sexta-feira, 28 de outubro de 2016

[- Ó Manel!... A foice... dá-me a foice!...], excerto do romance Gaibéus, de Alves Redol

Ilustração encontrada em http://www.esquerda.net
 Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro de um fogo que alastrasse na Lezíria Grande. Como se da Ponta de Erva ao Vau a leiva se consumisse nas labaredas de um incêndio que irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte.
O ar escaldava; lambia-lhes de febre os rostos corridos pelo suor e vincados por esgares que o esforço da ceifa provocava. O Sol desaparecera há muito, envolvido pela massa cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se dissolvido no ar que respiravam, pastoso e espesso. Trabalhavam à porta de uma fornalha que lhes alimentava os pulmões com metal em fusão.
Quase exaustos, os peitos arfavam num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento.
A ceifa, porém, não parava, e ainda bem - a ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles próprios não a desejavam; se as foices não cortassem arroz, as jornas acabariam também. E se ao sábado o apontador não enchesse a folha, as fateiras não trariam pão e conduto da vila.
Então os dias tornar-se-iam ainda mais penosos e o degredo por terras estranhas mais insuportável.
Vencidos pelo torpor, os braços não param. Lançam as foices no eito, juntando os pés de arroz na mão esquerda, e o hábito arrasta-os em gestos quase automáticos, mais um passo e outro, a caminho da maracha que fecha o extremo de cada canteiro. Caminham sempre no mesmo balouçar de ombros; as pegadas do seu esforço ficam marcadas na resteva lodosa.
Talvez muitos deles pensem que o arroz deitado nas gavelas repousa primeiro do que os seus corpos. Se pudessem deter-se também, por instantes, e descansarem depois a cabeça nos montes de espigas que deixam atrás de si, a ceifa poderia animar.
Mas o bafo que vem da seara queima mais em cada minuto e as cabeças dos alugados pesam já tanto como o cabo das foices nos braços esgotados. Estão atafulhadas de amarelo, de pensamentos e de grãos de fogo que a canícula doente lhes insuflou no sangue.
Ninguém entoa cantigas para animar, embora os capatazes tenham incitado as raparigas cantaroleiras para o fazer. Nos ranchos não há agora quem saiba cantar.
Como podem as cachopas entrar em cantos ao desafio, se os peitos parecem fendidos pela fadiga e o ar que respiram se tornou lava do vulcão da planície?!
- Auga!... Auga!...? – gritam os rapazes aguadeiros.
Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.
Talvez por isso também as raparigas não cantem. Agora só saberiam canções tristes que lhes recordassem a sua condição de alugadas.
- Auga!... Auga!...
Os três gaibéus andam numa roda viva a encher os cântaros e a entregá-los às mãos suplicantes dos ceifeiros. As gorjas agitam-se na sofreguidão da sede, mas o travo amargo da boca não desaparece com a água choca e morna. O sol amolece tanto a água como os corpos dos ceifeiros.
- Auga!... Auga!...
Os rapazes vão de fila em fila e recordam-se da história do pai do Cadete. Só agora compreendem as suas aventuras de ladrão.
Para o ceifeiro rebelde os brados dos aguadeiros assemelham-se a gritos de socorro no meio do incêndio. Sente-se mais abatido do que os outros, porque compreende as causas da angústia do rancho e sabe que os outros sofrem mais. Ele tem um norte. E os camaradas ainda não encontraram bússola.
«Se todos a tivessem...»
O ceifeiro rebelde pende mais a cabeça para a seara, como se as torturas e as esperanças lhe pesassem.
As camisas e as blusas estão empapadas de suor. Os homens trabalham com as camisas abertas e mostram a cabelugem crespa dos peitos afogueados. As mulheres gostariam agora, mais do que nunca, de ser homens também.
A espaços metem as mãos nas golas das blusas e sacodem-nas, para que o ar, mesmo quente, lhes refresque os seios.
- Eh, lá!... Essas mãos!...
- Eh, gente!...
O ar fica a repetir aquela chicotada no silêncio opressivo. Nem um pássaro anda no ar. Não conseguem singrar agora naquele céu de metais em fusão.
Os pássaros não voam. Mas os ceifeiros trabalham.
A ceifa não pára - a ceifa não pára nunca.
O Agostinho Serra tem os seus encargos, fala deles a toda a hora, e se começa a chover apanha um boléu dos grandes. A Senhora Companhia não perdoa a renda da terra, haja o que houver.
De quando em quando, um deixa a foice e vai saltando as travessas para se ir abaixar a boa distância do olhar dos capatazes. 
E procuram todos o mesmo rumo. É que um deles passou ao companheiro do lado que na regadeira do meio a água ainda corre para os canteiros mais rezentos.
A notícia correu de ceifeiro em ceifeiro. Por isso levam todos o mesmo rumo quando largam a foice nas travessas.
