terça-feira, 30 de dezembro de 2014

[Medi-la-iam, num despique, as restantes bonequeiras, invejosas da sabença que lhe suspeitavam, dos romances que fantasiava], regista Mário Cláudio sobre Rosa Ramalho

Rosa Ramalha, louceira de São Martinho de Galegos 
(Fotografia do Arquivo de Diário de Notícias)
Fita 12, Lado B. Desfizera-se do encargo dos moinhos, estabelecera-se com oficina de louceira, em definitivo e orgulhosamente. Calculava a densidade que competiria a essa menina-dos-pombos, acabada de reentrar dos matagais, por onde correra no encalço das mariposas. Chamava-se Rosa, como ela, era filha de rei, sentava-se nos degraus do trono de seu pai, a atender os príncipes todos, que afluíam, seduzidos por sua grande boniteza, a tentar fazê-la sorrir, com as artes que exibiam. Obtinha uma cachopa arrebicada, a apertar suas aves fofas, de véstia larga e comprida, cuja roda apanhava, cautelosa e grácil, de cada vez que pulava sobre algum barranco. Medi-la-iam, num despique, as restantes bonequeiras, invejosas da sabença que lhe suspeitavam, dos romances que fantasiava, em que intervinham seus bonifrates, com esse inegável condão de electrizar os interessados. Era a menina-dos-pombos, logo se via, uma donzela, a quem se facultava, no palacete onde residia, ao lado de serviçais que, a toda a hora, a penteavam e despenteavam, escolher as iguarias de sua ceia. Passeava-se, depois disso, por terraços de mosaico e caramanchões, a tripular, pela rédea, uma sardanisca, a quem ensinara a fala dos homens. E, quando jornadeava, ei-la que utilizava um carroção disforme, de reposteiros de couro vermelho, e lá iam os músicos, atrás de tudo, de azul e de branco, a tocar atabales. Agora, no entanto, contornava-lhe o busto, ao qual colaria o açafate daquele par de animais. E estava quase completa a menina-dos-pombos, um pouco arrogante, é claro, em sua fidalguia, tentada a forçar os outros ao que quer que lhe aprouvesse, com uma só interjeição, uma só, da boquita risonha. Com ela filosofava o sol, enfim, que apenas se retirava para ir contar, ao Imperador da China, com quem pernoitava, as maravilhas todas que surpreendera, de terracota, em São Martinho de Galegos, Portugal.

In «Rosa», de Mário Cláudio, colecção Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), Lisboa, Novembro de 1988 (1.ª edição).

[Muito cedo, com a mãe e algumas, enchia o barco que, de Manhente, as deporia, mais à louça, na festa de Vilar], escreve Mário Cláudio sobre Rosa Ramalho

Mário Cláudio - Fotografia encontrada em http://www.cm-viladoconde.pt/
Fita 1, Lado A. Muito cedo, com a mãe e algumas, enchia o barco que, de Manhente, as deporia, mais à louça, na festa de Vilar, infusas e cântaros, sobretudo, moringues e chocolateiras, que haviam deitado no casco, com os xailes a resguardá-los de chocar. Estava estremunhada, ainda, pois que era a primeira vez que a arregimentavam, passara a noite, sem pregar olho, a imaginar a travessia. E agradava-lhe a barqueira, mais velha que nova, de rosto triangular e olhos sonsos, um contorno de boca de severidade e ternura. Chamava-se Rosa, tal qual ela, encaravam-na como referência mitológica quando, erecta, estribada nas tábuas do botezito, remava com um ritmo certo, que coisa nenhuma era capaz de perturbar. E zarpavam, rumo à outra margem, enquanto um noitibó se manifestava, na ramagem dos castanheiros a que as videiras se apegavam. Depois, perante o dia adivinhado, imobilizavam-se todas, a meio da viagem. E era a roda da vida, de repente, que passava, e havia só que escutar o que a voz da barqueira lhes dizia. «A barca daqui», começava ela, «todas as noites desaparecia. Certo dia o barqueiro, para descobrir a causa daquele encantamento, meteu-se no porão, e pôs-se de atalaia. “Rema, rema”, ouviu ele, que ordenavam, de cima. Mexeram um cadeado e, nisto, compreendeu que estava em domínio das feiticeiras. “Cheira-me aqui a fogo vivo”, declarou uma delas. “Deixa lá ir quem vai”, tornou outra. Andaram, andaram, até que ficou queda a barca e o barulho acabou. À cautela espreitou o barqueiro, do porão, a ver adonde estava, e cortou uma cana, e voltou à barca, e fez-se a caminho de Vilar. Só quando aqui chegou é que, dando conta de que era a cana da Índia, percebeu a que longes é que tinha viajado». E continuavam, sem se mover, a igual distância de ambos os lados. E observava a rapariga aquelas pás suspensas, gotejantes, a narradora que as sustentava, numa turva expectativa. Tendo descalçado os socos, então, que ficaram jazentes, um no outro massajava os pés, a enregelar nos coturnos de lã.

