terça-feira, 30 de junho de 2015

[carreira literária é para mim um conceito estranho], diz J. Rentes de Carvalho

«Acredite ou não, eu nunca tive, não tenho, nem a poderia ambicionar, pois carreira literária é para mim um conceito estranho, oposto à ideia que tenho da condição de escritor. Quando vi o meu primeiro livro publicado, o choque que me causou foi de que me metera onde ninguém me tinha chamado, que não era ali o meu lugar. E durante muito tempo tive pelos escritores – eu não me considerava um deles – grande respeito e admiração. Tinha-os por seres superiores, refinados, gente que funcionava em alturas e ambientes que me atordoavam. Só desci à terra quando comecei a privar com eles e dei conta de que eram de carne e osso. E como todos os humanos, as mais das vezes de má carne e fraco osso.
De modo que carreira literária não tive nem tenho. Vou escrevendo como o faço desde o princípio, sem plano nem estratégia, pelo gosto que me dá, ora a ver se consigo um romance, ou se é hora de me deitar a um conto, uma crónica. Tão simples como isso.»

(J. Rentes de Carvalho, em entrevista à revista «Somos Livros», Verão de 2015, Bertrand Livreiros)

terça-feira, 23 de junho de 2015

[O remorso que os deveria levar a ler mais tarde], excerto de artigo de José Augusto Cardoso Bernardes


(…) Falo do contacto com o livro, enquanto unidade de pensamento e de discurso. Apesar de hoje o confundirmos com o suporte impresso, o livro conheceu já vários tipos de formato. Aquilo que melhor o caracteriza é justamente o facto de constituir uma unidade concatenada imputável a um autor (mesmo quando este é anónimo). Quer sob a forma de rolo quer sob a forma de códex quer ainda sob o novo formato electrónico, o posto do livro continua a ser o fragmento e a informação não autoral.
Embora possa acolher fragmentos (que muitas vezes sobraram de um livro ou não chegaram a transformar-se nele) e também jornais e revistas, mapas, gravuras e fotografias, a biblioteca guarda sobretudo livros.
Todos sabemos que o nosso tempo favorece o fragmento, seja em forma de capítulo, seja em forma de paráfrase por vezes já não imputável a nenhum autor. Esta mentalidade, que antes apenas prevalecia no Ensino Secundário, tem vindo a ganhar espaço nas universidades. Mesmo em áreas onde se poderia esperar que a sua implantação pudesse ser mais difícil (penso sobretudo nas Ciências Sociais e nas Humanidades) existem sinais abundantes dessa tendência. O estudante trabalha à base do ecrã, acciona motores de busca e cria a ilusão de que os dados que recolhe equivalem a conhecimento caucionado. Alguns professores não desistiram de verberar estes procedimentos, mas, muitas vezes de forma inconsciente, outros vão fazendo concessões que crescem de ano para ano. Basta olhar para a contracção das listagens bibliográficas da maior parte das cadeiras. Falo agora apenas das cadeiras de Letras, evocando o meu tempo de aluno, quando os programas eram acompanhados de longas listagens de estudos (na sua maioria, constituídas por livros) quase nunca hierarquizada; evoco ainda o meu tempo de assistente, onde me competia guiar os alunos por entre o emaranhado da bibliografia que o Professor elaborava, permitindo a quem se contentava com a mediania, dispensar a leitura de metade dos livros. Mas ainda sobrava quantiosa metade e as instruções de então iam no sentido de criar naqueles que não lessem tudo o remorso que os deveria levar a ler mais tarde. »

Excerto do artigo «A Biblioteca, a Universidade e o conhecimento em rede», de José Augusto Cardoso Bernardes (director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra), publicado na «Rua Larga» (Revista da Reitoria da UC), número 40, Julho de 2014

segunda-feira, 8 de junho de 2015

[Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas], poema de Herberto Helder


Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas, uma que rebenta floralmente branca à direita,
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro íngreme puxando o começo da noite e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia,
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro, quem
baixa a mão para quebrar um selo há-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e como pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo
– oh coração escarpado,
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite

Poema reproduzido do livro «Servidões» (Assírio & Alvim, 2013)
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OUVIR
Poema «Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas», de herberto Helder (dito por Fernando Alves): http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/quem-fabrica-um-peixe-fabrica-duas-532857