Deitados de borco na linha que faz berço às águas, podem refrescar o rosto e molhar a cabeça à vontade. Um deles atirou-se para dentro da regadeira, querendo apagar a chama que lhe consumia o corpo. Quando voltou ao rancho, disse ao capataz que caíra à regadeira, numa explicação tola.
- Empeci num almeirão, seu Francisco.
- Vais fresco, vais. Largas-te aí com algumas sezões que não te ajudas com elas. Vai lá mudar de fato, homem.
- Obrigado, seu Francisco! Não vale a pena...
Pouco imaginativos, houve mais dois que tropeçaram no almeirão, E logo os capatazes se puseram à espreita.
- Nem mais um vai àquele lado. Quem se quiser abaixar, não passa do canteiro desta ponta. Ninguém os cobiça... Se o patrão soubesse desta paródia, era eu que o ouvia.
- Raio de danados!... Tenho aqui uma carga de abusões... - acrescenta outro.
A lâmina das foices vai cega de todo. Os punhos não podem dar luz, pois o vigor já morreu de há muito. Só impulso dos braços tomba as espigas.
A ceifa corre lenta. Dolorosa e lenta.
E os capatazes bramam.
- Com essa porrada já temos sementeira para o ano. É mais o arroz que fica do que o que vai na espiga.
Os ceifeiros não os podem ouvir. Os ralhos não os espertam, porque todos amodorram por igual. Homens e mulheres, novos e velhos.
Nos corpos não há tréguas. As pernas estão alquebradas e os braços quase bamboleiam sem ganas. Os troncos detinham-se a dores e as cabeças pendem como cabeças de enforcados. Nos rostos serzidos de esgares, os olhos apagam-se e as bocas resfolegam a quererem digerir o ar de lava.
E a ceifa não pára - a ceifa não pára nunca.
As velhas ciciam preces para que ela não pare - a ceifa é o pão.
Mas a ceifa corre lenta. Dolorosa e lenta. E os capatazes bramam.
- Eh, gente!... Vá de animar essas mãos, que isto assim vai de enterro. Porrada pequena!...
- Eh, Ti Maria do Rosário!...
Aquela velha ficara para trás a cortar o espaço com a foice, e não via nem ouvia.
Imaginava que nunca cortara arroz em toda a sua vida com mais frenesi - nem nos seus tempos de moça.
O capataz saltou ao canteiro e sacudiu-a. Ela volveu os olhos e o Manel Boa-Fé sentiu-lhe o bafo quente da boca.
- Então, Ti Maria do Rosário?!...
- Hum?!...
- Sente-se doente?!... Vá um quartel para o barracão... O corpo da velha sacode-se num estremecimento de pânico quando o capataz lhe fala em descansar.
Nem para ela nem para os companheiros a ceifa pode parar - a ceifa é o pão.
- Eu, homem?!
- Pois!... Ficou-se cá atrás... Ainda consegue andar- A velha vê os camaradas lá mais adiante, ora voltados à seara, ora voltados à resteva, naqueles movimentos que à distância parecem absurdos.
O cérebro diz-lhe que deve ir para junto deles, e depressa, mas as pernas já não obedecem ao seu mando. O capataz segura-lhe os braços magros e tira-lhe a foice.
- Isso não, Manel!... Isso não!... - clama a Ti Maria do Rosário num desespero.
O corpo treme-lhe, os olhos gotejam. Levanta as mãos numa súplica, não percebe o que faz e depois luta com o homem, desesperada.
- Ó Manel!... A foice... dá-me a foice!... A ceifa não pode parar - a ceifa é o pão.
Os companheiros continuam lá à frente, cada vez mais longe, a derrubar espigas e a amontoar gavelas.
- Auga!... Auga!...
De ceifeiro em ceifeiro, os três gaibéus oferecem água salobra e requentada que não mata a sede. Mas eles deixam-na escorrer pelo queixo e a água ensopa-lhes a camisa suada.
A figura da Ti Maria do Rosário, dobrada e trémula, torna-lhes mais penoso o trabalho. Cada um conhece nela o futuro que lhes baterá à porta, um dia. O futuro atabafa-lhes o peito, mais do que o ar ardente que queima os pulmões.
- Ó Manel... A foice... Dá-me a foice!...
Os outros vão Já adiante a ceifar sempre e ela quer ir na sua companhia. O capataz lá a largou, mas olha os camaradas cada vez mais ao longe; sombras que se perdem.
E depois não os vê. Para onde foram?!...
Mas há-de apanhá-los, tem a certeza, pensa que vão a fugir para a deixarem só, mas ela vai passá-los ainda, e então lhes fará ver quem sabe ceifar à carreira. Arrependem-se do que lhe fizeram, pensa a velha. E quando lhe pedirem que espere há-de desprezá-los.
Pela lezíria fora ficará uma estrada larga, aberta pela sua foice, por onde os outros correrão a chamá-la.
«Ti Maria do Rosário!... Ti Maria do Rosário!...»
Ainda não principiou o seu eito, mas já os vê junto de si. Ainda bem. Eles adivinharam o que lhes ia acontecer e voltaram depressa para trás. Ainda bem, não gosta de fazer mal aos outros, foi sempre boa companheira. Em toda a parte deixou amigos. E se pensava na desafronta, era só porque os companheiros se tinham posto a ceifar como máquinas e os perdera de vista.
Não falta muito: é uma corrida curta para se pôr à ilharga deles, ensinando-lhes como se traça um eito na devida conta.
Cada ruga que lhe goiva o rosto é uma safra onde moirejou. E as rugas não têm conta no seu rosto mirrado. Se se pudessem contar, saberiam todos quantas ceifas já fez.

