segunda-feira, 12 de maio de 2014

[Era ali em frente, no jardim, que vários anos antes marcava encontro com Ophélia Queiroz], excerto de «Os três últimos dias de Fernando Pessoa», de Antonio Tabucchi



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O carro passou diante da basílica da Estrela e ele olhou longamente a sua cúpula através do vidro. Era bonita, a basílica, com aquela enorme cúpula barroca e o frontão trabalhado. Era ali em frente, no jardim, que vários anos antes marcava encontro com Ophélia Queiroz, o seu único grande amor. No banco do jardim da Estrela trocavam beijos tímidos e solenes promessas de se amarem para sempre.
Mas a minha vida foi mais forte do que eu e do que o meu amor, murmurou Pessoa, perdoa-me, Ophélia, mas eu tinha de escrever, devia só escrever, não podia fazer mais nada, agora acabou.
O táxi passou em frente da Assembleia e depois seguiu pela Calçada do Combro. Em tempos tinha morado naquela esquina, vários anos antes, num quarto alugado. A proprietária era a Dona Maria das Virtudes, lembrava-se muito bem, era uma senhora de sessenta anos, de peito abundante e cabelos pintados de amarelo que o convidava à noite para beber a sua ginjinha e tomar parte em sessões de espiritismo. Entrava em contacto com o seu defunto marido, o marechal Pereira, e tinha longas conversas com ele sobre as guerras de África e o preço dos pimentos. Depois bebiam um cálice de ginjinha, comiam uma ginja e Pessoa despedia-se dizendo: Boa noite, Dona Maria das Virtudes, tenha bons sonhos. Retirava-se para o seu quarto. Naquelas noites entrava em contacto com Bernardo Soares e escrevia para ele O Livro do Desassossego. Levantava-se de madrugada para ver as gradações da luz sobre Lisboa e anotava-as num caderninho forrado a pele que a mãe lhe tinha mandado da África do Sul.
Quando chegaram à Rua Luz Soriano, foram mandados parar por um polícia.
Não podem passar, disse o polícia, a rua está ocupada por uma manifestação nacionalista, há uma banda e tudo, hoje a cidade está em festa.
O senhor Moitinho de Almeida debruçou-se na janela.
Eu sou o Dr. Moitinho de Almeida, disse ele com autoridade, temos de ir para o hospital de S. Luís dos Franceses, levamos aqui um doente.
O polícia tirou o boné e coçou a cabeça.
Oiça, senhor, disse ele, vão fazer um pequeno desvio, é um sentido proibido, mas neste caso podem passar, voltem à direita, depois à esquerda e estão no Bairro Alto.
Pessoa sorriu porque o tinha reconhecido. Era Coelho Pacheco, um seu heterónimo raro, alguém que só tinha feito poesia uma vez e o que escrevera era sombrio e visionário, de estilo neogótico. O que é que Coelho Pacheco faria ali, vestido de polícia? Talvez o Mestre o tivesse enviado para lhe preparar o caminho que devia seguir. Pessoa levantou a mão e fez-lhe um sinal esotérico. Coelho Pacheco fez-lhe também um sinal esotérico e o táxi tomou a primeira rua à direita.

In «Os três últimos dias de Fernando Pessoa. Um delírio», de Antonio Tabucchi (com tradução de Maria da Piedade Ferreira), Quetzal Editores, Lisboa, Fevereiro de 1999 (4.ª edição).

[Mas ele conhecia as palavras obscuras que davam nome ao que se aproximava], excerto de «A morte em Veneza», de Thomas Mann


