terça-feira, 30 de dezembro de 2014

[Medi-la-iam, num despique, as restantes bonequeiras, invejosas da sabença que lhe suspeitavam, dos romances que fantasiava], regista Mário Cláudio sobre Rosa Ramalho

Rosa Ramalha, louceira de São Martinho de Galegos 
(Fotografia do Arquivo de Diário de Notícias)
Fita 12, Lado B. Desfizera-se do encargo dos moinhos, estabelecera-se com oficina de louceira, em definitivo e orgulhosamente. Calculava a densidade que competiria a essa menina-dos-pombos, acabada de reentrar dos matagais, por onde correra no encalço das mariposas. Chamava-se Rosa, como ela, era filha de rei, sentava-se nos degraus do trono de seu pai, a atender os príncipes todos, que afluíam, seduzidos por sua grande boniteza, a tentar fazê-la sorrir, com as artes que exibiam. Obtinha uma cachopa arrebicada, a apertar suas aves fofas, de véstia larga e comprida, cuja roda apanhava, cautelosa e grácil, de cada vez que pulava sobre algum barranco. Medi-la-iam, num despique, as restantes bonequeiras, invejosas da sabença que lhe suspeitavam, dos romances que fantasiava, em que intervinham seus bonifrates, com esse inegável condão de electrizar os interessados. Era a menina-dos-pombos, logo se via, uma donzela, a quem se facultava, no palacete onde residia, ao lado de serviçais que, a toda a hora, a penteavam e despenteavam, escolher as iguarias de sua ceia. Passeava-se, depois disso, por terraços de mosaico e caramanchões, a tripular, pela rédea, uma sardanisca, a quem ensinara a fala dos homens. E, quando jornadeava, ei-la que utilizava um carroção disforme, de reposteiros de couro vermelho, e lá iam os músicos, atrás de tudo, de azul e de branco, a tocar atabales. Agora, no entanto, contornava-lhe o busto, ao qual colaria o açafate daquele par de animais. E estava quase completa a menina-dos-pombos, um pouco arrogante, é claro, em sua fidalguia, tentada a forçar os outros ao que quer que lhe aprouvesse, com uma só interjeição, uma só, da boquita risonha. Com ela filosofava o sol, enfim, que apenas se retirava para ir contar, ao Imperador da China, com quem pernoitava, as maravilhas todas que surpreendera, de terracota, em São Martinho de Galegos, Portugal.

In «Rosa», de Mário Cláudio, colecção Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), Lisboa, Novembro de 1988 (1.ª edição).

[Muito cedo, com a mãe e algumas, enchia o barco que, de Manhente, as deporia, mais à louça, na festa de Vilar], escreve Mário Cláudio sobre Rosa Ramalho

Mário Cláudio - Fotografia encontrada em http://www.cm-viladoconde.pt/
Fita 1, Lado A. Muito cedo, com a mãe e algumas, enchia o barco que, de Manhente, as deporia, mais à louça, na festa de Vilar, infusas e cântaros, sobretudo, moringues e chocolateiras, que haviam deitado no casco, com os xailes a resguardá-los de chocar. Estava estremunhada, ainda, pois que era a primeira vez que a arregimentavam, passara a noite, sem pregar olho, a imaginar a travessia. E agradava-lhe a barqueira, mais velha que nova, de rosto triangular e olhos sonsos, um contorno de boca de severidade e ternura. Chamava-se Rosa, tal qual ela, encaravam-na como referência mitológica quando, erecta, estribada nas tábuas do botezito, remava com um ritmo certo, que coisa nenhuma era capaz de perturbar. E zarpavam, rumo à outra margem, enquanto um noitibó se manifestava, na ramagem dos castanheiros a que as videiras se apegavam. Depois, perante o dia adivinhado, imobilizavam-se todas, a meio da viagem. E era a roda da vida, de repente, que passava, e havia só que escutar o que a voz da barqueira lhes dizia. «A barca daqui», começava ela, «todas as noites desaparecia. Certo dia o barqueiro, para descobrir a causa daquele encantamento, meteu-se no porão, e pôs-se de atalaia. “Rema, rema”, ouviu ele, que ordenavam, de cima. Mexeram um cadeado e, nisto, compreendeu que estava em domínio das feiticeiras. “Cheira-me aqui a fogo vivo”, declarou uma delas. “Deixa lá ir quem vai”, tornou outra. Andaram, andaram, até que ficou queda a barca e o barulho acabou. À cautela espreitou o barqueiro, do porão, a ver adonde estava, e cortou uma cana, e voltou à barca, e fez-se a caminho de Vilar. Só quando aqui chegou é que, dando conta de que era a cana da Índia, percebeu a que longes é que tinha viajado». E continuavam, sem se mover, a igual distância de ambos os lados. E observava a rapariga aquelas pás suspensas, gotejantes, a narradora que as sustentava, numa turva expectativa. Tendo descalçado os socos, então, que ficaram jazentes, um no outro massajava os pés, a enregelar nos coturnos de lã.

