei.
A tragédia de um quarto vazio. A tragédia de encher quatro paredes do sentido da nossa intimidade. Mas, afinal, bastou abrir a mala, espalhar pelas cadeiras o pijama e a gabardine, e pôr em cima da mesa a pasta dentífrica e o pente. Com mais um cobertor na cama e duas toalhas limpas, considerei-me aninhado. Um homem é pouca coisa. O tacão da bota ou a direcção da risca do cabelo podem resumi-lo.
Jantei e vim ver o velho oceano. Vim olhá-lo cá do alto. Este Sítio é na verdade uma varanda de eleição. O mar, contemplado dum mirante assim, tem uma perspectiva sem paralelo na costa portuguesa. A fundura que ele é na consciência de todos vê-se daqui quase ao natural. Àquela hora, carregado de luar como estava, a florir de segundo a segundo a sua angústia numas ondas imaculadas, era o coração do mundo a pulsar e a imensidade a sorrir.
Às onze e tal fui-me deitar. Dormi mal. Um sono inquieto, meu. E apenas as sete bateram, lá estava o senhor Sol e mandar-me cavar. Peguei no papel e vim. Mas creio bem que não posso trabalhar neste lugar. Trata-se de fazer seguir um romance que trago entre mãos. Ora quem é lá capaz de escrever o capítulo de um romance, de memória, num cenário destes? Um romance é um edifício austero, sólido, construído na solidão do escritório, a consultar fichas. Quando às vezes leio a qualquer amigo um capítulo do que já fiz, a impressão que me fica é a de que se julga que tudo aquilo eu o criei a mexer o dedo mindinho. Falo nos meus apontamentos, nas horas e horas de trabalho rijo, a ordenar e a mondar material acumulado, e é como se eu falasse da lua. Já nem me refiro à expressão, à poda beneditina aos adjectivos, às mil picuinhas que são na obra o que os pontos são num vestido. Para quê? Se não acreditam no principal!...
Mas acreditem ou não, a verdade é só uma. Um romance é uma história que tem de se contar com o suor, a seriedade e a segurança com que se conta a guerra das Duas Rosas. Ora eu, sentado neste trono de luz e de brisas, estou em condições de muita coisa, menos de descrever exactamente a morte de um senhor asmático que há-de morrer no meu romance. Ainda assim vou tentar. Mas não creio. A olhar o mar lá no fundo, calmo e verde como um jardim, o que me apetece é escrever destas maluqueiras, e pensar que há lugares onde os milagres têm que acontecer, quer Deus queira, quer não. Que se o D. Fuas Roupinho não tivesse vindo aqui dar o salto lendário, era o maior bandido que o sol cobria no seu tempo.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

[Silêncio e o Afonso na margem esquerda, hirto, calado, irreal, como um deus antigo], registo diarístico de Miguel Torga

O poeta Afonso Duarte 
(Fotografia retirada de http://filosofia-extravagante.blogspot.pt)
Coimbra, 9 de Outubro de 1938 – Dia de caça. De manhã nos montes e nas barrocas de Valcanosa; de tarde nos campos do Mondego, primeiro no automóvel por caminhos demoníacos, depois com o Afonso Duarte, nos arrozais, às codornizes. Mas a grande hora, a hora única do dia, foi o momento em que o meu companheiro, o Vasco, os cães, o automóvel e eu, de uma barcaça enorme, recebemos a bênção da lua cheia. Montemor ao longe, em terracota, sobre um renque de choupos. Um horizonte sem fim para onde o rio corria. A lua, vermelha como um balão minhoto, pendurada no céu. E aquela luz mediúnica a penetrar tudo e a projectar a realidade em transparência num ecrã distante. Nada que se possa figurar em palavras. Silêncio puro. Silêncio e o Afonso na margem esquerda, hirto, calado, irreal, como um deus antigo. Depois foi a chegada a terra, a largada, e a estrada cortada subitamente. Mas isto agora é outra história. Uma história das minhas, que mete pedra, terra, violência, pragas, força, e esta vontade telúrica que vive em mim como o coração.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