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Nessa mesma noite teve um sonho terrível – mas talvez não se possa designar como um sonho uma experiência física e espiritual, de facto ocorrida durante um sono profundo e com completa autonomia e presença dos sentidos, mas sem que ele se visse como um elemento extrínseco e vagueante dos acontecimentos no espaço, que na verdade tomavam como arena a sua própria alma e se impunham vindos de fora, derrubando despoticamente a sua resistência – uma profunda resistência do espírito – atravessando-o, deixando para trás os despojos devastados e aniquilados da sua existência, da cultura da sua vida.
Começou por ter medo, medo e prazer e uma curiosidade pelo que iria acontecer. Era noite e os seus sentidos estavam alerta; pois de longe aproximava-se um tumulto, um estrondo, um rumor indistinto; gritos, cânticos e trovões abafados, uivos estridentes de júbilo e um bramido muito preciso com um u arrastado – e todos eram penetrados e dominados pela melodia de uma flauta perversamente insistente que lhe enfeitiçava as entranhas. Mas ele conhecia as palavras obscuras que davam nome ao que se aproximava: «O deus estrangeiro!» Descerrou-se a cortina ardente de fumo: reconheceu então montanhas semelhantes às que rodeavam a sua casa de Verão. E sob uma luz rasgada, por entre florestas e troncos e penhascos cobertos de musgo, desmoronaram-se, caíram em remoinho homens, mulheres e animais, uma multidão enraivecida – e as encostas foram inundadas com corpos, chamas, tumulto e uma dança em roda vertiginosa. Tropeçando nas peles de animais que lhes pendiam dos cintos, as mulheres agitavam pandeiretas entre gemidos sobre as cabeças lançadas para trás, brandiam tochas e punhais nus, traziam serpentes sibilantes enroladas no ventre, agarravam entre gritos o peito com as duas mãos. Homens com chifres, os corpos peludos tapados por peles, baixavam as nucas e erguiam os braços e as coxas, faziam ressoar pratos de bronze, batiam timbales furiosos, enquanto rapazes imberbes picavam bodes com ramos engrinaldados, agarrando-os pelos cornos e deixando-se arrastar exultantes pelos seus coices. E os entusiasmados repetiam o chamamento de consoantes suaves com um u final arrastado, doce e selvagem ao mesmo tempo, um som nunca antes ouvido: – mas aqui ressoava ele, lançado ao ar como o bramido de um veado, e era ali ecoado por muitas vozes; em triunfo devastador, espicaçando todos à dança, ao frémito dos corpos, não se calando nunca. Mas o som grave, sedutor, da flauta tudo penetrava e dominava. Não o seduzia a ele também, apesar da sua distância, chamando-o, desavergonhado e premente, para o festim, para o excesso do sacrifício maior? Grande era a sua abominação, grande o medo, ardente a vontade de se proteger do deus estranho e inimigo do espírito digno e contido. Mas o clamor crescia, os uivos replicados pelo eco das montanhas ensurdeciam, intumesciam em demência arrebatadora. A sua consciência era invadida por odores; o cheiro ácido dos bodes, o cheiro dos corpos arfantes, um hálito como o de águas salobras, e um outro ainda, familiar: a feridas e a doença. O seu coração vibrava com os batimentos dos timbales, o seu cérebro gravitava, foi acometido de ira, desvairamento, aturdido pela volúpia, e a sua alma ansiava juntar-se ao cortejo do deus. O símbolo de madeira, obsceno, enorme, foi descoberto e elevado: e todos bramaram, desenfreados, a invocação. Com espuma a correr dos lábios, vociferavam, provocavam-se com gestos lascivos e mãos ávidas, enterravam os punhais na carne e lambiam o sangue dos membros mutilados. Mas no seu sonho estava já com eles, estava neles, um outro súbdito do deus estrangeiro. E estava neles também quando se atiraram aos animais, os rasgaram, os dilaceraram, e quando, sobre o chão musgoso, se sacrificaram ao deus em coito desenfreado. E a sua alma provou a volúpia e o delírio da queda.

In «A morte em Veneza», de Thomas Mann (tradução de Isabel Castro Silva e revisão técnica de Helder Guégués), Colecção «Ficções» (n.º 21), Relógio D’Água Editores, Lisboa, Junho de 2004 (1.ª edição).

[Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa], excerto de «A morte em Veneza», de Thomas Mann

Thomas Mann
Céu, terra e mar jaziam ainda numa palidez crepuscular, vítrea, imaterial; uma estrela perdida nadava na ausência de ser. Mas chegou um sopro de lugares longínquos, uma nova alada, e dizia que Eos se levantara do leito do esposo, e veio então o primeiro e doce enrubescer das linhas mais distantes do mar e do céu com que a criação se anuncia aos sentidos. A deusa aproximava-se, ela que raptara Clito e Céfalo e gozava agora o amor do belo Oríon, desafiando a inveja dos deuses no Olimpo. Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa, um brilho e florescer de graça indizível, nuvens infantis, banhadas de luz e transparentes, flutuavam no ar azulado e rosa como pequenos amoretti, caía púrpura sobre o mar e era espalhada pelas ondas, lanças de ouro rasgavam o ar à altura do céu, o brilho tornou-se fogo, em silêncio, com violência divina desmedida, brilho e ardor e labaredas voluteavam, e com cascos impacientes os corcéis sagrados de Apolo levantaram da esfera da Terra. Iluminado pelo esplendor do deus, o homem em vigília solitária fechou os olhos e deixou que as suas pálpebras fossem beijadas pela glória. Com um sorriso confuso, perplexo, reconheceu sentimentos passados, tormentos preciosos e prematuros do coração, que haviam perecido no ofício rígido da sua vida e que agora regressavam surpreendentemente transfigurados. Ansiava, sonhava, os seus lábios formaram lentamente um nome, e sorrindo sempre, a face virada para a frente, as mãos cruzadas no colo, adormeceu novamente na cadeira.

In «A morte em Veneza», de Thomas Mann (tradução de Isabel Castro Silva e revisão técnica de Helder Guégués), Colecção «Ficções» (n.º 21), Relógio D’Água Editores, Lisboa, Junho de 2004 (1.ª edição).