segunda-feira, 18 de novembro de 2013

[O que me tinha incomodado fora aquela história do meu diário], excerto de novela de Junichirō Tanizaki

Imagem retirada de http://www.clubotaku.org
24 de Abril – Este era o segundo domingo após o enfarte. Tivemos duas ou três visitas, mas não as convidei a entrar. O Dr. Kodama não veio vê-lo. O seu estado mantém-se inalterável.
Toshiko chegou por volta das duas, muito antes do costume. Ela tem vindo tarde depois do almoço, e fica apenas algumas horas. Hoje, enquanto estava ali ao lado do pai, que dormia, afirmou: “Pensei que deviam ter muitas visitas.” Ao mesmo tempo que dizia aquilo, olhava para mim.
Como não respondo, ela prosseguiu: “Mamã, não tem compras para fazer? Podia ir apanhar ar, hoje é domingo.”
Teria sido mesmo ideia dela?, pensei. Talvez tenha sido ele a sugerir aquilo. É claro que podia muito bem ter-me dito qualquer coisa. Teria preferido que fosse Toshiko a dizê-lo em seu lugar, ou seria pura e simplesmente ela a tentar confirmar as suas suspeitas?... Subitamente, vi-o no nosso hotel de Osaka, ansioso à minha espera, naquele preciso momento. E se ele estivesse mesmo lá? – pensei, mas recompus-me imediatamente. Afinal de contas, isso era altamente improvável. Porém, a ideia começou a perseguir-me. No entanto, era evidente que não tinha tempo de ir a Osaka. Não podia estar tanto tempo fora, pelo menos até domingo próximo.
Porém, tinha outra ideia em mente, por isso disse a Toshiko que ia buscar algumas coisas ao mercado de Nishiki. “Estou de volta daqui a uma hora”, afirmei. Eram três horas quando saí de casa.
Apanhei um táxi e segui logo para a Rua Nishiki. Primeiro, para justificar a viagem, comprei bolos de glúten de trigo, coalhada de feijão tostado e alguns legumes. A seguir, percorri o Teramachi até Sanjo, e parei na papelaria para comprar dez folhas grandes de papel de arroz e uma folha de cartolina. Mandei cortá-los do tamanho do meu diário e mandei embrulhar tudo; depois coloquei-os no meu cesto das compras, por baixo dos legumes. Fui apanhar um táxi à Rua Kawaramachi – mas não posso esquecer-me de referir que lhe telefonei do mercado.
“Não, não tencionava sair durante todo o dia”, disse-me ele. Afirmou-o com ar hesitante, como se pensasse que eu podia estar a sugerir que nos encontrássemos. No entanto, limitámo-nos a conversar durante alguns minutos.
Cheguei a casa pouco antes das quatro (tinha estado fora pouco mais de uma hora), escondi o embrulho de papel de arroz por trás do suporte dos guarda-chuvas e levei o cesto das compras a Baya, que estava na cozinha. O meu marido ainda parecia estar a dormir, embora não ressonasse.
O que me tinha incomodado fora aquela história do meu diário. Por que motivo teria ele surgido com aquilo? Ter-se-ia esquecido, devido ao seu estado de confusão mental, que não era suposto saber da sua existência? Ou será que estava a dizer “Penso que não há razão para continuarmos a fingir”? E quando tentei esquivar-me dizendo-lhe que nunca tive nenhum diário, será que aquele sorriso estranho queria dizer “Pára de te fazeres de inocente”? Seja como for, é evidente que ele queria saber se tenho escrito o meu diário. A seguir vai querer lê-lo. Como já não pode lê-lo nas minhas costas, começou a sugerir que queria ter a minha autorização. Tenho de estar pronta para quando ele mo pedir abertamente.
Quanto aos registos até ao dia dezasseis deste mês, estou disposta a mostrar-lhos quando ele quiser. Mas ele deve saber que o diário não acaba aí. Dir-lhe-ei: “Como andas a ler o meu diário em segredo, é escusado continuar a escondê-lo. Podes lê-lo à vontade, embora de pouco te adiante. Como hás-de ver, acaba no dia dezasseis. Desde então, tenho estado demasiado ocupada para escrever o diário – embora também não tenha feito nada que merecesse a pena referir.”
Porém, terei de prová-lo mostrando-lhe que só existem páginas vazias a partir do dia dezasseis. Com o meu novo papel de arroz, posso dividir o caderno nesse ponto, acrescentar o número suficiente de folhas em branco e voltar a uni-lo em dois volumes.
Não dormi a minha sesta, pelo que fui até lá acima descansar durante cerca de uma hora. Quando voltei para baixo, às seis e meia, trouxe o diário e pu-lo na gaveta do armário da sala. Toshiko foi-se embora a seguir ao jantar, às oito. Às dez, mandei a menina Koike subir. Às onze ouvi passos no jardim.  