In «Gaibéus», romance de Alves Redol, Colecção «Livros de Bolso Europa-América» (n.º 11), Publicações Europa-América, Mem Martins, Julho de 1971.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

[E os gaibéus são outra gente que não tratam por camaradas], excerto do romance Gaibéus, de Alves Redol

Foto encontrada em http://jf-vfxira.pt

         As mulheres andaram todo o dia de credo na boca, mas não choveu, nem borrifou.
As nuvens enrolaram-se e desfizeram-se, caminhando ora ao sul, ora ao norte, sem deitar pinga. O sol fora de trovoada, sufocando os ceifeiros, como se trabalhassem na câmara de um alto-forno, mas os trovões não acordaram o silêncio da Lezíria.
Até ao sol-pôr aquela dúvida tomou os ranchos do mesmo abatimento.
Agora o Sol já abalou e a chuva ainda não veio. A ceia é menos amarga que o almoço e o jantar – a malta ganhara um dia inteiro sem descontos. Aquela certeza empresta-lhes coragem.
Não há ordem do patrão para armar «brincadeira» e os ceifeiros invadem o barracão, desenrolando as esteiras, onde estendem os corpos amolentados pela fadiga. Se o consentimento viesse, ainda lhe dariam um jeito, que a dança sempre esperta energias e adormece pensamentos.
Alguns a preferem ao vinho - mas o vinho também não entra naquela emposta. Mesmo se tirassem à tripa, ia de mal aquele que usasse da pinga. O patrão quer os alugados leves de mão e direitos de cabeça.
A ceifa tem de ir a galope, senão chovem os quartéis suspensos e as represálias - lá se vai uma hora de sol ao domingo e a licença de um dia, se algum precisa.
Por isso alguns ceifeiros se deitaram nas esteiras, entretendo os olhos com o balouçar das teias de aranha que afestoam o travejamento carunchoso do barracão. Outros ficaram à porta a conversar nas mais diversas coisas da vida. Aproveitando o círculo de luz frouxa do candeeiro, as mulheres remendam as saias e as blusas esfarrapadas.
As palavras que trocam mal passam dos lábios; parecem recear que a noite acorde e a trovoada estale.
Os mais novos juntaram-se a um lado e olham-se mais do que falam. Os desejos emudeceram-nos. O amor para eles só conhece factos. É por isso que alguns estão deitados; nem conversam à porta.
É por isso também que lá fora, na negridão da noite, se movem vultos e se ouvem gemidos.
Os que ficaram, só olham e não falam, porque se lembram dos vultos que se movem na noite e dos gemidos que não ouvem, mas adivinham.
Pernas cruzadas, onde o bandolim se encosta, um ceifeiro vai dedilhando as cordas e pisando as escalas.
Solta-se dele uma música tremida, como a soluçar. Os outros pensam que, se o patrão desse ordem, ali mesmo se armava «brincadeira». Até se baila na cabeça de um tinhoso.
E talvez não sentissem as ferroadas das melgas e dos mosquitos que invadiram o barracão, às nuvens, e não lhes deixam sossegar as mãos a sacudi-los. Aquele zuído diz-lhes que as sezões não vêm longe e os quartéis parados pouco tardam.
O anúncio fica a cobrir os pensamentos e as palavras, amodorrando os alugados.
Eles não sabem se vem chuva, mas sabem que a malária, pelo menos, não falta. É tributo sagrado a pagar todos os anos à Lezíria. Quando pegam nas foices, têm de contar com as tremuras daquele frio nascido dentro deles e que os sacode, como nordeste a ramos de salgueiro.
Aquela vida só conhece uma certeza  as sezões. E se as mãos não estagnam a espantar os mosquitos e as melgas, os cérebros não esquecem que a paga do tributo vem breve.
O barracão tem as goelas abertas e as nuvens entram sempre. O zuído vai subindo, como cheia grande a galgar nos campos.
