segunda-feira, 28 de abril de 2014

«LAMENTO PARA A LÍNGUA PORTUGUESA», poema de Vasco Graça Moura


não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

[É a eterna história do primeiro livro], nota biográfica sobre Edgar Allan Poe da autoria de Charles Baudelaire

Imagem encontrada em http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha
Poe deixou West Point sem se formar e começou a desastrosa batalha da vida. Em 1831, ele publicou um pequeno volume de poesias que foi acolhido favoravelmente pelas revistas, mas que não era comprado. É a eterna história do primeiro livro. O sr. Lowell, um crítico americano, diz que há uma dessas peças, endereçada “à Helena”, “um perfume de ambrósia”, e que ela não desmereceria a Antologia grega. É verdade que, pelo seu ritmo harmonioso e as suas rimas sonoras, cinco versos, dois masculinos e três femininos, ela lembra as felizes tentativas do romantismo francês. Mas vê-se que Edgar Allan Poe estava ainda bem longe do seu excêntrico e fulgurante destino literário.
Não obstante, o infeliz escrevia para os jornais, compilava e traduzia para as editoras, fazia artigos brilhantes e contos para as revistas. Os editores publicavam-nos de boa vontade, mas pagavam tão mal ao jovem que ele caiu na miséria. Ele desceu mesmo tão baixo que pôde ouvir “gritar os gonzos das portas da morte”. Um dia, um jornal de Baltimore propôs dois prémios para o melhor poema e o melhor conto em prosa. Um comité de literatos, do qual fazia parte o sr. John Kennedy, foi encarregado de julgar as produções. Entretanto, eles não se ocupavam de lê-las; a menção dos seus nomes era tudo o que lhe se pedia ao editor. Enquanto conversavam de uma coisa ou outra, um deles foi atraído por um manuscrito que se distinguia pela beleza, limpeza e nitidez dos caracteres. Ao fim de sua vida, Edgar Allan Poe possuía ainda uma escrita incomparavelmente bela. O sr. Kennedy leu uma página apenas e, tendo sido tocado pelo estilo, leu a composição em voz alta. O comité votou o prémio por aclamação ao primeiro dos génios que soube escrever legivelmente. O envelope secreto foi aberto e surgiu o nome, então desconhecido, de Poe.
O editor falou do jovem autor ao sr. Kennedy em termos que lhe deram vontade de conhecê-lo. A fortuna cruel havia dado a Poe a fisionomia clássica do poeta em jejum. Havia-o caracterizado tão bem quanto possível para o empregado. O sr. Kennedy contou que encontrou um jovem que as privações tinham emagrecido como um esqueleto, vestido com um redingote que estava, seguindo uma velha táctica bem conhecida, abotoado até ao queixo, calças em farrapos, botas rasgadas dentro das quais não havia evidentemente meias e, com tudo isso, um ar desafiador, grandes maneiras e olhos ardentes de inteligência. Kennedy falou-lhe como a um amigo. Poe abriu-lhe o coração, contou-lhe toda a sua história, a sua ambição, os seus grandes projectos. Kennedy foi ao mais premente, conduziu-o a uma loja de roupas e comprou-lhe o fato conveniente; depois apresentou-lhe as pessoas certas.

In «Edgar Allan Poe», de Charles Baudelaire (com tradução de Manuel Dias Soares), Alma Azul, Coimbra/Alcains, Outubro de 2008 (1.ª edição).

[Todos os contos de Edgar Allan Poe são, por assim dizer, biográficos. Encontra-se o homem na obra], afirma Charles Baudelaire