In «A chave», ficção de Junichirō Tanizaki (tradução da versão inglesa por Maria Augusta Júdice), colecção «Outras estórias», Editorial Teorema, Lisboa, Fevereiro de 2003 (1.ª edição).

[Durante vários anos fui um leitor voraz], excerto de Junichirō Tanizaki

Junichirō Tanizaki – Foto retirada de http://rateyourmusic.com
15 de AbrilNoto que o meu cérebro está num processo de deterioração constante. Desde Janeiro, quando me decidi a satisfazer Ikuko, comecei a perder interesse em tudo. A minha capacidade de pensar está tão reduzida, que não consigo pensar durante mais de cinco minutos. Tenho a cabeça cheia de fantasias sexuais. Durante vários anos fui um leitor voraz, fossem quais fossem as circunstâncias, mas agora passo o dia inteiro sem ler uma única palavra. E no entanto, por hábito, continuo a sentar-me à secretária. Fico com os olhos fixos num livro, mas não leio nada. É certo que sofro de uma perturbação visual que dificulta extremamente a leitura. Vejo as letras a dobrar, e tenho de ler a mesma linha várias vezes seguidas.
Agora, por fim, sou vítima de um encantamento que me transformou num animal que vive de noite, um animal que apenas serve para acasalar. De dia, quando estou fechado no escritório, sinto-me intoleravelmente cansado e aborrecido; ao mesmo tempo, sou presa de uma ansiedade terrível. Ir dar um passeio contribui para distrair um pouco, mas as tonturas fazem-me ter dificuldade em andar. Sinto-me como se estivesse quase a cair para trás. Mesmo que saia à rua, não me aventuro a ir muito longe de casa. Apoiado na bengala, vagueio por Hyakumamben, por Kuodani, pelo Templo de Eikan; afasto-me das ruas movimentadas, e passo a maior parte do tempo a descansar nos bancos. Tenho as pernas tão fracas, que fico logo exausto.
Hoje, quando voltei, Ikuko estava a conversar com a menina Kawai, a costureira, na sala de estar. Ia parar para tomar uma chávena de chá, mas ela exclamou: “Não entres agora!” Espreitei na mesma, e via-a a experimentar um vestido de corte estrangeiro. Ela opôs-se à minha presença, e retirei-me para o escritório. Mais tarde, ouvi-a dizer em voz alta que ia sair um pouco. Parecia estar a sair com a menina Kawai.
Olhei pela janela do segundo andar, e vi as duas a andar juntas. Era a primeira vez que via Ikuko de roupas ocidentais. Não há dúvida que era para isto que se preparava quando começou a usar luvas e brincos com quimono. Mas, para dizer a verdade, o seu vestido novo não lhe fica lá muito bem. Parece que não condiz com ela. Devia ter pensado que, em comparação com a menina Kawai, que é lisa e disforme, Ikuko devia ficar atraente com essas roupas. Mas a menina Kawai já está habituada a elas, e usa-as com um ar descontraído. Os brincos e as luvas de renda da minha mulher não lhe ficavam tão bem como antes. Nessa altura, pareceram-me exóticos, mas hoje, com o vestido estrangeiro, pareceram-me artificiais e mal combinados. Havia uma falta de harmonia entre as roupas, os acessórios e a sua figura.
Hoje em dia, passou a ser popular usar coisas japonesas à ocidental, mas Ikuko faz exactamente o contrário. Vê-se que foi feita para usar quimono. Os seus ombros são demasiado inclinados para as roupas ocidentais. E o pior é que ela tem as pernas arqueadas – magras e suficientemente elegantes, mas excessivamente curvas entre o joelho e o tornozelo. Com meias de seda, os seus tornozelos ficam muito largos. Além disso, o seu porte – a sua maneira de andar, os movimentos dos ombros e do tronco, a maneira como dispõe as mãos, a inclinação da cabeça – tudo nela é flexível e feminino ao estilo tradicional japonês, um estilo que fica bem com o quimono.
Mesmo assim, senti uma volúpia estranha na sua figura esguia e flexível, na curva desajeitada das suas pernas. Isto é uma coisa que me era ocultada quando ela usava quimono. Enquanto a via caminhar, admirei a beleza distorcida das suas pernas por baixo da saia de tweed. E pensei na noite de hoje.