Aos ceifeiros parece-lhes que cobriu a música que o bandolim soluça e consome as palavras que trocam entre si. Só ouvem aquele som penetrante que lhes verruma a cabeça e os nervos estafados, para os aparafusar a um destino certo. Ali têm de ficar grilhetados à certeza que aos poucos se agiganta e os domina. A cada instante o zuído é mais poderoso e o seu eco mais distinto.
 São como terra!...
 Dá-se-lhes aí uma jantarada de fumo que até se amolam.
 São piores que sarna!... Praga danada!
Dentro em pouco uma fogueira crepita, no meio do barracão. O fumo sobe, penetrando tudo, pela água que atiram ao brasido.
Os ceifeiros tossicam, envolvidos por aquela bruma que abre clareiras nas nuvens dos mosquitos, e vêm para a rua limpar os olhos ardentes.
Picam em grupos, a assistir ao erguer do fumo que acinzenta cabides e alforges, esteiras e mantas.
A luz é um sinal de farol a gritar no nevoreiro que se não dissipa.
 Eh, gente!... Eh, gente!...
Os brados chegam às motas onde os rabezanos conversam.
– Lá está aquele a juntar o rebanho! Tem medo que fique alguém fora da malhada!...
E os rabezanos riem.
Estes já não afugentam os mosquitos, seus companheiros para a vida inteira. E os gaibéus são outra gente que não tratam por camaradas.
Se não fossem eles, mais braços da Borda-d’Água encontrariam trabalho na Lezíria. Os patrões querem pessoal que não tenha domingos e se alimente de jornas baixas.
Por isso as mondas e ceifas são feitas por gaibéus e carmelos. E os rabezanos procuram nas fábricas e nas descargas dos cais o que o campo não lhes dá agora. Ainda bem, pensam muitos.
Eles não podem olhar como camaradas os gaibéus e carmelos.
 Eh, gente!... Eh, gente!... Na mota, os homens riem.
Os ceifeiros voltaram a estender nas esteiras os corpos afadigados e a tosse contaminou-os.
As portas ficam fechadas e o fumo sai aos poucos pelas suas fendas e pelas frinchas do telheiro de zinco. O ambiente fica carregado e penetrou nos pulmões dos alugados.
O cheiro acre do fumo juntou-se ao suor dos corpos, empastado nas camisas e nas blusas.
De todo o rancho só faltam os três rapazes que dão a água e fazem a respiga, cujas esteiras continuam enroladas ao canto do barracão. O capataz já jurou que os não deixava entrar e decidiu meter as trancas às duas portas desmanteladas, por onde o fumo se vai libertando.
 Cá dentro não põem eles o pé. Quem quer galderice, o corpo é que paga. Uns fedelhos e ainda fora... Não faltava mais nada. Juntaram-se para aí a malandrar e amanhã não há quem os faça largar a manta. Uns fedelhos... Pois ficam ao relento, que é para aprenderem!
E deixou-se cair na esteira, estendida junto à porta. Cobre-se com a manta felpuda e mira, de esguelha, a ceifeira dos seus desejos. Mas ela está de costas voltadas e tem à sua ilharga a outra de saia rasgada com mancha de sangueira pisada.
 Raio de coisa!...
       O ceifeiro desdenhado, lá do seu canto, espia as cachopas, à espera que alguma se descomponha no descuido do sono. O Pananão gostaria de arranjar mulher que lhe desse carinhos, sabe trabalhar como poucos, é homem como os outros.
                                                                                                                               In «Gaibéus», romance de Alves Redol, Colecção «Livros de Bolso Europa-América» (n.º 11), Publicações Europa-América, Mem Martins, Julho de 1971.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA na visão crítica de Eduardo Pitta