[nesta língua de que o diabo ainda se serve para falar à avó...], registo de Miguel Torga

Miguel Torga – Foto retirada de scala-almada.blogspot.com
Coimbra, 10 de Fevereiro de 1936Põe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E é sempre a mesma sensação de plenitude. Sempre a mesma sensação de que, depois daquilo, não vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta língua de que o diabo ainda se serve para falar à avó... Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor português que começou por nascer atrás duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no braço dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver... Então um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Suécia, tanto faz, mestres logo à beira do berço, todas as civilizações na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo além, e aqueles neurónios, e aqueles sentidos não hão-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente é preciso mais alguma coisa do que ir à China e ter uma certa experiência para escrever A Condição Humana. Mas, sem um homem andar de avião, como há-de um homem ganhar perspectivas de pássaro e falar de poços de ar?!
... E a gente não tem outro remédio senão gastar as horas a fabricar esta prosa travada, mais circunlóquio menos circunlóquio, esta prosa perra e oca que chega a meter nojo aos cães.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A AGENDA-MONTRA DE OUTRAS AGENDAS, ensaio jornalístico de Dinis Manuel Alves

Como surgem as notícias que vemos na televisão? Quais as condicionantes que determinam a agenda da TV? Para responder a estas e outras perguntas, Dinis Manuel Alves analisou os telejornais da RTP1, RTP2, SIC e TVI, em 1999. 215 telejornais, 3659 notícias.
Ainda 2344 noticiários emitidos pela Antena 1, Rádio Renascença e TSF. E também várias centenas de jornais diários, semanários e revistas.
Investigação que contemplou também a presença, durante cinco semanas, nas redacções das televisões portuguesas, culminando na tese de doutoramento “Mimetismos e determinação da agenda noticiosa televisiva – A AGENDA-MONTRA DE OUTRAS AGENDAS”, defendida na Universidade de Coimbra.
Centrada nos mecanismos de formação da agenda noticiosa televisiva, mais especificamente na detecção de práticas miméticas (endógenas e exógenas ao meio televisão), a investigação permitiu sustentar o carácter determinado da agenda televisiva em relação a outros meios (rádio e imprensa escrita) e, em consequência: a) uma assinalável capitis diminutio da autonomia dos jornalistas de televisão no processo de selecção do noticiável; b) uma considerável redução da diversidade noticiosas gerada pelos media.
O circuito que vai do acontecimento à inclusão nos alinhamentos noticiosos televisivos surge aqui complexificado, com a introdução de novos elos na cadeia. A notícia, não sendo já aceite como um mero espelho da realidade, passa a constituir-se como uma construção resultante de um complexo jogo de espelhos, o agendamento televisivo reflectindo o fulgor de agendamentos prévios por outros meios.
“Importa, em nosso entender, rever a velha máxima a rádio dá, a televisão mostra, o jornal explica. À luz dos dados apurados, arriscamos substituto para o tradicional ditado: a rádio e os jornais dão, os jornais explicam, a televisão mostra ou anima (muito) do que a rádio e os jornais deram, mas explicando muito pouco.
O privilégio da revelação – motor maior daqueles que um dia resolveram abraçar a profissão de jornalistas –, foi substituído pelo privilégio da animação. A agenda noticiosa televisiva transformou-se numa agenda-montra de outras agendas, escaparate de atracções vendendo os milagres de fazer mexer as fotos que jazem inanimadas na imprensa escrita, e de revelar as fúrias, trejeitos e feições dos sem-rosto que ocupam as notícias da rádio” – defende o autor no quarto e último livro resultante dos seus trabalhos de doutoramento.
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Apoio: Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS)
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O AUTOR:
Dinis Manuel Alves nasceu no Lobito, Angola, em 1958. É doutorado em Ciências da Comunicação (2005), licenciado em Jornalismo (1999) e em Direito (1981), pela Universidade de Coimbra.
Professor no Instituto Superior Miguel Torga (ISMT – Coimbra), cuja Licenciatura em Comunicação Social dirigiu até 2011.
Professor Convidado no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (ISCIA – Aveiro).
Consultor de Comunicação da Administração do Porto de Aveiro (APA, S.A.), e da Associação dos Portos de Portugal (APP).
Foi jornalista da TSF, Expresso, Grande Reportagem, TVI, Tal&Qual e Jornal de Coimbra.
Desempenhou ainda as funções de repórter fotográfico.
Autor de várias exposições de fotografia e de sites na Web, acessíveis através de http://dmareport.blogspot.pt.
Deputado à Assembleia da República (PS), apresentou, em parceria com Jaime Ramos (PSD), o primeiro projecto de criação de rádios locais em Portugal (1983).
Este é o oitavo livro de sua autoria, em suporte (formato) de papel. Tem ainda vários livros publicados em paperback e no formato e-book, todos disponíveis na Web.
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FICHA TÉCNICA:

Livro: A Agenda-Montra de Outras Agendas (com o antetítulo: Mimetismos e determinação da agenda noticiosa televisiva)
Autor: Dinis Manuel Alves
Capa: Ilustração de João Pocinho
Editora: Mar da Palavra - Edições, L.da
Colecção: Comunicar-te (N.º 5)
PVP: 26,50€
N.º de páginas: 320
Formato: 17,0 x 24,0 cm
ISBN: 972-8910-63-1 (EAN: 978-972-8910-63-1)
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Registo de notícias e outras referências:

http://www.wook.pt/ficha/a-agenda-montra-de-outras-agendas/a/id/15262991
http://www.bertrand.pt/ficha/a-agenda-montra-de-outras-agendas?id=15262991
http://www.bibliofeira.com/livro/746493068/a-agenda-montra-de-outras-agendas/
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=616092985101090&set=a.401126863264371.88598.149325878444472&type=1&theater
http://www.mediatico.com.pt/sartigo/index.php?x=218
https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/591

https://alpha.sib.uc.pt/?q=content/mimetismos-e-determina%C3%A7%C3%A3o-da-agenda-noticiosa-televisiva-agenda-montra-de-outras-agendas

http://pela-positiva.blogs.sapo.pt/tag/comunica%C3%A7%C3%A3o

A VER:
Telejornais miméticos
http://www.youtube.com/watch?v=X-I5beJP9WA
http://www.youtube.com/watch?v=J9CVsDK8g4Y
http://www.youtube.com/watch?v=RCEIuXrgEUs
http://www.youtube.com/watch?v=sONCZqMURx0
http://www.youtube.com/watch?v=9sXFHhoqwms
http://www.youtube.com/watch?v=titqbgFyloQ