In «Rosa», de Mário Cláudio, colecção Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), Lisboa, Novembro de 1988 (1.ª edição).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

[Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar], recorda Manuel Alegre

Alfredo Quádrio Raposo, tendo entrado na Emissora Nacional em 1935, 
foi um dos relatadores de futebol mais conceituados no seu tempo
(Foto encontrada em http://industrias-culturais.blogspot.pt/)

[] Perguntei ao Joaquim Marceneiro. Ele abanou a cabeça e disse que tinha sido sempre assim.
Perguntei ao Vítor Sapateiro. Ele estava a cortar sola, olhou-me duramente e respondeu: Estudar não é para os pobres. E havia azedume na sua voz, como se estivesse zangado comigo. Tive a impressão de que me considerava culpado. Fiquei magoado com o tom de Vítor Sapateiro e durante muito tempo não voltei à oficina dele, nem sequer para comentar, à segunda-feira, os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.
Rostos, vozes, andam por aí pelo ar, não se podem ter sumido, devem estar gravados algures, a prova é que estou a vê-los e a ouvi-las, são sete e meia da tarde de um domingo chuvoso na casa da Rua Bartolomeu Dias, mais conhecida pela Rua da Cheia, em Alma, alguém chama Duarte e só agora reparo que estão a chamar por mim, este que conta, eu próprio, Duarte de Faria.

In «Alma», romance de Manuel Alegre, colecção «Biblioteca de Bolso Dom Quixote – Série Literatura BBL» (n.º 23), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2002 (8.ª edição – 2.ª edição de bolso).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

[É a pele da terra, dizia o Lince, colocando as grandes fatias de musgo na canastra], conta Manuel Alegre