In «Rosa», de Mário Cláudio, colecção Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), Lisboa, Novembro de 1988 (1.ª edição).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

[Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar], recorda Manuel Alegre

Alfredo Quádrio Raposo, tendo entrado na Emissora Nacional em 1935, 
foi um dos relatadores de futebol mais conceituados no seu tempo
(Foto encontrada em http://industrias-culturais.blogspot.pt/)

[] Perguntei ao Joaquim Marceneiro. Ele abanou a cabeça e disse que tinha sido sempre assim.
Perguntei ao Vítor Sapateiro. Ele estava a cortar sola, olhou-me duramente e respondeu: Estudar não é para os pobres. E havia azedume na sua voz, como se estivesse zangado comigo. Tive a impressão de que me considerava culpado. Fiquei magoado com o tom de Vítor Sapateiro e durante muito tempo não voltei à oficina dele, nem sequer para comentar, à segunda-feira, os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.
Rostos, vozes, andam por aí pelo ar, não se podem ter sumido, devem estar gravados algures, a prova é que estou a vê-los e a ouvi-las, são sete e meia da tarde de um domingo chuvoso na casa da Rua Bartolomeu Dias, mais conhecida pela Rua da Cheia, em Alma, alguém chama Duarte e só agora reparo que estão a chamar por mim, este que conta, eu próprio, Duarte de Faria.

In «Alma», romance de Manuel Alegre, colecção «Biblioteca de Bolso Dom Quixote – Série Literatura BBL» (n.º 23), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2002 (8.ª edição – 2.ª edição de bolso).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

[É a pele da terra, dizia o Lince, colocando as grandes fatias de musgo na canastra], conta Manuel Alegre