Foto encontrada em http://www.snpcultura.org/

A mais recente colectânea de José Tolentino Mendonça (n. 1965), poeta e teólogo, abre com uma epígrafe da escritora católica norte-americana Flannery O’Connor, «O meu mal vem de mais longe», frase de origem não sinalizada, provavelmente extraída do volume de correspondência The Habit of Being (1978), organizado pela sua amiga Sally Fitzgerald. José Tolentino Mendonça dedica A Estrada Branca (2005) a Eugénio de Andrade. Como acontece com o poeta do Porto, também o autor de A Construção de Jesus goza do enfático succès d’estime. A coincidência do sagrado com o profano, simbiose tentadora, é uma das explicações possíveis desse reconhecimento. Agora tudo permanece ao rés da voz – também aqui um desejo de alteridade com o poeta de Ostinato Rigore –, móbil de comprometimento: «Clandestinos serão sempre os anjos de Iahwé // Enchem os primeiros autocarros para o centro / lêem o jornal de distribuição gratuita / à espera que de novo o mar se rasgue / num quarto sub-alugado da periferia / onde em vez de Corte Inglés e Continente os supermercados / se chamam Lidl ou Discount // É fácil detectar seu rosto transparente / pois pertence-lhes a solidão como um zumbido / imerso, inactual, impreciso […] uma espécie de fantasma / indivisível, muito para lá dos confins / embora o êxodo exija agora estrita documentação // Todos os textos conspiram contra a materialidade do corpo / por isso há quem acredite na sua ressurreição».
Alguns sinais davam conta do regresso da poesia portuguesa ao engagement político. Sinais menores, reciclando o pior do neo-realismo, fazendo de Bagdad uma nova Guernica e, desse modo canhestro, confundindo intervenção com poesia. O problema não está no empenho, mas no défice literário. Esses modos enviesados vêem-se muito ultimamente. O assunto vem à colação na medida em que José Tolentino Mendonça nos dá um livro comprometido, a tal ponto comprometido que o primeiro poema tem versos como estes: «O custo das casas / por incrível que pareça / sugere a possibilidade / de uma outra vida / a alma não mora debaixo do seu tempo […] os insignificantes flutuam / ao vento contínuo de Deus». A função social da Igreja, não raro subestimada, encontra aqui um acorde justo. E mesmo quando um poema hábil contrapõe estilistas (como Armani) a doutores da Igreja (como São João da Cruz), continua a ser no domínio das preocupações sociais que nos encontramos: «Regressamos a uma terra misteriosa / trazemos uma ferida / e o corpo ferido / imprevistamente nos volta […] para lá das nossas defesas».
Noutro registo, poemas como «O Esterco do Mundo», discreto envio à autora de Wise Blood; «A Destruição de Cartago», «Um Piquenique no Campo», «Santa Teresa e as Prostitutas», «Vidas Secretas», «Plumas», «A Senhora Blume» e «Via del Governo Vecchio» são do melhor que A Estrada Branca reúne. Exemplos de afirmação nítida do poema como «exercício de dissidência […] incredulidade […] apostasia». São esses os lugares do poeta.

