domingo, 2 de agosto de 2015

[Para abordar uma obra poética], apontamento de João José Cochofel

Evocação de um Poeta, de Mário Dionísio

Senhor da Serra, Agosto de 1954

Para abordar uma obra poética, duas atitudes são aparentemente possíveis: ou atermo-nos às inflexões do canto e ao que nelas haja de específico, de pessoal, de original; ou interessarmo-nos sobretudo pelo testemunho humano que esse canto encerre. O testemunho humano, porém, só se manifesta, só toma corpo e acaba por definir-se exactamente mediante os processos pelos quais se expressa. E é aqui que conteúdo e forma, que depoimento e técnica se confundem num todo inextricável. Inútil tentar dissociar ambos os aspectos. A sinceridade, a verdade, a eficiência do depoimento poético dependem visceralmente dos meios que o revelam, meios esses que lhe não são exteriores, mas sim a própria matéria em que tal depoimento se consubstancia. A dissociação é pois impraticável, excepto nos poetas menores, nos «fazedores de versos», que sobrepõem uma técnica dada a determinado pensamento que, só por si, não é nem deixa de ser poético, por estar ainda aquém da poesia. (…)

In «Opiniões com Data», João José Cochofel, Obras Completas [de] João José Cochofel, Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 1990.