Imagem encontrada em http://richmondthenandnow.com/
Algum tempo antes que Balzac descesse ao abismo final lançando as nobres queixas de um herói que tem grandes coisas a fazer, Edgar Allan Poe, que tem mais de um traço em comum com ele, caía atingido por uma morte horrível. A França perdeu um de seus maiores génios e a América um romancista, um crítico, um filósofo que não era feito para ela. Muitas pessoas ignoram aqui a morte de Edgar Allan Poe, muitas outras acreditaram que era um jovem rico, que escrevia pouco, produzindo criações bizarras e terríveis nos lazeres mais risonhos, não conhecendo a vida literária senão por raros e retumbantes sucessos. A realidade foi o contrário.
A família do sr. Poe era uma das mais respeitáveis de Baltimore. Seu avô era quarter-master-general na revolução, e La Fayette tinha-o em alta estima e amizade. A última vez que este foi visitar o país, suplicou à sua viúva que aceitasse os testemunhos de seu reconhecimento pelos serviços que lhe havia prestado o seu marido. O seu bisavô havia casado com uma filha do almirante inglês Mac Bride e, através dele, a família de Poe estava ligada às casas mais ilustres da Inglaterra. O pai de Edgar recebeu uma educação honorável. Tendo-se apaixonado violentamente por uma jovem e bela actriz, fugindo e casando com ela. Para misturar mais intimamente o seu destino ao dela, ele quis também subir ao palco. Mas não tinham, nem um nem outro, o génio do ofício e viviam de uma maneira bastante triste e precária. Ainda assim, a jovem dama saía-se bem com a sua beleza e o público encantado suportava o seu desempenho medíocre. Numa das suas digressões, vieram a Richmond, e foi lá que ambos morreram, com poucas semanas de distância um do outro, ambos pela mesma causa: a fome, a penúria, a miséria.
Abandonavam assim à sorte – sem pão, sem abrigo, sem amigo – um pobre pequeno infeliz que, de resto, a Natureza havia dotado de um feitio encantador. Um rico negociante de Baltimore, o sr. Allan, foi movido pela piedade. E entusiasmou-se com esse menino bonito e, como não tinha filhos, adoptou-o. Edgar Allan Poe foi assim criado num bom ambiente e recebeu uma educação completa. Em 1816, acompanhou os seus pais adoptivos numa viagem que fizera a Inglaterra, Escócia e Irlanda. Antes de voltar ao seu país, deixaram-no sob os cuidados do doutor Brandsby, que tinha uma importante casa de educação em Stoke-Newington, perto de Londres, onde ele passou cinco anos.
Todos aqueles que reflectiram sobre a própria vida, que frequentemente lançam um olhar para trás a fim de comparar o passado com o presente, sabem que grande parte da adolescência tem influência decisiva no génio de um homem. É então que os objectos lançam profundamente as suas marcas no espírito tenro e fácil; é lá que as cores são vistosas e os sons falam uma língua misteriosa. O carácter, o génio, o estilo de um homem é formado pelas circunstâncias da aparência vulgar da sua primeira juventude. Se todos os homens que ocuparam o cenário do mundo tivessem anotado as suas impressões de infância, que excelente dicionário psicológico possuiríamos! As cores, o perfil do espírito de Edgar Allan Poe contrastam violentamente com o fundo da literatura norte-americana. Os seus compatriotas mal o consideram americano e, no entanto, ele não é inglês. É então de bom alvitre colher de um dos seus contos, um conto pouco conhecido, “William Wilson”, um relato singular da sua vida nessa escola de Stoke-Newington. Todos os contos de Edgar Allan Poe são, por assim dizer, biográficos. Encontra-se o homem na obra. Os personagens e os incidentes são o quadro e o cortinado das suas lembranças.

In «Edgar Allan Poe», de Charles Baudelaire (com tradução de Manuel Dias Soares), Alma Azul, Coimbra/Alcains, Outubro de 2008 (1.ª edição).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