Fotografia encontrada em http://fora-da-estante.blogspot.pt/

É a pele da terra, dizia o Lince, colocando as grandes fatias de musgo na canastra. O presépio de minha avó tinha fama. Construía-o junto à parede do fundo da sala de jantar, utilizando caixas de papelão e espelhos com que fazia as montanhas e os lagos da Judeia. Cobria os montes com flocos de neve, punha a cabana em Belém, com o Menino nas palhinhas, rodeado pela Mãe, por José, pelos pastores, pelo jumento e pela vaca. Depois as luzes, de várias cores. E uma estrela amarela que apontava para o caminho aos reis do Oriente.
Também armava a árvore de Natal, com um pinheiro que o Lince cortava em Romarim. Mas eu preferia o presépio. Sempre achei que o da minha avó era o mais bonito de Alma, mais ainda do que o da Igreja. Trazia os meus amigos para eles verem. E toda a gente admirava, até Aurélio Silveira e Florêncio Tavares, republicanos, laicos e anticlericais, ainda que considerassem Jesus Cristo como um correligionário.
Então a casa ficava diferente. Talvez por causa do cheiro do musgo, das luzes a acender e a apagar na árvore e no presépio, talvez porque era Natal e havia um não sei quê no ar, tudo mudava, a casa, as pessoas, o ritmo.
Na cozinha era um frenesim. Não só pela actividade de minha avó, da minha mãe e das criadas, que se afadigavam a fazer filhós, rabanadas, bolo-rei, leite-creme, mas pelo constante ir e vir de Adelaide, Etelvininha, Tia Matilde, primas afastadas, vizinhas. As mulheres dominavam a cozinha, dominavam a casa, dominavam tudo.
Meu pai começava a ficar melancólico. Eu perguntava porque é que ele entristecia sempre que o Natal se aproximava. A minha mãe respondia-me que eram saudades. Eu creio que era feitio. Talvez fosse até um certo narcisismo. Lourenço de Faria, meu pai, comprazia-se naquela forma de celebrar só para si uma íntima alegria triste.
Naquele Natal éramos muitos à mesa. Claro que o narrador poderia organizá-los conforme entendesse. Mas eu estou a vê-los ainda, a minha margem de manobra é estreita. Numa das cabeceiras, a minha avó Beatriz, viúva revolucionária e republicana, com a sua jóia de brilhantes na gargantilha preta; na outra o Primo Frederico, monárquico integralista, sempre que se dizia o nome do rei levantava-se e fazia uma vénia apesar dos seus cento e vinte e tal quilos. Resfolegava um pouco quando comia, o que ma fazia impressão. Gostava muito de papas de abóbora e tinha de pôr um guardanapo ao pescoço para não se sujar. Tia Hermengarda, com os seus olhos maliciosos sempre a sorrir por detrás das grossas lentes, Tia Matilde, a cabeça inclinada ora para um lado ora para outro, Aurélio Silveira, que bebia de um trago o copo de vinho sempre que acabava de comer um prato, meu pai agora um pouco menos melancólico, minha mãe, que trazia ao peito o alfinete com as armas do meu pai, minha irmã Maria, de tranças e sobrancelhas muito carregadas, o vaivém das criadas vestidas de preto com gola e punhos de renda brancos, imagens, andam aí pelo ar, guardadas na memória, às vezes no esquecimento, suspensas, autónomas.
Os murmúrios, as cumplicidades, as lembranças.
Já a avó Beatriz conta daquele Natal, há muito tempo, quando o avô a levou de manhã à cocheira para lhe oferecer um cavalo branco. Já Tia Hermengarda fala de minha avó Leonor e do seu palácio no Grande Canal, em Veneza. Já o Primo Frederico, que pela terceira vez repete o bacalhau, recorda a estadia do grande Gallito em casa de meu avô Júlio de Faria, em Aveiro.
Vejo ainda a lenha a arder no fogão, as luzes do presépio e do pinheiro, as velas da mesa, as lâmpadas do candeeiro suspenso irradiando por toda a sala. Oiço ainda o rumor das conversas, o tinir dos talheres de prata, o som do vinho a cair nos copos, o ruído dos pratos na cozinha. Como recuperar o crepitar da lenha, a luz, as vozes?
Mas eis que dou corda ao His Master Voice e coloco no prato um tango argentino, Plegária, se a memória não me falha. Já o meu pai se levanta e começa a dançar sozinho. Parece o Rudolfo Valentino, diz a Tia Hermengarda, que tinha um fraco pelo cinema e seus galãs.
Mas já eu folheio os álbuns desbotados cheios de mortos em festas luminosas, tios e tias, primos e primas de smoking e vestidos de noite. A música parece vir daqueles bailes e daquelas festas, enquanto o meu pai continua a dançar sozinho, ou talvez não. Quem eu vejo são os mortos e as mortas de smoking e vestidos de noite, são eles que dançam nos gestos e passos do meu pai na sala aquecida pelo lume do fogão, as luzes, as conversas, o calor da consoada.
Por volta das onze partiremos para Vilar onde todos os natais, à meia-noite, na capela do Marquês, se ouve a missa do galo.
Mas eu já só penso no dia seguinte. Levantar-me-ei cedo, muito cedo, para espreitar o sapatinho junto do fogão da sala de jantar. E sei que no regresso de Vilar terei o fogão do meu quarto aceso e adormecerei ouvindo a lenha crepitar, aconchegado, quente, pensando talvez nos três reis magos que a essa hora já devem seguir a estrela colocada pela minha avó sobre a cabana do presépio onde Jesus acaba de nascer.

In «Alma», romance de Manuel Alegre, colecção «Biblioteca de Bolso Dom Quixote – Série Literatura BBL» (n.º 23), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2002 (8.ª edição – 2.ª edição de bolso).

A alma dos livros e a medida dos nossos sonhos... de Natal

Imagem encontrada em http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/

A editora Mar da Palavra deseja, a todos (leitores, autores, livreiros e demais colaboradores e amigos), um feliz Natal e um próspero (isto é mais do que utopia!...) Ano Novo. 
Na medida dos sonhos individuais e colectivos, queremos uma árvore cheia de luzes e de ideias para darmos alma aos muitos e diversos livros que acompanham a nossa VIDA.