sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

[Agora vou andar de eléctrico a toda a hora], excerto de «A Sombra de Mart», de Stig Dagerman

Stig Dagerman – foto encontrada em http://www.biografiasyvidas.com/
[…]
Não vês como sou vaidoso? Outra vez diante do espelho! São uns belos traços. Percebes, eu odiava os heróis. Tu fizeste com que eu os ame. E me ame a mim mesmo. Amar-me pelo que fiz. Sabes quando me apaixonei pela primeira vez. Foi aqui. Neste quarto. Quando descobri que podia fazer medo. Mas nessa altura apaixonei-me apenas de forma romântica. Não como agora: com verdadeira paixão. E sabes quando me apaixonei com verdadeira paixão por mim mesmo? Foi mais tarde esta noite. Foi no momento de uma outra descoberta. A descoberta de que era capaz de matar, mãe. Pensa nisto, ser assim tão forte. Consegues compreendê-lo? Consegues compreender que quem é assim tão forte tem o dever de se amar a si mesmo? A Teresa? Não era do amor dela que eu precisava. Foi um mal-entendido. Eu apenas acreditava que ela talvez pudesse libertar-me do meu ódio por mim mesmo. Mas também isso era algo que eu devia fazer sozinho. Mas se tu soubesses os mal-entendidos que eu tive sobre estas questões. Eu era fraco e pensava: Não é bom falar dos heróis, pensava eu. Da mesma maneira que não se fala do carrasco não se deve falar do herói. Nem antes. Nem depois. Quanto muito no decurso da acção. Mas agora percebo: De que mais poderíamos falar? Que outra experiência na vida de um ser humano poderia valer mais do que o ter matado pela primeira vez? Diz-me! Pensa nisso. Durante uns tempos não conseguia andar de eléctrico. Logo a seguir à guerra. Uma manhã estava nas traseiras do eléctrico. Não se passou nada de especial. Estava entalado no meio só de homens. Alguns tinham medalhas. Outros tinham apenas participado na guerra. Então senti um cheiro estranho. Cada vez mais intenso. E de repente atingiu-me como um raio: Gabriel, todos estes homens à tua volta mataram um ser humano! Compreendes que saltei do eléctrico, de tal maneira que quase me matei. Agora vou andar de eléctrico a toda a hora. E sem sentir o cheiro do sangue. Podes ter a certeza disso. Mas sabes o que vou fazer primeiro?

Gabriel vai à porta.

Sim, vou dizer-te. Vou descer à rua. E atravessar a praça. E a seguir? A seguir vou regressar, claro está. A casa! E ao caminhar direi a mim mesmo: É a primeira vez que atravesso a praça sem que tu vás à janela para me vigiar. Percebes o que isso significa? Espero que não chova. Boa noite, mãe.
[…]

In «A Sombra de Mart», drama em três actos (1948) de Stig Dagerman (tradução de Luís Assis e Melanie Mederlind; e prefácio de Stig Dagerman), Edições Cotovia, Lisboa, 1999 (1.ª edição).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Apresentação pública do livro «Pense no global e actue no local - Reflexos da Política de Saúde», de João Nunes Rodrigues, na sede do SMZC

«Diário de Coimbra», edição de 17.12.2015

Este livro surge do desafio de compilar e rever os vários artigos de opinião, sobre Política de Saúde, publicados nos últimos três anos no Diário de Coimbra, na Revista da Ordem dos Médicos, no boletim informativo do SMZC (Esculápio) e no sítio MGFamiliar.Net, acreditando que estão ainda muito actuais e com profunda ligação aos cuidados de saúde primários (CSP), às unidades de saúde familiar, ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) e à saga que os portugueses vivem hoje.
Esta obra destina-se a toda a gente: profissionais de saúde e cidadãos anónimos. E não é uma mera apresentação de diagnóstico sobre a Política de Saúde dos últimos três anos. É, sim, um manifesto, pela necessidade de se apostar na boa governação de um SNS público, baseado em CSP fortes e abrangentes, considerando que a totalidade da população deve ter à sua disposição uma equipa de saúde familiar de proximidade.

(João Nunes Rodrigues, médico de família na USF Serra da Lousã e presidente da USF-AN)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

AS ARANHAS, poema de Lasse Söderberg

Imagem encontrada em http://cienciaseviver.blogspot.pt/

Os meus dias vagarosos
partilho-os com as aranhas.
A sua linearidade cintila,
são os cartógrafos do ar.
        
Oh, se também o meu caminho fosse
como o da aranha, um fio
segregado onde me pendurasse.
Uma rede argêntea de onde vigiasse!