«Que fatigantes sonhos me atormentam», confessava Wenceslau de Moraes

Imagem encontrada em http://patriciero.mforos.com/

Nem vocês imaginam, que fatigantes sonhos me atormentam, neste levantar de feira, neste capítulo final da existência, aqui, durante as longas noites monótonas de Tokushima!... Eu bem quisera, evidentemente, sonhar sonhos alegres, tranquilos pelo menos; sonhar por exemplo com vocês, vê-los todos jovens e ver-me jovem como éramos há quarenta e tantos anos, palestrar com vocês, rir com vocês; indo assim prolongando a visão de uma mocidade sempre em viço, o que seria o melhor meio de deixar ir laborando sobre mim, despercebida, esta decrepitude que me esmaga... Eu bem quisera ser feliz em sonhos, sonhar serenidades de lar e doces conchegos de gente amiga ao pé de mim, já que a realidade da vida não me beneficiou com este regalo. Ou então, se pedir tanto, mesmo em sonhos, fosse muito, eu já me contentara em ir sonhando com os meus mortos, com os entes que amei e já se foram deste mundo; ter a ilusão dos seus vultos, do som das suas vozes, dos seus carinhos, numa ressurreição fantasmagórica, que atravessasse o meu cérebro irrequieto durante horas, enquanto o corpo ia dormindo...

*
Mas as coisas passam-se de modo bem diferente. Eu sonho muitos sonhos, todas as noites. Mas os meus sonhos, fatigantes, quezilentos, não passam, em regra, de uma como que reedição, correcta e aumentada, e burlesca e caricatural ainda por cima, da minha anterior carreira activa, a bordo dos navios e em consulados; transbordando de peripécias, movimentada de incidentes, complicada de surpresas. Dir-se-ia que me ficaram de reserva, de sobejo, nervosidades exaltadas, profissionais, que pedem para exercer-se; e, à falta de ocupação condigna, neste marasmo de fim de vida, isolada e inútil, explodem em sonhos, excluindo outros sonhos, atormentando-me sem cessar, em horas em que eu desejaria algum repouso. Sonho com barcos, de todos os tamanhos e feitios, enxameados de marujos. Umas vezes, sou eu o comandante destes barcos; outras vezes, simples oficial ou passageiro. Bagagens, malas, maletas, apoquentam-me. Excita-me a lufa-lufa das partidas, das chegadas. Surgem coisas imperiosas a resolver, que eu não consigo levar a bom caminho, embora me multiplique em esforços inauditos. Troco frases, em português ou em línguas estrangeiras, com gente que passa ao meu alcance; esta gente é, em regra, brusca, arrogante, malcriada. Por vezes, é um antigo camarada, dos velhos tempos, que diviso e me sorri; ou é um alto personagem – ministro de Estado, ou embaixador, ou almirante, ou general –, em farda rica, que faz a sua aparição... – resulta talvez de multíplices reminiscências de factos anteriores, quando eu assistia, em Kobe, a bordo de algum couraçado japonês, às revistas navais da grande esquadra do império, com o imperador presente, acompanhado de luzida comitiva. Não raro, os navios transformam-se em palácios, semelhantes a alguns que ocasionalmente visitei; ou descambam em hotéis, em casarões de quatro andares, de cinco andares, ou compridos como casernas de regimentos, onde a balbúrdia é a regra, como aqueles hotéis que abundam nos portos do Extremo Oriente, dos quais eu, por necessidade, tive, em tempos distantes, a experiência. Conservo ainda nítida a impressão de sonhos que sofri, há alguns anos, quando doente, sobre a cama; eu não via senão cordas (cordas, não cabos, para que o vulgo leigo me perceba), cordas e velas enfunadas, numa confusão indescritível, cruzando-se em todos os sentidos e a bailarem diabolicamente em frente dos meus olhos, cerrados em torpor. Deuses piedosos! Se, no delírio final, que preceder a minha morte, tenho ainda de virar de bordo uma corveta, que estopada!... E, concluindo este assunto, devo ainda acrescentar que, após tantos sonhos tumultuosos, acordo todas as manhãs quebrantado, maldisposto, quase envergonhado de mim mesmo, da labuta quimérica em que se me vão gastando as energias, sem que logre colher, de tantos disparates, uma impressão sequer que me console...

In «Meditações», de Wenceslau de Moraes, Alma Azul, Coimbra/Alcains, Janeiro de 2009 (1.ª edição).