In «Aula de Poesia», série de textos breves de Eduardo Pitta (com revisão de Carlos Pinheiro), Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2010 (1.ª edição).

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

LUÍS QUINTAIS na perspectiva de Eduardo Pitta

Foto encontrada em http://omelhoramigo.blogspot.pt/
Contando com as duas plaquettes que deixaram de vir referidas na bibliografia, Angst (2002) é o sétimo título que Luís Quintais (n. 1968) publica. E é com toda a probabilidade o mais conseguido. Depois de uma fase breve – aquela que corresponde aos dois livros de 1999: Umbria e Lamento – em que pareceu evidente certo risco de afasia, o autor reencontra o tom fluente de quem escreve com a certeza de ter chegado depois. Exactamente: «Num mundo sem explicação, escreverás / depois.»
Esse distanciamento reflexivo permite superar a coacção da angústia: «Havia o verão, o medo de um círculo / fechando-se em torno de nós. / Cada sentimento era somente / a pobre descrição de uma / imagem. Descia a luz sobre nós, / e em nós se repetia o rumor das cicadas, / o milagre das casas muradas / a toda a possibilidade delinquente […] Havia o verão e as cicadas e o perigo / de nos perdermos numa cidade hostil.»
Não será excessivo afirmar que é nos poemas em prosa que o autor se liberta da ganga da literatura, impondo uma dicção limpa de trejeitos citacionais. Mesmo se Borges é o pretexto: «Que sonhos escondem estes olhos cerrados a toda a luz? Dilatei o espaço, a ardósia sobre a qual o giz persegue a vida. Do pensamento fui distraído por tudo o que julguei ver. Cumpra-se este gesto. Ver é andar distraído como algum apócrifo autor está escrevendo […] É o arbítrio dos homens. Não o arbítrio do pensamento. Uma rosa? Uma rosa virá quando pálpebras se fecharem. Sonharei a cinza que recobre a imarcescível rosa. Afastarei o seu véu. Poderei contar-vos depois o que a soberba rosa vos recusa.»
Na terceira parte de Angst estão reunidos alguns poemas de circunstância: dois reportam explicitamente ao 11 de Setembro (um deles em clave justicialista); outro evoca Jonas Savimbi (herói retrospectivo?); outro toma como móbil o ano de 1961 (ano mítico para todos os naturais de Angola, como é o caso do autor). Escreve-se sempre contra o esquecimento?

In «Aula de Poesia», série de textos breves de Eduardo Pitta (com revisão de Carlos Pinheiro), Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2010 (1.ª edição).

CONVITE - Casa Municipal da Cultura de Coimbra, 22 de Outubro de 2016 (16h00): apresentação do livro de contos A IMPORTÂNCIA DOS PORMENORES SEM IMPORTÂNCIA, de Joaquim Manuel Pinto Serra