Quando cai a escuridão
deixo então de a ver,
mas sei que existe: imagens de estrelas
guiando o pensamento desconhecido.

E por um momento
julgo, assim, descansar
nas mãos de um deus sistemático,
uma ponta de vazio.

In «Coração de papel», de Lasse Söderberg (seminário de tradução colectiva Poetas em Mateus, Abril-Maio de 1998: Ana Luísa Amaral, Egito Gonçalves, Fernando Amaro, Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo Vilas-Boas, Malin Löfgren, Manuel António Pina, Miguel Serras Pereira, Pedro Mexia, Rosa Alice Branco; com revisão de Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas; e nota biobibliográfica de Gonçalo Vilas-Boas), Quetzal Editores, Lisboa, 2001 (1.ª edição). 

A IMAGEM, poema de Lasse Söderberg

Imagem encontrada em http://blogs.universal.org/ 

Aquele que quer recordar e consigo traz a escuridão tem de estar à beira de si mesmo como se estivesse à beira de um poço,

é aí que tem de estar, debruçado sobre o poço, com uma pedra na mão,
interrogando-se sobre o que esconde o poço, a sua profundidade, e até onde a luz penetra,

tem de, para calcular a escuridão do poço, atirar a pedra e vê-la lentamente cair, pensativo, como que suspenso no vazio até a perder de vista

e continua à espera, à beira de si mesmo, bem debruçado até a
pedra atingir a superfície ainda imperceptível

e aquele que quer recorder vê subitamente brilhar a profundidade, vê-a a atrair a luz, ganhar vida como quando uma pálpebra se ergue. Então ele é reconhecido pelo olhar do fundo.
Nasceu uma imagem.

In «Coração de papel», de Lasse Söderberg (seminário de tradução colectiva Poetas em Mateus, Abril-Maio de 1998: Ana Luísa Amaral, Egito Gonçalves, Fernando Amaro, Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo Vilas-Boas, Malin Löfgren, Manuel António Pina, Miguel Serras Pereira, Pedro Mexia, Rosa Alice Branco; com revisão de Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas; e nota biobibliográfica de Gonçalo Vilas-Boas), Quetzal Editores, Lisboa, 2001 (1.ª edição). 

PEQUENAS BRINCADEIRAS ANIMAIS, poema de Lasse Söderberg

Lasse Söderberg – Fotografia encontrada em http://www.sydsvenskan.se/
1
Um mar de roupa macia invade o quarto de brinquedos. São toalhas de mesa aguardando flamejantes dias de festa, roupas de cama rasgadas em honra da madrugada, mantos caldos que escondem garras de ledo. Também as rosas são de pano, rosas-malva do cadafalso como ligaduras apertadas, como pétalas secas cor de raiva. Ouve-se o ofegar e o som de chicotadas! E no meio da confusa ondulação, sob a bainha descosida de um vestido aparece à vista uma botina vermelha. A brincadeira começou.


2
Eu era capaz de estrangular os cães de colo e transformá-los em borlas de cortinados! Lá vêm eles com o seu ar submisso, mas eu sei que são mal-intencionados, esses pequenos proprietários arrogantes de pêlo azulado, bonitos laçarotes na cabeça, ponta da língua rosada. Só sabem sentar-se nas patas traseiras e pedinchar. Não lhes posso perdoar a insolência e não suporto que se tenham apropriado do afecto das meninas. Não, hão-de ser borlas! Berloques! Pompons!


3
Tudo o que não é céu é pele. Tudo o que não é pele é vertigem. Os caracóis do cabelo são recordações deixadas pelos anjos. A sua passagem pela terra. Alice e as companheiras de brincadeiras apinham-se em torno da cama desfeita, afogueadas. Eu sei: elas domesticam o meu fantasma.

In «Coração de papel», de Lasse Söderberg (seminário de tradução colectiva Poetas em Mateus, Abril-Maio de 1998: Ana Luísa Amaral, Egito Gonçalves, Fernando Amaro, Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo Vilas-Boas, Malin Löfgren, Manuel António Pina, Miguel Serras Pereira, Pedro Mexia, Rosa Alice Branco; com revisão de Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas; e nota biobibliográfica de Gonçalo Vilas-Boas), Quetzal Editores, Lisboa, 2001 (1.ª edição). 

domingo, 13 de dezembro de 2015

QUERES SABER EM QUE CONSISTE A MINHA SEGURANÇA? _ excerto de «Cenas da vida conjugal», de Ingmar Bergman

Imagem encontrada em http://pulse.rs/starac-koji-je-odlazio-sam-ingmar-bergman/
[…]
MARIANNE _ Moras fora da cidade?