Fotografia encontrada em http://fora-da-estante.blogspot.pt/

É a pele da terra, dizia o Lince, colocando as grandes fatias de musgo na canastra. O presépio de minha avó tinha fama. Construía-o junto à parede do fundo da sala de jantar, utilizando caixas de papelão e espelhos com que fazia as montanhas e os lagos da Judeia. Cobria os montes com flocos de neve, punha a cabana em Belém, com o Menino nas palhinhas, rodeado pela Mãe, por José, pelos pastores, pelo jumento e pela vaca. Depois as luzes, de várias cores. E uma estrela amarela que apontava para o caminho aos reis do Oriente.
Também armava a árvore de Natal, com um pinheiro que o Lince cortava em Romarim. Mas eu preferia o presépio. Sempre achei que o da minha avó era o mais bonito de Alma, mais ainda do que o da Igreja. Trazia os meus amigos para eles verem. E toda a gente admirava, até Aurélio Silveira e Florêncio Tavares, republicanos, laicos e anticlericais, ainda que considerassem Jesus Cristo como um correligionário.
Então a casa ficava diferente. Talvez por causa do cheiro do musgo, das luzes a acender e a apagar na árvore e no presépio, talvez porque era Natal e havia um não sei quê no ar, tudo mudava, a casa, as pessoas, o ritmo.
Na cozinha era um frenesim. Não só pela actividade de minha avó, da minha mãe e das criadas, que se afadigavam a fazer filhós, rabanadas, bolo-rei, leite-creme, mas pelo constante ir e vir de Adelaide, Etelvininha, Tia Matilde, primas afastadas, vizinhas. As mulheres dominavam a cozinha, dominavam a casa, dominavam tudo.
Meu pai começava a ficar melancólico. Eu perguntava porque é que ele entristecia sempre que o Natal se aproximava. A minha mãe respondia-me que eram saudades. Eu creio que era feitio. Talvez fosse até um certo narcisismo. Lourenço de Faria, meu pai, comprazia-se naquela forma de celebrar só para si uma íntima alegria triste.
Naquele Natal éramos muitos à mesa. Claro que o narrador poderia organizá-los conforme entendesse. Mas eu estou a vê-los ainda, a minha margem de manobra é estreita. Numa das cabeceiras, a minha avó Beatriz, viúva revolucionária e republicana, com a sua jóia de brilhantes na gargantilha preta; na outra o Primo Frederico, monárquico integralista, sempre que se dizia o nome do rei levantava-se e fazia uma vénia apesar dos seus cento e vinte e tal quilos. Resfolegava um pouco quando comia, o que ma fazia impressão. Gostava muito de papas de abóbora e tinha de pôr um guardanapo ao pescoço para não se sujar. Tia Hermengarda, com os seus olhos maliciosos sempre a sorrir por detrás das grossas lentes, Tia Matilde, a cabeça inclinada ora para um lado ora para outro, Aurélio Silveira, que bebia de um trago o copo de vinho sempre que acabava de comer um prato, meu pai agora um pouco menos melancólico, minha mãe, que trazia ao peito o alfinete com as armas do meu pai, minha irmã Maria, de tranças e sobrancelhas muito carregadas, o vaivém das criadas vestidas de preto com gola e punhos de renda brancos, imagens, andam aí pelo ar, guardadas na memória, às vezes no esquecimento, suspensas, autónomas.
Os murmúrios, as cumplicidades, as lembranças.
Já a avó Beatriz conta daquele Natal, há muito tempo, quando o avô a levou de manhã à cocheira para lhe oferecer um cavalo branco. Já Tia Hermengarda fala de minha avó Leonor e do seu palácio no Grande Canal, em Veneza. Já o Primo Frederico, que pela terceira vez repete o bacalhau, recorda a estadia do grande Gallito em casa de meu avô Júlio de Faria, em Aveiro.
Vejo ainda a lenha a arder no fogão, as luzes do presépio e do pinheiro, as velas da mesa, as lâmpadas do candeeiro suspenso irradiando por toda a sala. Oiço ainda o rumor das conversas, o tinir dos talheres de prata, o som do vinho a cair nos copos, o ruído dos pratos na cozinha. Como recuperar o crepitar da lenha, a luz, as vozes?
Mas eis que dou corda ao His Master Voice e coloco no prato um tango argentino, Plegária, se a memória não me falha. Já o meu pai se levanta e começa a dançar sozinho. Parece o Rudolfo Valentino, diz a Tia Hermengarda, que tinha um fraco pelo cinema e seus galãs.
Mas já eu folheio os álbuns desbotados cheios de mortos em festas luminosas, tios e tias, primos e primas de smoking e vestidos de noite. A música parece vir daqueles bailes e daquelas festas, enquanto o meu pai continua a dançar sozinho, ou talvez não. Quem eu vejo são os mortos e as mortas de smoking e vestidos de noite, são eles que dançam nos gestos e passos do meu pai na sala aquecida pelo lume do fogão, as luzes, as conversas, o calor da consoada.
Por volta das onze partiremos para Vilar onde todos os natais, à meia-noite, na capela do Marquês, se ouve a missa do galo.
Mas eu já só penso no dia seguinte. Levantar-me-ei cedo, muito cedo, para espreitar o sapatinho junto do fogão da sala de jantar. E sei que no regresso de Vilar terei o fogão do meu quarto aceso e adormecerei ouvindo a lenha crepitar, aconchegado, quente, pensando talvez nos três reis magos que a essa hora já devem seguir a estrela colocada pela minha avó sobre a cabana do presépio onde Jesus acaba de nascer.

In «Alma», romance de Manuel Alegre, colecção «Biblioteca de Bolso Dom Quixote – Série Literatura BBL» (n.º 23), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2002 (8.ª edição – 2.ª edição de bolso).