In «A chave», ficção de Junichirō Tanizaki (tradução da versão inglesa por Maria Augusta Júdice), colecção «Outras estórias», Editorial Teorema, Lisboa, Fevereiro de 2003 (1.ª edição).

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

[ao ler um prefácio de Gilberto Freyre], registo diarístico de Miguel Torga

Gilberto Freyre – Imagem retirada de http://sotaquesbrasilportugal.blogspot.pt
Coimbra, 3 de Março de 1943 – Parece não ter remédio o complicado problema da guerra de gerações. Ainda hoje, ao ler um prefácio de Gilberto Freyre num livro de crítica de poesia, verifiquei isso mesmo. À camada literária que chegou depois da sua, chama, nada mais, nada menos, o claro espírito de Casa-Grande & Senzala «numa espécie de sexta coluna sinistra!»
Ora, não é impensadamente, nem por caturrice lamentável de velho, que uma tal acusação sai da pena do penetrante ensaísta brasileiro. Nem o autor de Nordeste tem cem anos, nem coisas duma gravidade assim se dizem por desfastio. À violência da expressão há-de por força corresponder, na ideia de quem a emprega, uma realidade dolorosa. Deve mesmo existir no escritor, consciente ou inconscientemente, o propósito de estigmatizar com palavras de fogo o que há de irremediável nessa desgraça que vem desde que o mundo é mundo.
«Sexta coluna sinistra», e eu estou a ver, em Portugal, Castilho ter insónias por causa dela, Camilo escrever romances realistas por causa dela, e o próprio Herculano imunizar-se prudentemente contra ela. Estou a ver, por toda a parte e em todos os tempos, de um lado, uns pacatos senhores esfalfados de prosa e verso, aterrorizados diante da obra realizada, com a ideia de que tudo aquilo vai ser atirado ao ar por meia dúzia de bombas de pataco; do outro, uns mocinhos imberbes, com toda uma vida diante para se convencerem que isto de escrever um autêntico livro é tão difícil como a celebrada passagem do camelo pelo rabo da agulha, – sem ideias concretas, sem a mão assente, sem o mistério do ofício sequer pressentido –, importantes, infalíveis, a assobiar aos velhotes como quem assobia a um cão.
Vista de fora, a tragédia chega a fazer rir. Mas, olhada de dentro, talvez não haja nada de mais doloroso e triste. Que seja necessário ou fatal semelhante duelo na história das artes, é realmente de meter pena. Porque, embora contínuo, real e objectivamente verificável, não parece que o fenómeno tenha uma razão de ser transcendente, apoiada em fundamentos lógicos. Se até certo ponto se compreende que Castilho fosse apupado por um Antero, já não era de maneira nenhuma razoável que Camilo recebesse as ironias de um Eça.
É evidente que no espólio de qualquer época há sempre muito que condenar, corrigir, deitar fora, e até combater. Mas, na pressa com que vem, a rapaziada nova esquece que igual auto-de-fé há-de queimar no futuro parte da produção dos inquisidores de agora. Bem sabemos que no início de uma jornada, de mais a mais árdua como a sua criação, todo o entusiasmo é pouco e toda a cegueira é pouca. Mas por que hão-de ser sempre o entusiasmo e a cegueira contra os que a lei do tempo encaneceu? Boa ou má, a obra que realizaram foi um esforço e um exemplo. Na maioria dos casos, foi nela, até, que os mesmos atacantes mataram a primeira sede. De maneira que não se chega a compreender a causa de tanta irreverência e muitas vezes tanto ódio. Embora a imagem seja um bocado crua, depois de uma meditação serena sobre certas injustiças, é-se levado a pensar que há na base dessa feroz hostilidade aos velhos qualquer coisa de semelhante ao que acontece com aqueles bichos que, apenas fecundados pelo companheiro, se apressam a matá-lo e a devorá-lo. É como se cada geração, mal acabasse de sorver da anterior todo o sumo vital, indignada por não encontrar lá mais com que nutrir a insaciedade, passasse a odiar o favo que chupou, onde agora somente vê cera morta.