JOHAN _ Moramos num caixote de betão. Num décimo andar. Com vista para outro caixote. Na entrada, vegetam jovens de treze anos cheios de cerveja, que se divertem atirando ao chão os velhinhos que passam. A casa está a abrir brechas por todos os lados. Pelas juntas das janelas, o vento sopra de tal maneira que até as cortinas balançam. Há pouco tempo, andei duas semanas a ir buscar água a um chafariz. Nenhuma das casas de banho estava a funcionar. As pessoas evitam o metro depois das oito da noite. No meio de tudo isto, existe uma coisa que um arquitecto louco baptizou de piazza. Não é que eu me esteja a lamentar. Acho até interessante. Mas a Paula gosta de lá viver. Diz que se enquadra com a visão do mundo. E que se sente segura ali. Tanto me faz onde vivo. É tudo temporário. Uma pessoa tem de encontrar a segurança dentro de si própria.

MARIANNE _ E encontraste?

JOHAN _ Durante o tempo em que vivi aqui, não a encontrei. Nessa altura, tudo o que nos rodeava era demasiado importante. E a nossa segurança dependia de um conjunto de ritos.

MARIANNE _ Não percebo o que queres dizer.

JOHAN _ Toda a segurança estava ligada àquilo que existia fora de nós. Os nossos bens, a nossa casa de campo, o apartamento, os amigos, o dinheiro, a comida, os nossos pais. Queres saber em que consiste a minha segurança? Vou dizer-te. Eu penso que a solidão é absoluta. É uma ilusão, uma pessoa convencer-se de outra coisa. Toma consciência disso e tenta ser coerente. Não esperes nada a não ser chatices. Se algo de agradável acontecer, tanto melhor. Não acredites nunca que poderás abolir a solidão. Ela é absoluta. Tu podes imaginar uma comunhão em diferentes planos, mas é apenas fazer poesia sobre religião, política, amor, arte, etc. A solidão não deixará de ser total. O maior engano é quando acreditas na possibilidade de uma espécie de comunhão. Toma consciência de que é uma ilusão. Assim não ficarás depois dececionada quando tudo regressar à normalidade. Temos de viver conscientes de que a solidão é absoluta. Então uma pessoa deixa de lamentar-se, deixa de afligir-se. É aí que se começa de facto a sentir segurança e se aprende a aceitar a falta de sentido da vida.

MARIANNE _ Gostava de estar certa como tu.

JOHAN _ Palavras, palavras, só palavras. A gente usa as palavras para exorcizar o grande vazio. Às vezes, surpreende-me a incrível confiança política da Paula. É uma confiança autêntica e profunda. Uma confiança que a faz trabalhar continuamente dentro do seu grupo. A sua convicção dá-lhe respostas para as perguntas e enche-lhe o vazio. Gostava de viver como ela. Digo isso sinceramente e sem ironia. Por que é que estás a sorrir assim ironicamente? Achas que só digo balelas? De facto, eu também acho, mas não faz mal.

MARIANNE _ Não sei do que estás a falar. Parece-me tudo tão teórico. Não sei porquê. Talvez porque nunca falo de coisas tão profundas. Creio que me movimento num outro plano.
[…]

In «Cenas da vida conjugal», de Ingmar Bergman (peça de teatro traduzida por Solveig Nordlund, com prefácio do autor), Bicho-do-Mato (BdM)/Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa, 2012 (1.ª edição).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