A alma dos livros e a medida dos nossos sonhos... de Natal

Imagem encontrada em http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/

A editora Mar da Palavra deseja, a todos (leitores, autores, livreiros e demais colaboradores e amigos), um feliz Natal e um próspero (isto é mais do que utopia!...) Ano Novo. 
Na medida dos sonhos individuais e colectivos, queremos uma árvore cheia de luzes e de ideias para darmos alma aos muitos e diversos livros que acompanham a nossa VIDA.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

MOMENTO UM (de «Os ossos»), história de Lina Céu

«Os gigantes», Salvador Dalí, 1951.
Era uma vez um gigante e uma anã, não de uma história de crianças, nem de história nenhuma mascarada. Mas eles eram a sério desta vida, da real. E mais estranho, muito mais, é que eles eram simplesmente irmãos. A sério. Tinham exactamente os mesmos pais, que não eram nem uma coisa nem outra, mas normais como todos os pais, ou uma parte deles.
Então viviam numa cas boa e grande. Havia um andar apenas para os pais, outro para o gigante e outro para a irmãzinha anã. O andar do gigante era grande e muito arejado. Tinha um quarto para ele dormir e um salão comprido cheio de luz. O da maninha anã era mais que um andar, tinha também um quintalão enorme onde havia baloiços, tanque de areia e água para ela brincar, nespereiras onde os baloiços estavam agarrados e palmeiras altíssimas, pelo menos quatro, no sítio em que o quintal acabava.
Havia também uns muros de propósito para ela correr e se habituar a correr sem cair e dentro dos limites de muros, para se habituar a limites. Mas quando queria também corria sem muros. Depois das palmeiras e do portão grande é que não.
Nesse espaço maravilhoso e gigantesco que pertencia à irmãzinha havia anões e anãs de propósito para brincar com. É mesmo assim. Brincar com. Era muito feliz e cheia de companhias e de espaços, a mana anãzinha.
O mano gigante é que tinha outro modo de vida. No salão grande que era só dele havia uma arca numa ponta e na outra extremidade uma mesa. Em cima da mesa havia livros, muitos. Dentro da arca, dentro dela, que estava sempre aberta, não, ela não era um caixão, havia ossos. Ossos muitos ossos de todos os tamanhos e feitios. A anãzinha não se lembrava muito bem se havia caveiras. Mas se havia, não lhe teriam chamado muito a atenção. Os braços e pernas e coluna e costelas, desses, desses sim, lembrava-se muito bem.
A mana anã passava muitas horas no salão do seu mano gigante. Não para brincar, que não era ambiente para isso. Mas porque, primeiro, gostava muito do seu mano, segundo, gostava muito do contraste dos tamanhos, terceiro, gostava do salão vazio, do espaço todo, só mesa de um lado com livros, só arca do outro com ossos. Quarto, quer dizer, quarta razão pela qual tinha curiosidade louca pelos livros do irmão e pelos ossos do irmão. Quer dizer, salvo seja, os ossos que ele possuía na arca sempre aberta.
O gigante passava o tempo passeando de um lado para o outro do salão com livros na mão, um de cada vez.
O gigante estudava Medicina.
A anã adorava o irmão, adorava ver estudar, adorava os ossos que o irmão estudava.
Um dia perguntou-lhe: Mano, por acaso não serão esses ossos os do Camões? Porquê?, perguntou o gigante curioso com a curiosidade da sua mana anã. É que aqui só há ossos livros e eu sei que Camões escreveu livros importantes. E o que aqui há é tudo importante, se não o meu mano gigante não estava a estudar tanto.
O gigante sorriu-lhe ternamente como sorria sempre e respondeu-lhe que os ossos do Camões estavam guardados numa arca muito mais importante e guardada num sítio ainda mais importante. E para estudar Medicina se utilizavam os ossos das pessoas muito menos interessantes que geralmente não faziam livros pelo menos que se soubesse. Então a mana ficou satisfeita com esta explicação e achou bem.
Achou que assim estava tudo correcto e lógico.
Um dia em que lá voltou à procura do sorriso terno e das palavras doces do seu mano gigante, disse-lhe ensina-me alguma coisa de Medicina, uma coisa que eu aprenda depressa e não me esqueça nunca. Então ele respondeu-lhe: vou-te ensinar porque é que a tua madrinha de que tanto gostas e devia ser gigante como eu é também anãzinha como tu. E disse-lhe: a paraplegia pótica[1] é produzida pelo abcesso extradural, intra-raquídeo e ante-medular. Diz.
Ela repetiu logo à primeira e nunca mais esqueceu. E já chegava tudo para aquele dia.

