sexta-feira, 27 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016

MEA CULPA, poema de Telo de Morais

















Dentro de mim há um mar
De limites
Que desconheço.

Volúvel e imprevisto
Capaz de mais fortes tempestades
Turbulentas, rebeldes,
Até à suave calmaria
Que o céu azul
Cobre com enlevo.

É o tempo das estranhas melodias
Trazidas pela brisa
Em que as sereias
Entoam cânticos de louvor
Ao deus Neptuno.

Velas que atravessam,
Vagarosas,
O horizonte em fogo,
Aurora boreal dos quadros
De uma romântica avó.

Mas, quando, súbita,
A borrasca de enxofre cai
E as águas se encrespam com violência
Nas vagas da ira
Naufrago e sucumbo,
Roda de leme abandonada
À sua própria culpa.

Depois,
E sempre,
O travo amargo da derrota,
De uma secreta vergonha.

Até que,
Mais tarde,
A calmaria bonançosa
Me devolve a paz desejada.

In «Estudo para Auto-retrato (Poemas)» (com prefácio de Andrée Rocha), edição do Autor (distribuidor: Livraria Almedina), Coimbra, Novembro de 1997 (1.ª edição).

UMA LETRA, poema de Telo de Morais














Entre a vida
E a sida
Apenas uma letra
De diferença.

Entre a sorte
E a morte
Uma letra também.

Maldita ortografia!

In «Estudo para Auto-retrato (Poemas)» (com prefácio de Andrée Rocha), edição do Autor (distribuidor: Livraria Almedina), Coimbra, Novembro de 1997 (1.ª edição).

LOUCURA, poema de Telo de Morais


















Sem loucura,
Não há heróis
Nem poetas.

Sem golpes de vento,
Não há velas
Enfeudadas
Que aportem
A destinos
Que os outros
Desconhecem.

Sem as asas
Do sonho,
Não se atingem
As alturas
Da beleza
Criadora,
Aos outros
Inacessível.

Sem loucura,
A flor murcha
O rio seca
O amor fenece
O mundo acaba.

In «Estudo para Auto-retrato (Poemas)» (com prefácio de Andrée Rocha), edição do Autor (distribuidor: Livraria Almedina), Coimbra, Novembro de 1997 (1.ª edição).

sábado, 21 de maio de 2016

[A catedral explica tudo, criou tudo e conserva tudo], excerto de «O Sonho», escrito em 1888 por Emílio Zola


Beaumont é formada por duas cidades completamente distintas: Beaumont-Igreja, na parte mais elevada, com a velha catedral do século XII, o Bispado, que data apenas do século XVII, e as suas mil almas apenas, apertadas, sufocadas no fundo das ruas estreitas; e Beaumont-Cidade, no sopé da colina à beira do Ligneul, antiga povoação que a prosperidade das fábricas de rendas e baptistas enriqueceu e aumentou, ao ponto de contar cerca de dez mil habitantes, com praças espaçosas e uma bela prefeitura de traçado moderno. Os dois cantões, o cantão norte e o cantão sul, quase só mantêm entre si relações administrativas. E, embora a umas trinta léguas de Paris – vai-se lá em duas horas –, Beaumont-Igreja parece enclausurada ainda nas antigas muralhas, das quais não existem senão três portas. Vive ali uma população estacionária, especial, que leva a mesma existência que os seus antepassados levaram, de pai para filho, desde há quinhentos anos.
A catedral explica tudo, criou tudo e conserva tudo. Ela é a mãe, a rainha, verdadeiro colosso no meio do pequeno aglomerado de casas baixas, semelhando uma ninhada, friorentamente abrigada sob as suas asas de pedra. Não se vive lá senão para ela e por ela; as indústrias não trabalham, as lojas não vendem, senão para a alimentar, a vestir, a manter, a ela e à sua clerezia, e, se ainda se encontram alguns burgueses, são os últimos representantes das multidões desaparecidas. Ela domina no centro, cada rua é uma das suas veias e a cidade só através dela respira. Daí esta alma duma outra época, este adormecimento religioso do passado, esta cidade enclausurada que a cerca, perfumada dum velho perfume de paz e de fé.
E, de toda a cidade mística, a casa dos Hubert, onde Angélica ia, daí em diante, viver, era a mais próxima da catedral, aquela que a sentia agarrada à própria carne. A autorização para a sua construção ali, entre dois contrafortes, tinha sido dada, outrora, por algum cura desejoso de estar mais perto do fornecedor da sua sacristia, mestre bordador antepassado desta geração de bordadores. Do lado sul, a massa colossal da igreja limitava o estreito jardim: primeiro, o círculo das capelas laterais, cujas janelas davam para as platibandas; depois, o corpo elegante da nave, protegido pelos arcobatentes, e, por último, a grande cúpula coberta de lâminas de chumbo. O sol nunca penetrava no fundo desse jardim, apenas a hera e o buxo cresciam aí, viçosamente, mas essa sombra constante que descia do pico gigantesco da abside, uma sombra religiosa, sepulcral e pura, que cheirava bem, era muito suave. Na semiobscuridade esverdeada, duma frescura calma, as duas torres deixavam apenas ouvir o toque dos seus sinos. Mas a casa inteira guardava a sua vibração, agarradas às pedras velhas, fundida nelas e vivendo do seu sangue. Ela estremecia às menores cerimónias; em cada uma das suas salas, embalando-a com um sopro sagrado, vindo do invisível, ressoavam as missas solenes, os acordes dos órgãos, a voz dos chantres e até mesmo o suspiro, sufocado, dos fiéis; e, através da parede, às vezes até pareciam escapar-se vapores de incenso. […]

In «O Sonho», romance de Emílio Zola (tradução de Maria do Carmo Santos), Colecção «Livros de Bolso Europa-América» (n.º 85), Publicações Europa-América, Mem Martins (Lisboa), Junho de 1974 (1.ª edição).