«SOBRE O GELO», capítulo do romance «O tesouro», de Selma Lagerlöf

Selma Lagerlöf – fotografia encontrada em http://ours-mag.com/

Enquanto Sir Archie se afastava caminhando sobre o gelo, manteve sempre Elsalill segura com o braço.
Sir Filip e Sir Reginald iam ao lado dele. Queriam contar-lhe como tinham sabido da emboscada e como tinham conseguido levar a pesada arca do tesouro até à galeaça e juntado todos os compatriotas, mas Sir Archie não lhes dava ouvidos. Parecia caminhar e conversar com aquela que carregava no braço.
– Quem é que levas contigo? – perguntou Sir Reginald.
– É Elsalill  – respondeu Sir Archie. – Vou levá-la comigo para a Escócia. Não quero abandoná-la aqui. Aqui ela nunca seria mais do que uma pobre peixeira.
– Sim, isso é muito provável – concordou Sir Reginald.
– Aqui, não lhe dariam senão roupas de lã grosseira – continuous Sir Archie, – e uma cama estreita de tábuas duras para dormir. Mas eu vou deitá-la em almofadas fofíssimas e mandar construir o seu lugar de repouso em mármore. Envolvê-la-ei nas peles mais caras e nos seus pés calçar-lhe-ei sapatos com fivelas de pedras preciosas.
– Destinas-lhe grandes honras – disse Sir Reginald.
– Não posso deixa-la ficar aqui – retorquiu Sir Archie, – pois quem é que daqui iria arranjar tempo para se lembrar desta pobre infeliz? Seria esquecido por todos dentro de poucos meses. Ninguém iria visita-la à sua morada, ninguém iria procurá-la na sua solidão. Mas, quando eu chegar a minha casa, mandar-lhe-ei construir uma bela habitação onde o seu nome será gravado em pedra dura para que ninguém o esqueça. Todos os dias irei eu mesmo visita-la, e tudo será organizado tão sumptuosamente, que virá gente de longe só para vê-la. Lá, haverá sempre luz, lampiões acesos de noite e de dia e ouvir-se-á o som da música e canções, como se de uma festa permanente se tratasse.
A tempestade precipitou-se violentamente contra eles enquanto caminhavam sobre o gelo e arrancou a capa de Elsalill, que esvoaçava solta, como um estandarte.
– Queres ajudar-me a segurar Elsalill, durante uns instantes – pediu Sir Archie, – enquanto lhe ajeito a capa em volta do corpo?
Sir Reginald recebeu Elsalill nos braços, mas ficou imediatamente tão horrorizados, que a deixou escorregar por entre as mãos, para o gelo.
– Eu não sabia que Elsalill estava morta! – disse ele.

In «O tesouro», romance de Selma Lagerlöf (tradução de Liliete Martins e revisão de Maria Aida Moura), colecção Gente Independente (n.º 4), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2010 (1.ª edição).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

«RIOS SEM DISCURSO», poema de João Cabral de Melo Neto, dedicado a Gabino Alejandro Carriedo

Rio Jaguaribe – https://upload.wikimedia.org

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

*
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

In «A educação pela pedra», de João Cabral de Melo Neto (posfácio de Carlos Mendes de Sousa), volume doze do Curso Breve de Literatura Brasileira (direcção de Abel Barros Baptista), Livros Cotovia, Lisboa, Abril de 2006 (1.ª edição).

«OS REINOS DO AMARELO», poema de João Cabral de Melo Neto

Imagem encontrada em http://blog.mfrural.com.br/

A terra lauta da Mata produz e exibe
um amarelo rico (se não o dos metais):
o amarelo do maracujá e os da manga,
o do oiti-da-praia, do caju e do cajá;
amarelo vegetal, alegre de sol livre,
beirando o estridente, de tão alegre,
e que o sol eleva de vegetal a mineral,
polindo-o, até um aceso metal de pele.
Só que fere a vista um amarelo outro,
e a fere embora baço (sol não o acende):
amarelo aquém do vegetal, e se animal,
de um animal cobre: pobre, podremente.


2

Só que fere a vista um amarelo outro:
se animal, de homem: de corpo humano;
de corpo e vida; de tudo o que segrega
(sarro ou suor, bile íntima ou ranho),
ou sofre (o amarelo de sentir triste,
de ser analfabeto, de existir aguado):
amarelo que no homem dali se adiciona
o que há em ser pântano, ser-se fardo.
Embora comum ali, esse amarelo humano
ainda dá na vista (mais pelo prodígio):
pelo que tardam a secar, e ao sol dali,
tais poças de amarelo, de escarro vivo.

In «A educação pela pedra», de João Cabral de Melo Neto (posfácio de Carlos Mendes de Sousa), volume doze do Curso Breve de Literatura Brasileira (direcção de Abel Barros Baptista), Livros Cotovia, Lisboa, Abril de 2006 (1.ª edição).

«OS VAZIOS DO HOMEM», poema de João Cabral de Melo Neto

 Fotografia de João Cabral de Melo Neto, encontrada em http://arte1.band.uol.com.br/

Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando os vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia, não qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.


2

Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou o vazio que inchou por estar vazio.

In «A educação pela pedra», de João Cabral de Melo Neto (posfácio de Carlos Mendes de Sousa), volume doze do Curso Breve de Literatura Brasileira (direcção de Abel Barros Baptista), Livros Cotovia, Lisboa, Abril de 2006 (1.ª edição).

«PARA A FEIRA DO LIVRO», poema de João Cabral de Melo Neto, dedicado a Ángel Crespo

Imagem encontrada em http://br.123rf.com/























Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvores que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que vento em folha de livro.
Todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania varrendo o podre a zero.

*
Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.

In «A educação pela pedra», de João Cabral de Melo Neto (posfácio de Carlos Mendes de Sousa), volume doze do Curso Breve de Literatura Brasileira (direcção de Abel Barros Baptista), Livros Cotovia, Lisboa, Abril de 2006 (1.ª edição).