Por outro lado, é um fenómeno quase miraculoso encontrar no passado duma literatura um autor idoso com autêntica compreensão pela seiva naturalmente um pouco irresponsável de qualquer principiante. Parece que a idade, a cultura, a maturidade, o incapacitam de se lembrar sequer dos bons tempos em que também ele era a mesma ânsia e obstinação. A compostura clássica que necessariamente atingiu impossibilita-o de ver um outro futuro clássico no jovem e desconexo companheiro. Uma obra é uma experiência, muito dolorosa e muito profunda, tornada expressão. E nada mais difícil de conseguir do que o justo equilíbrio entre o que se quer dizer e o que se diz. Por isso, quando ao cabo do caminho, e com a esquadria das emoções aprumada, um artista realizado olha um moço só a emparedar seixos toscos, como poderá entendê-lo?
Há ainda a mensagem de cada um. Independentemente da limpidez formal, que, a seu modo, todo o criador consegue mais cedo ou mais tarde, temos de considerar também os valores que cada época traz, e de que o artista é, por condição, porta-bandeira. Anteontem amava-se romanticamente; hoje, existencialmente; amanhã... E assim por diante. A ubiquidade, porém, pertence a Deus Nosso Senhor. É quase uma impossibilidade orgânica, quando se lutou trinta ou quarenta anos por uma verdade, aceitar de mão beijada que alguém venha dizer-nos que a verdade verdadeira é a novíssima, a que esse alguém traz no bolso. As ideias gerais de qualquer período são, como coisa em si, em tudo respeitáveis e legítimas. São as ideias de então, e nada autoriza a dizer em absoluto que o pensamento do século XVII superava o do século XVII, ou vice-versa. Como já se usaram saias de balão, usam-se agora outras modas. Ora as saias de balão, em relação ao tempo respectivo, eram perfeitamente correctas e de bom gosto. Mas basta a gente não ver cada coisa integrada no clima que a motivou, para que a sua aparência se torne ridícula e detestável. E por isso tão horrível é para uma senhora que usa saia rodada uma saia travadinha, como o contrário. É evidente que semelhantes bizantinices nada dizem a uma dama da Renascença, imunizada como está do contingente pela consumação dos anos. Mas poderá quem respira ainda sublimar-se a ponto de perder o pé na vida? Certo que não. Todos nós temos visto homens de noventa anos morrer aos vivas a determinada Patuleia que os faz vibrar. A dita Patuleia já no cisco da História, e eles ainda com aquele sonho no coração!
E resta finalmente a malfadada meretriz, às graças da qual poucos escapam: – a vaidade. A exacta glória é a póstuma, a que nenhum dente rói, e que só desce sobre um nome depois da ressurreição intemporal do seu possuidor. Todos sabemos que a imortalidade do poeta lhe nasce das cinzas. Mas o artista enquanto vive é homem. Rege-o tanto uma lei de cima como uma lei de baixo. E por isso, pela transitória fama entre meia dúzia de condicionados contemporâneos, é capaz de matar um irmão. Velhos e novos aprestam nesta triste luta as mesmas armas e as mesmas unhas. Os velhos querem guardar os loiros; os novos querem tirar-lhos das mãos. E sem haver a mais pequena esperança de paz entre as duas forças. É da própria natureza dos contendores que nenhum ceda. A sofreguidão é tanto da fisiologia senil, como da infantil...