«Nunca me senti plenamente feliz», escreveu Wenceslau de Moraes

Imagem encontrada em http://www.man-pai.com/ 
Cedo, muito cedo, me alvoroçou e seduziu o encanto do exotismo. Porquê? Não sei. Penso que, temperamento marcado da tara da morbidez logo ao nascer, não me encontrava bem onde me achava, pedia asas à quimera, para fugir para longe, muito longe... E fugi, e voei, e fui deixando farrapos de alma (porque a alma se rasga e se dá quando se amam as coisas), por todo este mundo exótico fora: – pelo Oceano imenso – águas e céu, pela África selvática, pelo Egipto, por Argel, por Zanzibar, por Aden, por Colombo, por Singapura, por Bangkok, por Saigão, pela China, por Java, por Macassar, por Timor e mais nada... Reservava-me o destino ainda outras emoções: – cheguei ao Japão – Amei-o em transportes de delírio, bebi-o como se bebe um néctar...
Todavia, eu nunca experimentei a sensação plena do gozo, o prazer que domina tudo, triunfante. Eu nunca, no Japão como em parte alguma, me senti plenamente feliz, sem dúvida por incompetências e incongruências dos meus dotes afectivos. O enlevo das coisas acorda sempre no íntimo do meu ser um sofrimento ignoto, a impressão de dor por uma catástrofe sofrida ou por sofrer – sofrida, talvez numa outra vida já vivida; por sofrer, talvez em futuros dias da minha vida actual, talvez numa outra vida que há-de vir; ou terei eu o estranho dom de sofrer, por indução, a dor dos males que ferem outros seres?...
Bem. Foram correndo os anos; foram-se sucedendo as surpresas, as maravilhas; e também os reveses, como, em regra, sucede a toda a gente. O Japão conferia-me ainda o privilégio cruciante de assistir, em curtos intervalos de tempo, a duas agonias, aos gestos convulsivos e aos gemidos pungentes de duas mulheres na força da vida e dos desejos, que morriam a meu lado, tendo pedido à morte que as poupasse...
A minha religião de esteta, a qual já de longe, ia anunciando tendências para me deixar colher dos factos e dos aspectos, principalmente, a noção melancólica da impertinência das coisas, do aniquilamento como lei suprema, a que tudo se submete, transitou então para uma outra crença, a religião da saudade – que é ainda uma religião estética, mas de uma estética retrospectiva, que leva a paixão do belo, do bom, do consolador, pelo que foi e já não é.
O Japão foi o país onde eu mais vivi pelo espírito, onde a minha individualidade pensante mais viu alargarem-se os horizontes do raciocínio e da compreensão, onde as minhas forças emotivas mais pulsaram em presença dos encantos da Natureza e da Arte. Seja pois o Japão o altar deste meu novo culto – a religião da saudade –, o último por certo a que terei de prestar amor e reverência.

In «Meditações», de Wenceslau de Moraes, Alma Azul, Coimbra/Alcains, Janeiro de 2009 (1.ª edição).

Num mar aberto a todas as palavras






























Trabalho jornalístico do «Diário As Beiras» (com texto de Lídia Pereira e fotos de Luís Carregã) 
publicado no Dia Internacional do Livro (23.04.2014)