«PROJECTO / SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN», poema de Eugénio de Andrade

Imagem encontrada em http://flickrhivemind.net/

O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto

In «Alentejo não tem sombra», de Eugénio de Andrade (Antologia da Poesia Moderna sobre o Alentejo, com um desenho de Armando Alves), colecção «Pequeno Formato» (n.º 3), Edições ASA, Porto, Outubro de 2001 (4.ª edição).

«SOROR MARIANA – BEJA / SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN», poema de Eugénio de Andrade

Fotografia de Gonçalo Correia, encontrada em http://migasdeespargos.blogspot.pt/

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.

In «Alentejo não tem sombra», de Eugénio de Andrade (Antologia da Poesia Moderna sobre o Alentejo, com um desenho de Armando Alves), colecção «Pequeno Formato» (n.º 3), Edições ASA, Porto, Outubro de 2001 (4.ª edição).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SÓ MAIS UMA COISA, por Luigi Pirandello

Imagem encontrada em http://www.brasil247.com/

Deixe-me dizer mais uma coisa, e depois chega.
Não quero ofendê-lo. A sua consciência, diz você. Não quer que seja posta em dúvida. Tinha-me esquecido, desculpe. Mas reconheço, reconheço que para si próprio, dentro de si, não é como eu, de fora, o vejo. Não por má vontade. Gostaria que estivesse ao menos convencido disso. Você conhece-se, sente-se, quer-se de um modo que não é o meu, mas o seu; e crê, uma vez mais, que o seu está certo e o meu errado. Será, não nego. Mas pode o seu modo ser o meu e vice-versa?
Cá estamos nós a voltar ao princípio!
Eu posso crer em tudo isso que me diz. Creio. Ofereço-lhe uma cadeira: sente-se; e tentemos pôr-nos de acordo.
Depois de uma boa horinha de conversa, entendemo-nos perfeitamente.
Amanhã aparece-me de mãos no rosto, a gritar:
– Mas, como? O que entendeu? Não me tinha dito assim e assim?
Assim e assim, perfeitamente. Mas o problema é que você, meu caro, nunca há-de saber, nem eu lhe poderei nunca comunicar, como se traduz em mim aquilo que você me diz. Não, você não falou turco. Usámos, eu e você, a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos, eu e você, de as palavras, em si, serem vazias? Vazias, meu caro. E você enche-as do seu sentido, ao dizer-mas; e eu, ao acolhê-las, encho-as inevitavelmente do meu sentido. Julgámos que nos tínhamos entendido; não nos entendemos de todo.
Oh, também esta é história velha, já se sabe. E eu não pretendo dizer nada de novo. Apenas volto a perguntar-lhe:
– Mas então porquê, santo Deus, continua a fazer como se isso não se soubesse? A falar-me de si, se sabe que para ser para mim o mesmo que é para si próprio, e eu para si o mesmo que sou para mim, seria preciso que eu, dentro de mim, lhe desse aquela mesma realidade que você dá a si próprio, e vice-versa; e isso não é possível?
Infelizmente, meu caro, por mais que você faça, dar-me-á sempre uma realidade à sua maneira; e não digo que não possa ser, talvez seja, mas de uma «minha maneira» que eu não sei nem nunca poderei saber, que só você saberá, pois me vê de fora; portanto, uma «minha maneira» para si, não uma «minha maneira» para mim.
Oxalá houvesse fora de nós, para si e para mim, oxalá houvesse uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, quero dizer, em si mesmas iguais e imutáveis. Não há. Há em mim e para mim uma realidade minha: aquela que eu me dou; uma realidade sua em si e para si: aquela que você se dá; as quais não serão nunca as mesmas, nem para si nem para mim.
E então?
Então, meu amigo, temos de nos consolar com isto: a minha não é mais verdadeira que a sua, e tanto a sua como a minha duram um momento.
Anda-lhe a cabeça à roda? Bom, bom… concluamos.

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).