In «Histórias de Cá e de Lá», de Lina Céu, Papiro Editora, Porto, Maio de 2010 (1.ª edição).


[1] Alusiva a Percival Pott, cirurgião inglês, 1713-1788.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O LABIRINTO, de Jorge Luis Borges


















Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou com uma cabeça de touro, e em cuja rede de pedra tantas gerações se perderam. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem, e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações, como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem, e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações, como Maria Kodama e eu nos perdemos, naquela manhã, e continuamos perdidos no Tempo, essoutro labirinto.

In «A memória de Shakespeare», de Jorge Luís Borges (com Prólogo de Luís Alves da Costa e tradução de Luís Manuel Bernardo e Luís Alves da Costa), Colecção «A Biblioteca de Babel» (n.º 7), Vega (editor Assírio Bacelar), Lisboa, 1994 (1.ª edição)

[A curvatura da onda], por Maria Velho da Costa

Pormenor de imagem encontrada em http://www.scielo.br/

A curvatura da onda é a mão que não apreende. A virilidade do mar está no ronco e na coloratura. O glauco é grave, a paciência, a espessura que dilacera a audição. A sereia é tecida do rochedo erodido à distância, sopro de alvéolos milenarmente tangidos. Sólida, a mulher do homem desfaz sob o bloco abissal a finitude da teia, espuma limítrofe, lateral.

In «Da rosa fixa» (poesia), de Maria Velho da Costa, colecção Graffiti, Quetzal Editores, Lisboa, 1999 (2.ª edição revista).

[Ah os actos, os actos], por Maria Velho da Costa

Fotografia encontrada em http://camelecocacola.blogspot.pt/

Ah os actos, os actos, que perfazem os modos dessa espera. Séculos depois substituía-se ao pente de osso, tear da cabeça, um apuramento de horários e ocultos gestos, humildados, ainda que lassos, diários, a contratação das águas, combustíveis. Sê fiel, ao impraticável regrado. Também Camilo portuguesmente navegou um oceano de pequenos mistérios a prazo.

In «Da rosa fixa» (poesia), de Maria Velho da Costa, colecção Graffiti, Quetzal Editores, Lisboa, 1999 (2.ª edição revista).

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A MONDEGUINA, de Diogo Lucas Linhares


«A Mondeguina» é um poema só. Um único poema percorrendo um livro inteiro, escondendo, entre uma e outra ponta, sorrisos brancos em capas negras. Este livro é a musa honrando o seu Rio, na plenitude da construção, na realização dos desejos dos homens e das mulheres, mesmo antes de os homens e as mulheres saberem os seus desejos. É intemporal, como o antes, o depois e o agora ao mesmo tempo, como um relógio que está desde ontem adiantado. E é os estudantes unidos perguntando de quem é o Rio. É nosso! Num grito bravo, irreverente. Podem tirar-nos tudo. Mas nunca nos tirarão a vontade de atravessar a margem, chegar ao lado de lá. Valeu a pena? Valeu pois.

Diogo Lucas Linhares

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O AUTOR:
Diogo Lucas Linhares  (pseudónimo literário de Diogo Xavier Ferreira Cardoso) nasceu em Coimbra, no dia 21 de Agosto de 1993. É estudante de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Lançou, aos 18 anos, o seu primeiro livro de poesia, «Dias de sorte». Agora, embarca na sua segunda experiência, «A Mondeguina», procurando ouvir o Rio e sentir-lhe as formas.
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FICHA TÉCNICA:
Autor: Diogo Lucas Linhares
Capa: Fotografia de Miguel Escobar
Editora: Mar da Palavra - Edições, Lda.

Colecção: Poemar (N.º 7)
PVP: 10,60 €
N.º de páginas: 56
Formato: 13,0 x 19,0 cm
ISBN: 972-8910-68-6 (EAN: 978-972-8910-68-6)

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https://www.facebook.com/149325878444472/photos/a.401126863264371.88598.149325878444472/828109490566104/?
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http://www.bibliofeira.com/livro/489734627/a-mondeguina-poesia/
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http://www.livroseleituras.com/web/index.php?option=com_content&view=article&id=2335%3Adiogo-xavier-&catid=102%3Aultimas-propostas&Itemid=165

Apresentação do livro A MONDEGUINA_Casa Municipal da Cultura de Coimbra, 5 de Dezembro de 2014 (pelas 17h30)












CONVITE

A editora Mar da Palavra e o autor têm o prazer de o convidar para a sessão pública de apresentação do livro de poesia “A Mondeguina”, da autoria de Diogo Lucas Linhares (pseudónimo literário de Diogo Xavier Ferreira Cardoso), que se realizará em Coimbra, no dia 5 de Dezembro de 2014 (sexta-feira), pelas 17h30, na Sala José Sebastião da Silva Dias (sala polivalente) da Casa Municipal da Cultura (à Rua Pedro Monteiro).