In «Diário» (2.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1977 (4.ª edição).

[OHISHIDA], por Matsuo Bashô

Imagem retirada de www.zazzle.pt
Tínhamos planeado fazer de barco a travessia do rio Mogami e, num lugar chamado Ohishida, parámos à espera que o tempo melhorasse. As sementes da velha escola de haikai caíram há muito nesta terra; os dias do seu florescimento ainda não foram esquecidos e ainda comove as solitárias vidas dos poetas de Ohishida o som das flautas mongólicas. Confiaram-me: «Queremos caminhar juntos pelo caminho da poesia e vacilamos entre o novo e o velho estilo, pois não temos ninguém que nos guie: quer ajudar-nos?» Não pude recusar-me e juntei-me a eles, para compor uma série de poemas. De todas as reuniões poéticas da minha viagem, foi esta a que deu melhores frutos.

In «O caminho estreito para o longínquo Norte» (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashô (numa versão de Jorge de Sousa Braga – que a dedica à memória de Venceslau de Morais; com capa de João Bicker), Fenda Edições, Lisboa, Julho de 1995 (2.ª edição).

[MATSUSHIMA], por Matsuo Bashô

Imagem retirada de www.city.sendai.jp 
Já é um lugar-comum dizê-lo: a paisagem de Matsushima é a mais formosa do Japão. Não é inferior às de Doteiko e Seiko na China. O mar penetra a partir de sudeste numa baía de aproximadamente três «ri» [um «ri» equivale a 3,92 km], transbordante como o rio Sekiko da China. É impossível contar o número das ilhas: uma quase toca o céu, outra apresenta-se estendida, a boca debaixo das ondas; aquela parece desdobrar-se e, a mais afastada, divide-se em três; algumas, vistas da direita parecem ser uma só e vistas do lado contrário multiplicam-se. Há umas que parecem levar um menino às costas; outras é como se o levassem ao colo, algumas parecem mulheres acariciando o seu filho ou o seu neto. O verde dos pinheiros é sombrio e o vento salgado dobra sem cessar as suas ramagens, de maneira que as suas linhas curvas parecem obra de um jardineiro. A cena tem a fascinação misteriosa de um rosto formoso.
Imagem retirada de http://www.math.is.tohoku.ac.jp
Dizem que esta paisagem foi criada pelo Deus da Montanha, na época sagrada. Nem pincel de pintor, nem pena de poeta podem descrever as maravilhas do céu.



In «O caminho estreito para o longínquo Norte» (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashô (numa versão de Jorge de Sousa Braga – que a dedica à memória de Venceslau de Morais; com capa de João Bicker), Fenda Edições, Lisboa, Julho de 1995 (2.ª edição).

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

[As ideias são como as plantas: têm o seu clima e a sua terra], registo diarístico de Miguel Torga