segunda-feira, 21 de abril de 2014

[respondia com um desencorajante «porque faz falta»], excerto de «Pede poena claudo...» (O castigo claudica), de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho
Há muitos anos, os médicos recomendaram-me muito repouso nas praias frias de Pollsberry de ares gelados, húmidos e salubres. A doença que então tinha não me lembra, mas certo é que fiquei dela sarado, e por então bom.
Grande parte do tempo passava-o eu a olhar para o mar, de riba das falésias muito altas, todas arenitos e musgos, onde as águas redemoinham, turbilham, e escavam cavernas caprichosas e inacessíveis. Nos cimos, havia restos de antigas fortalezas, esboroados, muito cobertos de líquenes e de heras. Aí me quedava.
Convém dizer que não me tinha naquela exaltação de alma em que os livros falam, expectativas de catedrais emergentes, navegações perdidas, íntimos discursos sobre o infinito a propósito de qualquer faísca erradia ou macaréu à solta. Antes olhava para o mar porque todos os recantos da minha velha estalagem estavam esquadrinhados, todos os quadros a óleo representando ingénuas cenas de caça ou naturezas-mortas com frutos sumarentos, inacreditáveis, estavam vistos, e as conversas dos vagos pescadores ou viajantes que por ali se ficavam eram já há muito sempre as mesmas. E a paisagem, de charnecas sempre cinzentas, mostrava-se tão pouco variada que tanto dava caminhar aqui como além.
Nestas minhas supostas meditações sobre os oceanos, fazia-me companhia o velho Patrik O’Malley, o último tratador de gaivotas, ao que suponho. Habitava numa furna, que nunca visitei, não longe da velha coluna derrubada em que eu habitualmente me sentava, e todos os dias, ao aperceber-me, aproximava-me, dispunha pelo chão os seus apetrechos e ficava horas, a cachimbar e a trabalhar, gestos repousados, na sua obra.
O velho era de poucas falas, o que convinha. Já tinha corrido os mares todos, a bordo de todos os navios, o que o tornava um pouco filósofo e muito céptico. Todo o seu pensamento se fundava numa asserção que muitas vezes me lembrava com a insistência própria dos velhos: a de que as ilhas esplendorosas, em que abunda a árvore-do-pão e o clima é ameno e a natureza brilhante e perfumada, são as mandadas pelos deuses mais hediondos e repulsivos e fedorentos e vingativos.
Dedicava-se na ocasião o velho ao grande trabalho da sua vida que era a confecção de um cabo que pudesse dar a volta ao mundo, correndo sobre o Equador. Andava nisto há anos, reunindo para o efeito todos os trapos velhos, todas as cordas, as guitas e arames, todas as palhas e fibras que pudesse encontrar. Escondidos em muitos recantos da costa ou enterrados em covas que só ele conhecia, havia já muitos metros enrolados deste gigantesco cilício que ele queria oferecer ao mundo.
Nunca me deu explicações sobre o porquê desta sua lavra. Às minhas discretas perguntas respondia com um desencorajante «porque faz falta», resmoneando entredentes, a limitar uma área de conversação em que não estava interessado.
Assim então nos plantávamos, em grande silêncio, eu a olhar para as águas, ele a cachimbar e a entretecer, moroso, o seu cabo.

In «A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (e outras histórias)», de Mário de Carvalho, Colecção «O Campo da Palavra», Editorial Caminho (Grupo Leya), Lisboa, Janeiro de 2001 (7.ª edição).

«SEMENTEIRA», poema de Mia Couto

Pintura «Caminho de Flores», de Lars de Goor
(imagem encontrada em http://marinabaitello.wordpress.com/)

O poeta
faz agricultura às avessas:
numa única semente
planta a terra inteira.

Com lâmina de enxada
a palavra fere o tempo:
decepa o cordão umbilical
do que pode ser um chão nascente.

No final da lavoura
o poeta não tem conta para fechar:
ele só possui
o que não se pode colher.

Afinal,
Não era a palavra que lha faltava.

Era a vida que ele, nele, desconhecia.


«tradutor de chuvas» (poesia), de Mia Couto, Editorial Caminho (grupo Leya), Alfragide, Julho de 2013 (2.ª edição).

«PALAVRADOR», poema de Mia Couto

Pintura «Escolha no Chão», de Kiki Lima – Imagem encontrada em http://uminutocom.blogspot.pt/

O papel,
antes do poema,
é um chão depois da chuva.

O idioma do grão
lavra a caligrafia do pão.

«tradutor de chuvas» (poesia), de Mia Couto, Editorial Caminho (grupo Leya), Alfragide, Julho de 2013 (2.ª edição).

«DESLIÇÃO DE ANATOMIA», poema de Mia Couto

Imagem encontrada em http://inconscientecoletivo.net/palavras-tem-poder/#

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no humano corpo,
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!

Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.

Eu apenas amava as palavras.

Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.

«tradutor de chuvas» (poesia), de Mia Couto, Editorial Caminho (grupo Leya), Alfragide, Julho de 2013 (2.ª edição).

«TRADUTOR DE CHUVAS», poema de Mia Couto

Mia Couto – Foto encontrada em http://voltaparafuso.blogspot.pt/
Um lenço branco
apaga o céu.
A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.

«tradutor de chuvas» (poesia), de Mia Couto, Editorial Caminho (grupo Leya), Alfragide, Julho de 2013 (2.ª edição).

