quinta-feira, 14 de agosto de 2014

[Náufragos num mar de abdicações], registo diarístico de Miguel Torga

Imagem encontrada em http://www.sol.pt

14 de Julho de 1953 – Na morte civil em que certos indivíduos vivem aqui, só mesmo uma contínua crispação interior os pode salvar. Náufragos num mar de abdicações, que remédio senão esbracejar por dentro, fazer movimentos mentais contra as ondas, e sobreviver assim em abstracto!

In «Diário (7.º volume)», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Abril de 1983 (3.ª edição, revista).

terça-feira, 12 de agosto de 2014

«Significação positiva» para Miguel Torga: «testemunhar passo a passo o que foi a crucificação espiritual dum homem insubmisso»



Coimbra, 5 de Junho de 1953 – Acabada a publicação de cada volume de Diário, vem-me um tal nojo por estas notas, que fico vários dias incapacitado de as escrever. Porque são depoimentos à queima-roupa, sem nenhuma perspectiva, reacções directas, em bruto, parecem-me depois pedradas irresponsáveis às vidraças do tempo. Pode salvá-las, evidentemente, a própria sinceridade que há nas atitudes irreflectidas, apaixonadas, de afogadilho, que, por isso mesmo, são borrifadas habitualmente pela anilina simpática do perdão. Mas a verdadeira literatura é feita a posteriori. Um romance cuja acção se faça passar nos séculos transactos beneficia de toda a experiência do actual. O autor que descreve a adolescência, fá-lo com as manhas do adulto. Ora um diário que tenha um mínimo de honradez, e é o caso presente, apanha a vida no salto do berço, nua e desprevenida. E eu sinto-me, ao lê-lo, como um parolo em coiro nas inspecções. Pessoalmente, apenas lhe encontro uma significação positiva: testemunhar passo a passo o que foi a crucificação espiritual dum homem insubmisso, que nem no comportamento íntimo, nem no público, se rendeu a uma época incapaz de compreender ou tolerar a mais inofensiva opinião tresmalhada, e que se esforça por esmagar a liberdade do pensamento dentro das próprias consciências, para que os cidadãos, à semelhança dos servidores dos haréns, preventivamente castrados, não possam conhecer sequer assomos da virilidade. Época que toda a minha fisiologia repele, e que me leva a estes desabafos de revoltado, a que, apesar de tudo, acabo por dar continuidade. Ficarão no meu caminho como votos de sobrevivência, imposições quotidianas feitas ao poeta pelo instinto de conservação.

In «Diário (7.º volume)», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Abril de 1983 (3.ª edição, revista).

A ESTRANHA VIDA DAS PALAVRAS

Fernando Miguel Bernardes
AS HARPAS DE UM PAÍS TRISTE

O FIO DAS HARPAS
                           DE FERNANDO MIGUEL BERNARDES

Há uma ressonância, uma monódia, um polifónico deslumbre, um fundo rumor de vozes que nos vem da mais remota herança da palavra poética, de um modo de construção verbal, de uma sintáctica forma de construção frásica sem tempo nem lugar; poesia que é, no seu modo de se expor, de uma extensa, modelar modernidade, mas radicando no corpo da nossa melhor tradição lírica, a que neste magnífico livro, O Fio das Harpas, de Fernando Miguel Bernardes, nos é dado ler. Uma poética construída fio a fio, palavra a palavra, com extrema candura, sem abstraccionismos metafóricos a armar ao modernismo de retrós velho, antes a recuperar uma fala, um ritmo, uma paisagem fónica de ancestrais vibratos, de modelações consonantes. Uma poética de entrega, de circulares arrebatamentos, também de denúncia certeira e clara. Essencial no que nela habita de entrega e recusa, de respiração com o corpo todo exposto, corajosa e límpida: Se eu tivesse um chicote / chicote de fios de aço / eu não sei o que faria / – mas não faria o que faço // Certos homens que eu conheço / sem alma e sem vergonha / veja você suponha: / se eu tivesse um chicote... [...] homem que viva do homem / decerto não haveria... / se eu tivesse um chicote / eu nem sei o que faria.
O Fio das Harpas, de Fernando Miguel Bernardes, publicado em 2009, reúne grande parte do acervo poético do autor de Escrito na Cela, que os esbirros do fascismo «confiscaram», em buscas e apreensões diversas. Mesmo que historicamente datados (grande parte dos textos aqui publicados situam-se entre 1951 e 1974) estes poemas de Miguel Bernardes não perderam o fulgor, a seiva, o fundo clamor que levou à sua criação, a essa urgência de dizer que se está vivo, que, apesar das grades e dos medos, Venci um dia / outro me dói: / é isto a vida / de quem a pensa. São, ainda, sobretudo hoje e aqui, poemas para o nosso tempo, dado que dizem da injustiça, de um país, de novo, a entristecer, país, de novo, a deixar abandonadas vilas / não / por caravelas; país a partir para longes mundos, não já clandestinamente / em camiões / de ovelhas, mas levando no bornal, como no passado, um futuro incerto, acossado pela pobreza, pelo desemprego, pela desesperança.
Fernando Miguel Bernardes entende a literatura, tanto nos versos da resistência, como nas estórias e poemas para os mais novos, como uma forma de actuação cívica, de reflexão sobre um tempo de estupor, de ignomínia e injustiça. De denúncia. Voz erguida para dizer o que vem à superfície da fala, o que não pode, por atitude perante a vida e os outros, calar. Porque calar é morrer, e o poeta está vivo, quer-se vivo e atento e resistente: Várias vezes me roubaram / flores que trazia no peito. / Quem me as roubou não quer ver / que me renascem a eito...
Fernando Miguel Bernardes, poeta de um tempo que atravessa o nosso tempo, este tempo, cujas palavras andam por aí cantadas nas vozes mais claras da nossa memória colectiva, vozes de um tempo em que dávamos o peito às balas; vozes ainda de um tempo levantado da nossa alegria maior: Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, José Jorge Letria, José Niza.
Cantas / enquanto te regam as raízes com vinagre?, verso de Egito Gonçalves que o autor escolheu para epígrafe deste livro singular. Claro que cantamos, cantaremos sempre, mesmo acompanhados pelas harpas de um país, de novo, triste. Cantamos, com os teus versos por medida, Fernando (os teus, e de outros companheiros que, como tu, disseram que é preciso estar vivo e cantar) porque daquele que trabalha serão / a casa / o pão / o fruto e a semente / desde que o Sol que nós puxámos / não se perca entre os dedos.

Domingos Lobo, in «Esteiro»
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http://mardapalavra.blogspot.pt/2010/02/o-fio-das-harpas-poesia-de-fernando.html