Imagem retirada de www.picstopin.com
Coimbra, 11 de Novembro de 1942 – Quando me ponho a pensar no homem que depois de Cervantes e de Camões nos levou à Europa com mais firmeza e sentido, ocorre-me sempre o nome cada vez mais novo de Unamuno. É claro que não esqueço o Costa do Ideário español, o Antero das Causas da decadência dos povos peninsulares, e o Oliveira Martins da História da Civilização Ibérica. Mas volto ao de Bilbau. É que, para mim, o grande erro de quantos, depois de terem a consciência do nosso caso, quiseram fazer da Ibéria uma terra da Europa, foi tentarem semear neste tórrido chão peninsular frias ideias doutros paralelos. Só o comentador de D. Quixote (e Ganivet, embora com menos afinco) teve o génio de entender o problema a fundo, e de ver em que justa medida a esponja, sem perder o justo orgulho da origem, poderia sorver o orvalho doutra cultura. Explicar ao mundo a natureza da nossa língua, o caminho da nossa história, a terrosidade do nosso chão, a seriedade da nossa paisagem, a intimidade da nossa literatura, a grandeza dos nossos santos, a ferocidade dos nossos heróis, a humanidade dos nossos ladrões e o ingénuo charlatanismo dos nossos políticos, é certamente a maneira mais honrada de conversar no soalheiro universal, e de motivar a compreensão dos ouvidos alheios. As ideias são como as plantas: têm o seu clima e a sua terra. Por mais que se diga, o eucalipto será sempre exótico na paisagem portuguesa. Exprimir agonicamente o drama dum específico temperamento religioso, é, de facto, levar à Dinamarca de Kierkegaard a mensagem de uma certa inquietação metafísica, e receber em troca a mensagem doutra inquietação igualmente patética. Falar do sentimento trágico da vida, perscrutando a nossa alma mística e solitária, é dizer a Pascal quem somos, e ouvir de Pascal quem é. Ora, é numa fraternidade assim de confissões e confidências que a cultura se faz. Quer dizer: só depois de bem avaliar as suas características particulares e de as caldear a seguir no grande lume universal, pode um qualquer ser ao mesmo tempo cidadão de Trás-os-Montes e cidadão do mundo. Foi o que Unamuno se esforçou por nos ensinar e ensinar à Europa. Recusando-se, activamente, a africanizar a Ibéria, ou americanizá-la, ou a europeizá-la pura e simplesmente, tentando, pelo contrário, arrancar da nossa intra-história a nossa verdadeira significação continental, conseguiu esta maravilha: que a Europa tivesse consciência de nós, e nós dela. E é ver como apareceram logo os Cassous do lado de lá e os Ortegas do lado de cá. Dizia-me ontem um amigo francês esta tristeza: – de Camilo em diante, parece que os escritores portugueses têm as raízes fora de Portugal! E é verdade. Por desgraça, somos todos, em mísero, Anatoles, Prousts, Morgans, Valérys, ou outros igualmente grandes e igualmente alheios. Daqui, deste avaro torrão, e com a consciência profunda dele, é que ninguém quer ser. E aí temos o resultado: não existir europeu que se interesse seriamente pela nossa literatura contemporânea. – Para quê? – perguntava-me ironicamente o mesmo sujeito. E dava-me a resposta: – Bem vê, temos lá os originais...
Mas ninguém é capaz de fazer compreender estas singelas coisas a uns pobres de Cristo que para aí fazem prosa e verso. Enfrenizam-se na asneira, e debilitam ainda mais as virtudes particulares que, pelo que diz respeito propriamente a Portugal, embora brandas, são as que temos para nos salvar ou perder.
Não. Tudo está em aprender e seguir a grande lição do velho mocho de Salamanca. Fincar primeiro, amorosa e obstinadamente, os pés na terra esbraseada da Ibéria; e, com ela na sensibilidade e no entendimento, olhar então, num movimento de humana e natural curiosidade, para o que se passa do outro lado do muro.

In «Diário» (2.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1977 (4.ª edição).

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

[Canto alentejano], haiku de Luísa Freire

             

Imagem retirada de www.moo.pt
             
             Canto alentejano:
             tisnados, hirtos, solenes,
             os deuses da terra                                                          (Luísa Freire)

In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Ao muro agarradas], haiku de Luísa Freire

Imagem retirada de www.simbiotica.org
             
          Ao muro agarradas,
            a hera e a lagartixa –
            latejam o verde.                                                 (Luísa Freire)

In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Nuvens ondeantes], haiku de Shiki

Masaoka Shiki – Imagem retirada de http://arpose.blogspot.pt
   



Nuvens ondeantes –
amontoadas ao sul,
barcos, brancas velas.
                                                            (Masaoka Shiki)


In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Por entre a verdura], haiku de Shiki


Imagem retirada de www.toca-da-raposa.com
   


     Por entre a verdura
      uma flor branca floresce –
      não lhe sei o nome.                                                  
                      (Shiki, 1869-1902)





In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Espalhei o arroz], haiku de Issa Kobayashi

Imagem retirada de www.frasesparafacebook.info

















     Espalhei o arroz –
     triste ver as aves sôfregas
     umas contra as outras!
                                                                  (Issa Kobayashi, 1763-1827)

In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Simplesmente crê], haiku de Issa Kobayashi

Imagem retirada de http://carmelourso.wordpress.com
           

       Simplesmente crê;
       não se desprendem as pétalas
       apenas assim?
                                                                      