«DUGONGUES», poema de Mia Couto

Imagem encontrada em http://tempodadelicadeza.com.br/

Por mais que à terra
nos condenemos,
não se apaga em nós
a lembrança da água
de que somos feitos.

Sobre a pele a flor de sal
em nada nos acrescenta
ao oceano que já fomos.

Promessa
de eterno retorno,
viagem feita só para ganhar saudade,
apenas em nós o mar é infinito.

Para os demais seres marinhos,
o inteiro oceano
não é mais que um pátio de infância.

«tradutor de chuvas» (poesia), de Mia Couto, Editorial Caminho (grupo Leya), Alfragide, Julho de 2013 (2.ª edição).

segunda-feira, 14 de abril de 2014

[Os leitores mais advertidos hão-de lembrar-se de um jornal chamado Corneta do Diabo, escrito por um tal Palma Cavalão], excerto de «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho – Foto encontrada em http://elsindromechejov.blogspot.pt/ 
Por essa hora, Arnaldo dava-se a uma acção retaliadora que se pode considerar temerária, tomando em conta o seu físico esguio e o feitio reservado.
Começou à entrada do elevador, quando o largo e folgazão Quintão Malpique meteu a patorra peluda entre as portas metálicas e fez disparar o sensor, evitando que fechassem. Foi Arnaldo o único entre os dez utilizadores que não riu quando o fulano veio com a sua grande frase «Ai, ai, quanto mais fulgêncio me reputo tanto mais sulfúreo me alcandoro», suscitando comentários do género «Que castiço!», «Grande Malpique!». E olhou-o furibundo, quando ele lhe deu uma palmada no ombro e, depois, lhe apertou o braço com uma familiaridade que não estava lembrado de consentir.
Mas a questão não tinha ficado por aí. Foi um daqueles dias de atabalhoamento dos deuses, lá em cima, quando tropeçam ou se distraem e começam a cruzar linhas e a encaroçar as tintas. A distância de segurança a que Arnaldo mantinha Quintão Malpique, devido a uma antipatia fininha proveniente da incompatibilidade de feitios, costumava ser preservada, não apenas pelos vidros dos gabinetes, mas pelos seus passos cautelosos que evitavam aproximar-se quando o outro se repimpava na cafetaria, a dizer graçolas.
Descortinava o leitor um tipo de português largo e inflado, ovante e intrusivo, propenso à calvície, com sobrancelhas de escovilhão, riso beiçudo, pelame encaracolado em todo o corpo, amador da piodola e da pirraça, grosseiro para os mais fracos, airoso para os superiores, em absoluto impenetrável a noções básicas de decência e decoro? Uma figura digna das Metamorfoses, em que se hibridam o entranhado lanzudo e o atávico malandrim? Não descortina? Então é porque este Quintão Malpique era uma raridade e convém, na passagem, examiná-lo mais de perto como espécime singular.
Se lhe perguntassem por que é que ele se tinha queixado à polícia, por carta anónima, duma velha que dependurava os cobertores nas traseiras do prédio, sem que isso afectasse ninguém, e muito menos os empregados duma empresa que não moravam ali, ele responderia, rindo: «É só p’ra chatear.» Do mesmo modo, quando telefonava para a Câmara, disfarçando a voz, a denunciar um vizinho que fazia obras clandestinas numa casa de banho, era «só p’ra chatear». Também era «só p’ra chatear» o gesto de deixar o elevador encravado no nono andar para que um casal de idosos, com o seu velho cão, tivesse de se arrastar pelas escadas.
Comprazia-se, naturalmente, com a incomodidade dos outros. Uma acção que tivesse como motivação «chatear» parecia-lhe absolutamente justificada, desde que não fosse ele o chateado. Uma representação popular – aliás falsa e caluniosa – que atribui o incêndio de Roma a Tibério Nero Enobarbo, para depois celebrar a catástrofe, a toque de cítara, poderá não andar longe do feitio de Quintão Malpique, descontando o pendor artístico.
Desde que descobrira a Internet, aliás tardiamente, tinha sido um alvoroço. Aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem. Apreciava especialmente os jornais e as suas colunas de posts.
Eis uma amostra de uma contribuição de Quintão Malpique para o debate nacional, que pode ser encontrada facilmente na imprensa electrónica, a propósito da questão, hoje esquecida, dos apoios ao cinema português:
Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!! Banquetes de lagosta, em Nice e em Cannes, aproveitando os favores do Estado e o dinheiro dos contribuintes. Isto é tudo sempre no poleiro, a chuchar no orçamento, à custa do Zé Povinho, e a gastar os nossos ricos carcanhóis com filmalhadas que ninguém percebe nem ninguém vê. Topam? Deviam era mandá-los todos cavar batatas e elas coser meias, a ver se ganhavam calos nas mãos e eram úteis ao povo que é quem mais ordena. Tá? Ao menos o doutor Salazar tinha critério e dav ao povo aquilo que o povo queria.
Os leitores mais advertidos hão-de lembrar-se de um jornal chamado Corneta do Diabo, escrito por um tal Palma Cavalão, criação do grande Eça de Queirós: «Ora viva, Sô Maia!». Pois bem, os bons espíritos encontram-se, como reza o ditado, e não só se encontram no espaço, mas também no tempo. Quase cento e cinquenta anos depois, os ecos estrídulos da Corneta do Diabo ressoam diariamente na Internet, em piruetas de comentários soezes, chalaças, calúnias, mistificações e ordinarices, sob o mesmo anonimato, e pela verve de Quintão Malpique e seus milhentos confrades.