LÁ FORA, AO AR LIVRE, excerto do romance «Um, ninguém e cem mil», de Luigi Pirandello

Imagem encontrada em http://www.deinostseeurlaub.de/
Não, vá lá, não tenha medo que eu lhe estrague os móveis, a paz, o amor da casa.
Ar! Ar! Deixemos a casa, deixemos a cidade. Não digo que se possa fiar muito em mim; mas, vá lá, não receie. Pode seguir-me até onde a rua desemboca no campo, junto àquelas casas.
Sim, rua; esta. Receia a sério que possa dizer-lhe que não? Rua, rua. Rua coberta de cascalho; e atenção às lascas. E aquilo são candeeiros. Venha com confiança.
Ah, aqueles montes azuis lá ao longe! Digo «azuis»; você também diz «azuis», não é verdade? De acordo. E este aqui próximo, com o bosque de castanheiros; castanheiros, não é? Vê, vê como nos entendemos?, da família das fagáceas, de tronco alto. Castanheiro castanho. Que grande planície em frente («verde», hem?, para si e para mim, «verde»: digamos assim, que entendemo-nos às mil maravilhas); e naqueles prados além, veja, veja aquele fogo de papoilas vermelhas ao Sol! – Hem, como? Casaquinhos de lã vermelha, tem razão. Tinham-me parecido papoilas. E a sua gravata também é vermelha… Que alegria há nesta frescura sem vivalma, azul e verde, de ar iluminado pelo Sol! Tira o seu chapelote cinzento de feltro? Já está suado? Ah, como está gordo, você, benza-o Deus! Se visse os quadradinhos brancos e pretos das calças no seu traseiro… Puxe, puxe o casaco para baixo! Vê-se demasiado.
O campo! Que paz diferente, hã? Você sente-se descontrair. Sim; mas se me soubesse dizer onde está!? Digo, a paz. Não, não receie, não receie! Parece-lhe que de facto há aqui paz? Entendamo-nos, por favor! Não quebremos o nosso acordo perfeito. Eu aqui só vejo, com sua licença, aquilo que sinto em mim neste momento, uma imensa estupidez, que lhe dá uma cara, e a mim também, com certeza, de felizes idiotas; mas que atribuímos igualmente à terra e às plantas, as quais nos parece que vivem por viver, único modo como podem viver nesta estupidez.
Digamos então que em nós existe aquilo a que chamamos paz. Não acha? E sabe de onde provém? Do simples facto de termos saído agora mesmo da cidade; quer dizer, sim, de um mundo construído: casas, ruas, igrejas, praças; o qual, porém, não só por isso é construído, mas também porque não se vive nele só por viver, como estas plantas, sem saber que se vive; é, sim, por alguma coisa que nele não existe e que somos nós que lhe introduzimos; alguma coisa que dê sentido e valor à vida; um sentido e um valor que aqui, pelo menos em parte, você consegue perder, ou de que reconhece a aflitiva inutilidade. E provoca-lhe langor, pois é, e melancolia. Compreendo, compreendo. Relaxamento dos nervos. Uma necessidade premente de se abandonar. Sente-se dissolver, abandona-se.  

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

FECHEMOS O PARÊNTESIS, excerto do romance «Um, ninguém e cem mil», de Luigi Pirandello

«Golconda», de René Magritte (1953)
Contudo, esforçar-me-ei para vos dar, podem crer, aquela realidade que vocês julgam ter, que é como quem diz, para vos querer em mim tal como vocês se querem. Não é possível, como já bem o sabem, uma vez que, por mais esforços que eu faça para vos representar à vossa maneira, será sempre «à vossa maneira» só para mim, não «à vossa maneira» para vocês e para os outros.
Mas, com a vossa licença: se para vocês eu não tenho outra realidade fora daquela que vocês me dão, e estou pronto a reconhecer e a admitir que ela não é menos verdadeira do que aquela que eu me poderei dar, aliás, que para vocês ela é a única verdadeira (e sabe Deus o que é essa realidade que vocês me dão!), querem agora queixar-se daquela que eu vos darei, com toda a boa vontade de vos representar, o mais que me é possível, à vossa maneira?
Não presumo que vocês sejam como eu vos represento. Já disse que vocês não são sequer aquele que representam para vós mesmos, mas sim muitos ao mesmo tempo, de acordo com todas as vossas possibilidades de ser, e com os acasos, as relações e as circunstâncias. Portanto, que desfeita vos faço eu? Vocês é que me fazem desfeita, por julgarem que eu não tenho ou não posso ter outra realidade fora desta que vocês me dão, a qual, podem crer, é apenas vossa, é uma ideia vossa, é a ideia que fizeram de mim; é uma possibilidade de ser, tal como vocês a sentem, como vos parece e como a reconhecem possível em vós, uma vez que, daquilo que eu possa ser para mim, não só vocês não podem saber nada como eu próprio não posso.