CARLOS DE OLIVEIRA visto por Eduardo Pitta

Fotografia encontrada em http://www.notapositiva.com/
Vinte e seis anos depois de Trabalho Poético, e passados dez sobre a reunião de toda a obra, João Pedro Mésseder organizou uma antologia de Carlos de Oliveira (1921-1981). Nunca é demais insistir no autor de Micropaisagem. A esta recolha, Mésseder deu o título exdrúxulo de A Leve Têmpera do Vento. É sintomático da importância da obra de Oliveira o facto de a sua relativa escassez não inibir o regular aparecimento de trabalhos desta natureza. Estou a pensar nas antologias organizadas por Giulia Lanciani (1975), Manuel Gusmão (1981), Gastão Cruz (1995) e Osvaldo Manuel Silvestre (1996). Os nomes falam por si.
Relativamente à selecção de Mésseder, dois pontos prévios. Primeiro: quando se trata de Carlos de Oliveira, todo o rigor é pouco. Segundo: não é sem alguma curiosidade que avaliamos a parcimónia do antologiador relativamente a duas sequências centrais: Cantata (1960) e Pastoral (1977). É evidente que todo o antologiador tem direito à sua «controversa mas inelutável prerrogativa», neste caso pouco explicitada na nota final. Globalmente considerada, a selecção é generosa. Podemos começar pelo fim: «Porquê? um tal volume / de águas […] Para abrir / depois, saber / da chuva numerosa / que fulgor perdura […] Se caminham; / com a sua aura de água / opaca; oprimem / o horizonte. Ou param / para germinar. E então; / irreparavelmente; / absorve-os o crepúsculo.»
Filho de pais portugueses, Carlos de Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, mas veio para Portugal com dois anos, fixando-se com a família na região da Gândara, onde o pai foi exercer medicina. Os primeiros textos datam da adolescência, época em que usou o pseudónimo Carlos Ganda para colaborar em jornais escolares. Mais tarde, já na Universidade de Coimbra, fez amizade com os neo-realistas, em particular Fernando Namora, que ilustrou a sua primeira colectânea, Turismo (1942), aparecida na colecção Novo Cancioneiro. Decerto não por acaso, a sua tese de licenciatura versará a estética realista. Quando em 1948 se muda para Lisboa, é autor de três colectâneas de poesia e três romances.
A notável sequência de poemas em prosa de Sobre o Lado Esquerdo (1968) influenciaria decisivamente alguns poetas mais novos – Luís Miguel Nava foi dos que melhor aproveitou a lição –, desse modo estabelecendo «uma relação dinâmica com outras [poéticas que] convergiram no sentido da renovação da poesia portuguesa no pós-neo-realismo e no pós-surrealismo.»
Testemunha privilegiada dos ominosos tempos da ditadura, Oliveira escolheu como seu o campo da esquerda, o desses «camponeses […] destinados às sepulturas rasas» cuja presença nunca beliscou a modernidade da escrita: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.»
Memória de «lagoas pantanosas, calcário e areia», a sua obra ilustra o «fulgor / das veias fatigadas / subindo à pedra», as «casas desidratadas / no alto forno», dois exemplos nítidos, entre outros, daquele tipo de imagem que atravessa o magma escasso (mas impressivo) do universo do autor. O processo de revisão da obra começou em 1962, quando reuniu em Poesias todas as colectâneas menos uma – Turismo ficou de fora –, e atinge mais alto conseguimento em 1976, o ano de Trabalho Poético, que recupera Turismo (em nova versão) e acrescenta dez inéditos.
À data da sua morte, 1 de Julho de 1981, talvez fosse mais conhecido como autor de Uma Abelha na Chuva (1971), entretanto adaptada ao cinema por Fernando Lopes, ou desse texto dificilmente catalogável que é Finisterra (1978). Porém, para os mais atentos, não era novidade que desaparecia uma das grandes vozes do século XX português. Assim esta antologia possa despertar o interesse de quem o conheça mal ou não conheça de todo.

In «Aula de Poesia», série de textos breves de Eduardo Pitta (com revisão de Carlos Pinheiro), Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2010 (1.ª edição).

sábado, 15 de outubro de 2016

«Veja lá se repete a gracinha», excerto do romance «Comissão das Lágrimas», de António Lobo Antunes