In «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho, Colecção «O Campo da Palavra», Editorial Caminho (Grupo Leya), Alfragide, Maio de 2010 (2.ª edição).

[O almoço foi um desastre, mas Arnaldo não tinha expectativas de que viesse a ser outra coisa], excerto de «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho – Foto encontrada em ipsilon.publico.pt
O almoço foi um desastre, mas Arnaldo não tinha expectativas de que viesse a ser outra coisa. A mãe aventurara-se a um prato robusto e t8nha, com a colaboração do polícia, cozinhado um prato confuso. Já ia na letra C do «sítio» de receitas da Internet, e as amigas, porventura com alguma perfídia, não a tinham desanimado de experiências anteriores, até lhe haviam dado conselhos. E sobre comida não mais direi. A escrita não é competente para falar de sabores. Mais vale uma trincadela que um milhão de palavras.
Sim, eu sei, há todo um Eça, o grande Eça, as suas favas com arroz, o fiozinho de limão a errar subtilmente, que quase nos faz senti-lo, as orgias do Hotel Central, páginas e páginas magníficas. E lá da antiguidade acode o hábil Petrónio, a descrever-nos o banquete do seu Trimalquião, fazendo-nos água na boca com aqueles arganazes recheados com mel. E também Galsworthy, com os Forsyte a abrirem as refeições a poder da sopa de tartaruga fingida, que, antes de provar, convém averiguar do que é composta, assegurando eu que tartaruga não entra, para descanso da que figura nesta história. Tolstoi põe as suas personagens a derrubar garrafas sobre garrafas, a ponto de um mediterrânico acostumado a livre-trânsito de bebidas se interrogar como seria aquilo possível. E o que comem e o que bebem – especialmente o que bebem – as figuras de Gógol, enquanto devoram esturjões inteiros. Emparelham com Pantagruel.
Nenhum destes autores excelsos se pronunciou sobre a canja a doentes da Figueira da Foz, o que me dispensa da competição e abre um tranquilizador vazio de «angústia de influência», para usar a expressão dum crítico americano em vigor.
De resto, nisto da escrita de romances, que é uma espécie de sociedade por quotas, o leitor tem a sua parte e eu peço-lhe que tenha a bondade de a aplicar, recordando-se das vezes em que comeu canja a doentes da Figueira, e de entre elas a pior. Se conseguir imaginar uma ainda mais desengraçada, terá a canja da mãe de Arnaldo. Se ainda conseguir prestar-se a imaginá-la uns graus abaixo, terá a reservada opinião de Arnaldo sobre as virtudes culinárias da mãe e do seu polícia.