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A EXPLICAÇÃO, excerto do romance «Um, ninguém e cem mil», de Luigi Pirandello

A notícia daquele estranho incidente na Badìa Grande e de eu ter de lá saído precipitadamente, levando nos braços Anna Rosa ferida, espalhou-se por Richieri num instante, dando imediatamente pretexto para maledicências que, de tão absurdas, a princípio achei ridículas. Estava muito longe de supor que pudessem não só parecer verosímeis, como serem tidas por verdadeiras; e não apenas por aqueles a quem convinha pô-las em circulação e fomentá-las, mas até mesmo por aquela que levei nos braços, ferida.
Precisamente.
Porque Gengè, meus senhores, aquele estupidíssimo Gengè de Dida, minha mulher, alimentava secretamente, sem eu saber de nada, uma ardente simpatia por Anna Rosa. Dida metera isso na cabeça; Dida, que fizera essa descoberta. Nunca dissera nada a Gengè, mas confidenciara-o, a sorrir, à amiguinha, para lhe agradar e talvez também para lhe explicar que, se Gengè a evitava quando ela a vinha visitar, lá tinha os seus motivos: tinha medo de se apaixonar por ela.
Não me reconheço no direito de desmentir essa simpatia de Gengè por Anna Rosa. Poderei, quando muito, afirmar que para mim não era verdadeiras; mas nem isso estaria correcto, Porque efectivamente nunca me preocupara em saber se sentia antipatia ou simpatia por aquela amiga da minha mulher.
Julgo que já demonstrei suficientemente que a realidade de Gengè não pertencia a mim, mas a Dida, minha mulher, que lha tinha dado.
Portanto, se Dida atribuía ao seu Gengè essa simpatia secreta, pouco importa se para mim ela não era verdadeira; era tão verdadeira para Dida que a levar a encontrar nisso a razão pela qual eu me mantenha distante de Anna Rosa; e era tão verdadeira também para Anna que os olhares que eu por vezes lhe dirigia de fugida tinham sido em vez disso interpretados por ela como algo mais, pelo que eu não era o Gengè engraçadinho e tontinho que a minha mulher imaginava, mas um senhor Gengè infeliz que devia sofrer sabe-se lá que suplícios no seu corpo por ser considerado e amado como tal pela própria mulher.
Pois, se pensaram bem, isto é o menos que pode resultar das tantas realidades insuspeitadas que os outros nos dão. Superficialmente, costumamos chamar-lhes falsas suposições, juízos errados, atribuições gratuitas. Mas tudo aquilo que se pode imaginar de nós é realmente possível, ainda que para nós não seja verdadeiro. O facto de não ser verdadeiro para nós é motivo de troça para os outros. Para eles é verdadeiro. Tão verdadeiro que pode até suceder que os outros, se não nos agarrarmos com força à realidade que por nós mesmos nos demos, podem induzir-nos a reconhecer que mais verdadeira do que a nossa própria realidade é a realidade que eles nos dão. Ninguém teve, mais do que eu, experiência disso.
Vi-me, portanto, sem saber de nada, enamorado de Anna Rosa e, por esse motivo, envolvido no incidente do disparo na abadia duma maneira que nunca teria imaginado.
Dando assistência a Anna Rosa, depois de a ter transportado para casa em braços e estendido na sua cama, ter corrido a buscar um médico e uma enfermeira, e prestado os primeiros socorros que o caso requeria, também eu de repente senti ser mais que possível, verdadeiro, o que ela imaginara de mim em consequência das confidências de Dida: a minha simpatia por ela. E, sentado aos pés da cama, na intimidade cor-de-rosa do seu quartinho agredida pelo odor desagradável dos medicamentos, pude ouvir da sua boca todas as explicações. Em primeiro lugar, a do revólver na bolsinha, causa do incidente.
Como me ri com vontade, imaginando que alguém pudessem supor que ela o levar por minha causa, ao marcar-me encontra na abadia!
Trazia aquele revólver sempre consigo, na bolsa, desde que o encontrara na algibeirinha dum colete do pai, que falecera subitamente, havia seis anos. Pequenino, com o punho em madrepérola, muito luzidio e vivo, parecera-lhe um brinquedo, ainda mais encantador por encerrar, no seu bonito mecanismo, o poder de dar a morte. E confidenciou-me que mais de uma vez, em certos momentos não raros, em que o mundo à sua volta, por estranhas angústias da alma, lhe parecia estulto e vão, tivera a tentação de o pôr à prova, brincando com ele, sentindo nos dedos, na macieza luzente do aço e da madrepérola, a delícia do tacto. Mas que ele agora, não na têmpora ou no coração e não por vontade dela, tivesse podido, por puro acaso, mordê-la num pé, e para mais correndo o risco – como se receava – de ficar coxa, causava-lhe um desagrado invulgar. Acreditava que se tinha apropriado tanto dele que ele já não tinha, para ela, esse poder. Agora, considerava-o mau. Tirava-o da gaveta da mesa-de-cabeceira, junto à cama, olhavam para ele e dizia-lhe:
– Mau!
E porquê aquele encontra na abadia, no locutório da tia monja? E aquelas sete freiras que, em vez de se preocuparem por ela estar ferida, me falavam, como que obcecadas, da visita de não sei que Monsenhor?
Também tive a explicação para este mistério.
Ela sabia que naquela manhã Monsenhor Partanna, bispo de Richieri, iria visitar as velhas irmãs da Badìa Grande, como costumava fazer todos os meses. Para as velhas freiras, essa visita era como a antecipação da bem-aventurança divina; por isso, correr o risco de a estragar por causa do infausto incidente for a para elas a maior consternação. Fizera-me ir até à abadia porque queria que eu falasse imediatamente, nessa manhã, com o bispo.
– Eu, com o bispo? Mas porquê?
Para obstar a tempo aquilo que se estava a tramar contra mim.
Queriam realmente interditar-me, denunciando-me como mentalmente incapaz. Dida informara-a de que já tinham sido recolhidas e organizadas todas as provas, por Firbo, Quantorzo, seu pai e ela própria, para demonstrar a minha evidente incapacidade mental. Muitos estavam dispostos a testemunhar; até aquele Turolla que eu defendera contra Firbo e todos os empregados do banco; até Marco di Dio, a quem tinha feito doação de uma casa.
– Mas ficará sem ela – não pode conter-me sem fazer esta observação a Anna Rosa. – Se eu for declarado como mentalmente incapaz, o acto de doação será nulo!
Anna Rosa desatou a rir na minha cara, da minha ingenuidade. Certamente tinham prometido a Marco di Dio que, se testemunhasse como eles queriam, não perdia a casa. De resto, ele podia testemunhá-lo mesmo em consciência.
Olhei expectante para Anna Rosa, que ria. Ela reparou e pôs-se a gritar:
– Mas é claro! Tudo loucuras!, tudo loucuras!
Contudo, regozijava-se com elas, aprovava-as, e ainda mais se o que eu pretendia com elas era chegar realmente à maior de todas, isto é, arrasar o banco e afastar de mim uma mulher que for a sempre minha inimiga:
– Dida?
– Não acredita?
– Sim, inimiga; agora.
– Não; sempre!, sempre!
E informou-me que havia muito tempo que procurava fazer ver à minha mulher que eu não era aquele néscio que ela imaginava, em longas discussões que lhe tinham custado um esforço enorme para refrear o despeito que lhe causava a obstinação daquela mulher em querer ver, em tantas palavras e actos meus, uma idiotice que não existia, ou um mal que só um espírito deliberadamente inimiga podia ver neles.
Fiquei siderado. De repente, graças às confidências de Anna Rosa, vi uma Dida tão diferente da minha e contudo tão igualmente verdadeira que senti – nessa altura, mais que nunca – todo o horror da minha descoberta. Uma Dida que falavam de mim como eu nunca teria de todo imaginado que pudessem falar, inimiga, até, da minha carne. Todas as recordações da nossa intimidade comum desligadas e traídas de forma tão indigna que, para s reconhecer, tinha de supercar com despeito o seu lado ridículo de que antes não me apercebera e seconder uma vergonha que antes, quando eram secretas, não me parecera que devesse sentir. Como se à traição, depois de me ter induzido, confidante, a desnudar-me, escancarasse a porta e me expusesse à chacota de quem quisesse entrar para me ver assim, nu e sem ter com que me cobrir. E apreciações a respeito da minha família, e juízos sobre os meus hábitos mais naturais, que nunca teria esperado dela. Em suma, uma outra Dida; uma Dida verdadeiramente inimiga.
No entanto, tenho a certeza de que com o seu Gengè ela não fingia; com o seu Gengè era tal e qual como podia ser para ele, perfeitamente íntegra e sincera. Depois, fora da vida que podia ter com ele, tornava-se outra: aquela outra que ou lhe convinha, ou lhe agradava, ou realmente sentia ser para Anna Rosa.
Mas de que me admirava eu? Não podia eu também deixar-lhe, íntegra, o seu Gengè tal como ela o forjara e ser outro à minha maneira?
Era assim comigo, como o era com toda a gente.
Não devia ter revelado o segredo da minha descoberta a Anna Rosa. Foi ela que me tentou a fazê-lo, por aquilo que me deu a saber, tão inesperadamente, a respeito da minha mulher. Nunca teria imaginado que a revelação lhe produziria no espírito a perturbação que produziu, a ponto de leva-la a cometer a loucuras que cometeu.
Mas primeiro falarei da minha visita a Monsenhor, a que ela própria me instigou com muita insistência, como se fosse coisa que não tolerasse mais demoras.

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).