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

DESPEDIDA, de Yvette Kace Centeno

Fotografia encontrada em https://avesdosazores.wordpress.com/
Saudades terei
só do jardim
da corrida dos melros
sobre a relva
do bailado dos gansos
sobre o lago
e do luar
nas noites de Verão
depois de um pacato
entardecer

Recordo ainda
o coaxar das rãs
melancólico, hipnótico
no jardim envolvente
parecendo voar

In «Canções do Rio Profundo» (poesia), de Y. K. Centeno (com uma pintura de Jacinta Andrade), colecção «pequeno formato» (n.º 25), Edições ASA, Porto, Novembro de 2002 (1.ª edição).

BACK HOME, de Yvette Kace Centeno

Foto encontrada em http://www.deoutramaneira.com

Partir
finalmente partir

o mar azul
ao longe

o barco
preparado

e do ultimo pássaro
o canto desejado




In «Canções do Rio Profundo» (poesia), de Y. K. Centeno (com uma pintura de Jacinta Andrade), colecção «pequeno formato» (n.º 25), Edições ASA, Porto, Novembro de 2002 (1.ª edição).

Que trabalho exasperado, o da língua

Foto encontrada em http://gens-isibraiega.blogspot.pt


















Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 18 de novembro de 2014

«Da salvação das almas», de Jorge Luis Borges

Fotografia encontrada em http://www.livrosepessoas.com/tag/jorge-luis-borges/
Num Outono, num dos Outonos do tempo, as divindades do Xinto congregaram-se em Izumo, mas não pela primeira vez. Disse-se que eram oito milhões, mas eu sou um homem muito tímido, e sentir-me-ia um pouco perdido, entre tanta gente. Para mais, não convém manipular cifras inconcebíveis. Digamos que eram oito, já que o oito é, nestas ilhas, de bom agouro.
Estavam tristes, mas não o mostravam, porque os rostos das divindades são kanjis, que se não deixam decifrar. No verde cume de um cerro, em roda se sentaram. Do seu firmamento, ou de uma pedra, ou de um floco de neve, haviam espiado os homens. Uma das divindades disse:
Há muitos dias, ou muitos séculos, reunimo-nos aqui, para criar o Japão e o Mundo. As águas, os peixes, as sete cores do Arco, as reproduções das plantas e dos animais saíram-nos bem. Para que tantas coisas os não oprimissem, demos aos homens a prole, o dia plural e a noite una. Assim mesmo, lhes outorgámos o dom de poder ensaiar algumas variações. A abelha continua a repetir colmeias; o homem imaginou instrumentos: o arado, a chave, o caleidoscópio. Também imaginou a espada e a arte da guerra. Acabou de imaginar uma arma invisível, que pode ser o fim da História. Antes de que ocorra esse insensato feito, apaguemos os homens.
Ficaram a pensar. Sem se atrapalhar, disse outra divindade:
É verdade. Eles imaginaram essa coisa atroz, mas também há esta, que cabe no espaço que abarcam as suas dezassete sílabas…
Entoou-as. Estavam num idioma desconhecido, e não as pude entender.
A divindade maior sentenciou:
Que os homens perdurem.
Assim, por obra de um haiku, se salvou a espécie humana.

In «A memória de Shakespeare», de Jorge Luís Borges (com Prólogo de Luís Alves da Costa e tradução de Luís Manuel Bernardo e Luís Alves da Costa), Colecção «A Biblioteca de Babel» (n.º 7), Vega (editor Assírio Bacelar), Lisboa, 1994 (1.ª edição).
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UM POUCO SOBRE JORGE LUIS BORGES / Vídeo «Buenos Aires: Las calles de Borges»:
http://livingdesign.info/2011/09/11/buenos-aires-las-calles-de-borges/

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

[…] se a inspiração vos não transbordar da alma […]

Imagem encontrada em http://jorge-pontes.blogspot.pt/

WAGNER
Ah! Quando se vive assim encafuado num gabinete e se contacta com o mundo apenas nos dias de festa, e só de longe, através de um óculo, como se pode aspirar a guiá-lo um dia pela persuasão?