In «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho, Colecção «O Campo da Palavra», Editorial Caminho (Grupo Leya), Alfragide, Maio de 2010 (2.ª edição).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

[Na floresta de Gribs, há um lugar a que chamam o Canto dos Oito Caminhos], excerto de «O Banquete», de Sören Kierkegaard

Sören Kierkegaard – Imagem encontrada em http://edward-t-babinski.blogspot.pt/

Na floresta de Gribs, há um lugar a que chamam o Canto dos Oito Caminhos; ninguém o encontra se não o procurar convenientemente, porque não figura indicação dele em nenhum dos mapas conhecidos. Até o próprio nome parece uma contradição; pois como é que do encontro de oito caminhos pode resultar um canto; como é que a estrada real se pode conciliar com o retiro, e a senda espezinhada com o esconderijo? Se o solitário foge da trivialidade, da que deve o nome ao encontro de três vias, como não há-de ele fugir do que resulta de uma dupla encruzilhada? Tal é, positivamente, o facto: há oito caminhos, e todavia neles reina a solidão; longe do mundo, escondido, dissimulado, o homem encontra-se ali muito perto de uma clausura denominada Sebe da Desgraça. A contradição tem sempre por consequência a solidão. Os Oito Caminhos e a circulação intensa que eles representam são uma pura possibilidade, – para o pensamento; porque ninguém por ali passa, a não ser o insecto que atravessa a senda, lente festinans; ninguém os frequenta, senão aquele viajante de passos lépidos e de olhar circunspecto, que não deseja encontrar-se com qualquer animal; aquele fugitivo que, dentro do matagal, não percebe o desejo do viajante que vai em demanda de alguma mensagem; fugitivo que só a bala mortífera é capaz de atingir; e se é muito compreensível que o veado passasse a ser um animal tranquilo, já não se compreende que ele tivesse sido tão inquieto; ninguém passa pelos Oito Caminhos, a não ser o vento, do qual não sabemos de onde vem nem para onde vai. Nem o passeante atraído pelo apelo sedutor dos lugares impenetráveis que o cativaram, nem o homem que é induzido pela senda estreita a entrar no próprio coração da floresta, se encontram tão solitários como quem vai ter aos Oito Caminhos, pelos quais ninguém passa. Oito Caminhos e nenhum viandante! O mundo parece extinto, e o sobrevivente afoga-se na perplexidade quando pensa que já não há ninguém para o enterrar; dir-se-ia que toda a humanidade se escoou por estes oito caminhos, deixando por esquecimento sobreviver um homem! Se é verdadeira a frase do poeta: bene vixit qui bene latuit, eu vivi bem, porque o meu esconderijo era bom, era muito bem escolhido. Mas também é certo o seguinte: que o mundo, e tudo quanto ele encerra, nunca nos aparece tão belo como quando avistado de um mirante que propositadamente escolhemos para a observação. Certo é ainda também que tudo quanto o mundo diz, e tudo quanto nos convém ouvir, ganha a melodia dos sons mais belos e mais encantadores quando é por nós escutado dentro de um recanto secreto. Tais os motivos que frequentemente me levaram a procurar aquele retiro. Havia já muito tempo que eu o conhecia; já não precisava de esperar pela noite para conseguir o desejado silêncio, porque naquele recanto sempre reinam a paz e a beleza; mais belo do que nunca me parece ele àquela hora em que o sol de Outono inclina para o horizonte, num azul elanguescido; o calor passou, e tudo que vive respira ao sopro da brisa que brinca através da floresta, enquanto vai semeando pelos prados um frémito de deliciosa volúpia; o sol vai sonhando com a frescura das vagas em que irá banhar-se; o mundo regressa ao seu recolhimento, a agradece os benefícios dos esplendores do dia; a terra e o céu parecem exprimir ternas despedidas naqueles lugares em que a floresta soturna vai dominando a verdura dos prados.

In «O Banquete (In Vino Veritas)», de Sören Kierkegaard (com tradução e apresentação de Álvaro Ribeiro), Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Março de 2002 (6.ª edição).