[Passageiro em trânsito é a minha postura], de Cristóvão de Aguiar

Cristóvão de Aguiar – Foto retirada de http://www.bparah.azores.gov.pt
Regresso definitivo! Saio correndo e vou perguntar aos outros passageiros. Não posso nem quero suportar a irreversibilidade de um carimbo qualquer. Alguns deles encontram-se espojados pelos sofás da sala de espera. Outros, pelo chão lustroso de cera. Poucos sentados em meiples de napa preta. Aspira-se um ocre odor de suor, misturado com o violento perfume de laranja. É Inverno. Talvez Dezembro. Há uma certa obrigação de cada um contribuir para que o Natal se desentranhe em aromas característicos. Tal quadra de neve açucarada!
Os passageiros. Abeirei-me de alguns. E todos me declararam. O Menino Jesus ainda mija connosco aqui nesta sala. Sem excepção – informaram-me também – somos todos passageiros em trânsito neste salão de embarque. Eu pelos visto é que não. E logo me aconselharam. E eu então dirigi-me ao funcionário de plantão ao carimbo. Questão de lhe untar as mãos. O costume em todas as repartições. Num instante mudou os dizeres para os de passageiro em trânsito. E eu que sempre me acautelo em comprar passagem de ida e de volta! Desta vez, contudo. O estatuto de passageiro em trânsito comporta os seus poréns. Mas apesar disso também se usufrui de inúmeras regalias. Dorme-se descansado em todos os aeroportos do mundo. E anda-se em trânsito pegado para um lado de lá qualquer. Fico esclarecido. Passageiro em trânsito é a minha postura. Ajusta-se melhor ao meu estado de homem solto. Vou falar com o despachante. Talvez não devesse ter permitido. A ele ou outro qualquer. Não devia. Podia ter sido cintado com uma fita de aço tão inoxidavelmente definitiva.
Antes tivesse seguido o teu conselho, meu amor. O mar havia invadido o quarto de sonhar, arrastado os fragmentos das fotografias. Bem que insististe comigo. Aproveita a maré e faz-te ao mar. Podia até empreender a viagem clandestino. Servia a cama de barco. E ninguém sequer sonhava. E nem haveria despachantes carimbando-me definitivamente o pergaminho das emoções. Definitiva é a morte mais a sua principal raiz que a pôs neste mundo para nos azucrinar. Mas sinto-me neste momento de nervo murcho para fundas aventuras marítimas. Já raramente encontro limões providenciais para trocar as voltas ao enjoo. Não será mesmo cobardia? E depois, meu amor, como resistir à magia das estações de caminhos-de-ferro. Dos aeroportos fervilhando de destinos cruzados e descruzados? Claro que não se apagou em mim a atávica atracção pelas docas. Caíram em desuso, é certo. Desviou-se o mar do campo magnético do nosso destino. Continuo esperando. Ele ainda há-de capitanear o adormecido veleiro desta nossa aventura.
Haverá algum dos meus companheiros de Ilha que não tenha, numa das enseadas do corpo ou da lembrança, um pequeno cais de acostagem de contrabando de sentimentos, sobretudo se a Ilha escorre tinta roxa da tela do horizonte? A doca e as velhas canções nocturnas. A voz do vento. O mar galgando o paredão do quebra-mar. E o farol numa das extremidades do molhe. Sempre de sentinela à serra de Água de Pau. E a sua luz avermelhada. Espanca a escuridão molhada do bafo do mar! E como poderia eu deslembrar-me dos teus cais, meu amor! Doces miniaturas das docas, quase de trazer ao peito num fio enfiado de conchinhas! Apetecia-me agora acariciá-las entre os dedos desertos. Ficaram-me para sempre tatuadas na pele interior de uma aventura. Ainda me estonteiam, podes crer. E à minha velha agulha de marear.

In «Passageiro em trânsito – Novela em espiral ou o romance de um ponto a que se vai sempre acrescentando mais um conto», de Cristóvão de Aguiar, Colecção Garajau (n.º 20), Edições Salamandra, Lisboa, 1994 (1.ª edição).

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lista de todos os parceiros do 3.º Encontro com Escritores da Lusofonia


















Relembramos que pode efectuar a sua inscrição até ao dia 5 de Outubro de 2013, junto da curadora da iniciativa Analisa Costa Reis.
E-mail: escritores.AECODE@gmail.com ou analisacostareis@gmail.com
Telemóvel: 933250322 / 912133617.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

«Em memória da madrugada (em Coimbra)» livro com CD da Orquestra Clássica de Coimbra

































«Numa cidade que é Património Mundial da UNESCO, como Coimbra, o património cultural e o património arquitectónico fundem-se numa única entidade.
A Música é parte essencial deste SER, orgulhando-se a Orquestra Clássica do Centro de, ao longo da sua existência, ter associado a Música aos momentos da cidade, no que entendemos ser uma das formas mais positivas de afirmar Coimbra», é referido na nota de abertura da brochura/pequeno livro com a chancela da Mar da Palavra que, além de um conjunto de imagens emblemáticas da cidade universitária que convive com o rio Mondego, inclui o CD homónimo «Em memória da madrugada (em Coimbra)», apresentado hoje (1 de Outubro de 2013, às 21h30), Dia Mundial da Música, no auditório do Conservatório de Música local.


Espero música
que me retire da alma
esta incerteza
da sombra que passa
através da sombra.
O barco não se perde
e a água brilha
sem deixar de se ouvir!