FAUSTO
Nunca o conseguireis, se não sentirdes intensamente; se a inspiração vos não transbordar da alma, se, mercê de violenta emoção, não souberdes arrebatar o coração dos que vos escutam. Ide, pois, concentrar-vos em vós mesmo, juntar e aquecer os restos de outros festins, para assim obterdes um pequeno cozinhado… Ateai uma mísera chama no monte de cinzas onde soprais!... Só então podereis aspirar à admiração das crianças e dos símios, se tal vos apraz; mas nunca conseguireis agir sobre os vossos semelhantes, se a vossa eloquência vos não vier directa do coração.

In «Fausto», de Goethe (tradução de Luiza Neto Jorge, sobre a versão francesa de Gérard de Nerval), Colecção «Livro B» (n.º 47), Editorial Estampa, Lisboa, Julho de 2003 (4.ª edição).

terça-feira, 14 de outubro de 2014

CHEGOU A PRIMAVERA!, novo livro de Fernando Miguel Bernardes


«Chegou a Primavera!» é um livro que dá continuidade aos diversos títulos que Fernando Miguel Bernardes foi vendo publicados, sob várias chancelas editoriais, no seu percurso de escritor muito atento no que respeita, sobretudo, à literatura infanto-juvenil.
Na vertente criativa que lhe é própria, o autor oferece-nos uma mão-cheia de pequenas obras poéticas e de contos para crianças, a exemplo de «O periquito rebelde», conto-poema com ilustração de Inês Massano, editado em 2012, pela Mar da Palavra.
O novo livro de Fernando Miguel Bernardes – «Chegou a Primavera!», com ilustração do artista plástico João Nuno e igualmente editado pela Mar da Palavra – reflecte uma infância vivida e também imaginada de e num tempo cuja marca se pode agarrar ao sonho de uma noite de Verão, ao valor dos afectos ou ainda às memoráveis férias na praia.
Espraiando-se até aos meses de Outono, sob a música de Mahler ou de Lopes-Graça, ou mesmo da que sai de um realejo tocado ao calor do forno familiar numa aldeia que reverdece com as ervas e as flores da época, a poesia de Fernando Miguel Bernardes recupera os dotes encantatórios da meninice.
Com um toque neo-realista, o escritor não se esquece das castanhas assadas nem das bolas de neve que, feitas de granizo ou «pedraço», servem agora de mote aos poemas de Inverno, partindo «à procura da vida», ao jeito de Alice, saltarilhando «com luvas e botas grossas».
Já depois de «viajar num cometa», o poeta retoma a infância da pesca à linha, na expectativa de um achigã, peixe que «é de prata fina,/ bonito de ver!». E fala, assim, de um tempo em que as abelhas «às vezes mordem», além de percorrerem os montes e voarem sobre os rios de uma Primavera que se renova e amadurece na idade dos trigais e com as novidades da Natureza.
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O AUTOR:
Fernando Miguel Bernardes nasceu no dia 14 de Dezembro de 1929, em Gândara dos Olivais, no distrito de Leiria. Fez os primeiros estudos em Leiria e frequentou as universidades de Coimbra e Clássica de Lisboa, onde tirou o curso de engenheiro geógrafo. Posteriormente, concluiu um curso de pós-graduação em Cálculo Científico, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi professor no ensino secundário e também no ensino superior. Trabalhou em várias empresas e foi director do Departamento de Acção Sociocultural da Câmara Municipal de Almada. Na qualidade de escritor, com uma multifacetada obra, tem participado em vários colóquios e programas relacionados com a motivação para a leitura de crianças e de jovens.
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FICHA TÉCNICA:
Autor: Fernando Miguel Bernardes
Ilustração: João Nuno
Editora: Mar da Palavra - Edições, Lda.
PVP: 7,50 €
N.º de páginas: 40
Formato: 23,0 x 16,0 cm
ISBN: 972-8910-67-9 (EAN: 978-972-8910-67-9)

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