                       (Issa Kobayashi, 1763-1827)





In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Esplendor da tarde], haiku de Yosa Buson

Imagem retirada de www.recantodasletras.com.br
         















            Esplendor da tarde;
            deve haver um amarelo
            também a florir!                                                            
                                                                                (Yosa Buson, 1716-1783)

In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[A tesoura hesita], haiku de Yosa Buson

Imagem retirada de webspace.webring.com
             


           
             A tesoura hesita
             ante o alvo crisântemo,
             por um só momento.
                                                                      
                                 (Yosa Buson, 1716-1783)






In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Que belo que é], haiku de Matsuo Bashô

Imagem retirada de www.redemaranatha.com.br
           


















                
                Que belo que é
                não pensar ao ver um raio:
                «A vida é fugaz».
                                                                      (Matsuo Bashô, 1644-1694)

In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

[Podes crer que há], haiku de Matsuo Bashô

Imagem retirada de montanawriter.com
             Podes crer que há
             primavera na baía:
             as flores da maré.
                                                                      (Matsuo Bashô, 1644-1694)

In «Imagens orientais», [haikus] de Bashô, Buson, Issa, Shiki (versão portuguesa de Luísa Freire) / «Imagens acidentais», [haikus] de Luísa Freire, Colecção Documenta Poetica, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003 (1.ª edição).

domingo, 10 de novembro de 2013

[Penteando os bigodes], haiku de Issa Kobayashi

       

Imagem retirada de www.downloadswallpapers.com
          
          Penteando os bigodes
          Nos rebentos de bambu –
          A sombra do gato
                                                                                                   Issa Kobayashi

In «Primeira neve» [haikus], versões de Jorge Sousa Braga, Colecção Gato Maltês, 
Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2002 (1.ª edição).

[Em vão o menino tentava], haiku de Issa Kobayashi

Itaro Kobayashi (Issa é o nome que adoptou mais tarde)

          Em vão o menino tentava
          Segurar uma gota de orvalho
          Entre o polegar e o indicador
                                                                                                   Issa Kobayashi

In «Primeira neve» [haikus], versões de Jorge Sousa Braga, Colecção Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2002 (1.ª edição).

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

[Há livros que são no mundo como almas penadas], registo diarístico de Miguel Torga

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Coimbra, 24 de Março de 1942 – Há livros que são no mundo como almas penadas. Andam, andam, tropeçam através dos séculos pela obscuridade e pelo sofrimento, até que um dia apareça alguém que os tire do limbo do esquecimento. E isto, parecendo que não, dá esperança...

In «Diário» (2.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1977 (4.ª edição).

[O ladrão], haiku de Ryokan

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O ladrão
deixou-a na janela
A lua
                                                                   Ryokan

In «O Crisântemo Branco – Antologia de Haiku», selecção, versões e introdução de Adelino Ínsua, 
Colecção Citânia (n.º 1), Pedra Formosa – Edições, Guimarães, Junho de 1995 (1.ª edição).

[O espantalho ao luar], haiku de Shiki


















O espantalho ao luar
parece um homem
– que tristeza!
                                                                                Shiki

In «O Crisântemo Branco – Antologia de Haiku», selecção, versões e introdução de Adelino Ínsua, 
Colecção Citânia (n.º 1), Pedra Formosa – Edições, Guimarães, Junho de 1995 (1.ª edição).

[Ouvem-se os insectos], haiku de Wafû

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Ouvem-se os insectos
e as vozes humanas
com ouvidos diferentes
                                                                                   Wafû

In «O Crisântemo Branco – Antologia de Haiku», selecção, versões e introdução de Adelino Ínsua, Colecção Citânia (n.º 1), Pedra Formosa – Edições, Guimarães, Junho de 1995 (1.ª edição).

[O vendedor de leques], haiku de Kakô

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O vendedor de leques
passeia a sua carga de vento
– que calor!
                                                    Kakô

In «O Crisântemo Branco – Antologia de Haiku», selecção, versões e introdução de Adelino Ínsua, Colecção Citânia (n.º 1), Pedra Formosa – Edições, Guimarães, Junho de 1995 (1.ª edição).