Foto encontrada em http://letrasinversoreverso.blogspot.pt/
– Em geral nestas idades principia a demência e os problemas acalmam
enquanto eu me indignava com o plátano da cerca a revelar baixinho
– Não permitem que converse contigo
de modo que inclusive no plátano silêncio, o bispo não deitado, de joelhos contra a porta, com a casa inteira atrás dele, subitamente inútil, não mencionando o recheio que de um momento para o outro não pertencia a ninguém, o espelho desocupado, o armário dos fatos
– Já não presto pois não?
o bispo um sapato calçado e um sapato descalço e os dois num ângulo impossível, não se calcula do que os defuntos são capazes, meu Deus as ideias que fazemos dos mortos, se as bailarinas do senhor Figueiredo finadas dançariam melhor, roçando o tecto com o tornozelo numa energia sem fim, porquê a minha mãe, pai, o que o interessou nela e o meu pai pasmado diante das fotografias nos cartazes da entrada com o nome das artistas por baixo, o meu pai
– Mostrem
e a recuar mal o porteiro
– Não queremos pretos aqui
desaparecido com os restantes portugueses nos aviões e nos navios de Luanda, depois de impingir aos polícias o relógio, as chaves da casa, os talheres, lembro-me de um jarrão embrulhado em jornais e de fotografias em molduras de loiça, lembro-me do pânico, da pressa e dos assaltos às lojas, do petróleo a arder sobre os corpos mestiços, lembro-me do meu pai a chegar do Cacuaco, da minha mãe substituindo botões e da ilusão de eternidade que a caixa da costura me dava, todos aqueles compartimentos, todas aquelas agulhas, olhava-a quase em paz, esquecida dos musseques e das garrafas de petróleo, a certeza que durávamos para sempre e nenhum mal acontecia, voltamos a Moçâmedes, diante do sossego das ondas e das contas dos búzios, se os encostasse à orelha o silêncio, o que recordo melhor de África é o silêncio e a minha mãe a coser, que harmonia nos gestos, que vagar a consolar-me, cortar a linha, certificar-se da perfeição do trabalho, continuar, a sombra da acácia amarela, a minha vida amarela, o meu contentamento amarelo, eu, aposto que amarela, a interrogar as vozes
– Sou amarela não sou?
ondas amarelas, areia amarela, coqueiros amarelos, mal o porteiro da fábrica, da modista, do escritório
– Não queremos pretos aqui
o meu pai contornou o quarteirão no sentido das traseiras e aninhou-se entre caixotes conforme costumava aninhar-se numa moita, com granadas no cinto, para emboscar os portugueses, escutando à distância a mina que uma palanca, desviada da manada, pisou e o planeta inteiro um sacão, o director da Clínica
– Como vamos nós?
a manejar o agrafador e a picar-se num salto, contemplando a pontinha de arame enterrada no dedo, a extrair a pontinha e a chupar a falange, horrorizado com uma mancha lilás, o director da Clínica reduzido ao dedo que a enfermeira desinfectava
– Vai doer um niquito
com uma bola de algodão e um líquido turvo, o director da Clínica
– E se não faz efeito?
soprando-lhe em cima enquanto a enfermeira o segurava numa repreensão branda
– O senhor director há-de ser sempre um menino
e os meus pais, depois do agrafador, sem confiança nele, o dedo com o penso não curvo como os outros, direito, a enfermeira a rolhar o desinfectante
– Veja lá se repete a gracinha

In «Comissão das Lágrimas», romance de António Lobo Antunes, Obra Completa (Edição ne varietur, de acordo com a vontade do autor; revisão filológica de António Bettencourt), Publicações Dom Quixote, Alfragide, Novembro de 2011 (6.ª edição).

«O seu marido não pertence à Comissão das Lágrimas?», excerto de romance de António Lobo Antunes

Foto encontrada em http://mundopessoa.blogs.sapo.pt/
– Continuas com medo?
e não tenho vergonha de confessar, continuo com medo a Cadeia de São Paulo diante dele agora, pessoas e pessoas não a fugirem, em corredores, em celas, tão difícil reconhecer os presos por causa dos inchaços, não mencionando os postigos estreitos, interrogo-me como a minha filha descobriu eu que me calei ou quando muito gritos mudos que ninguém escutou, será que as árvores e os objectos decidiram informá-la mas como se não saíram de Lisboa e por conseguinte nada sabem de África, em relação a África, de resto, há momentos em que duvido, palavra de honra, ter lá morado em tempos, desde há milénios este tabuleiro e estes vidros opacos e no entanto cada autocarro uma camioneta do Exército, cada automóvel um jipe da polícia, passei semanas a fio de açucena em riste nem todas sob a chuva, é verdade, mas quase todas sob a chuva e indiferente a ela dado que a Simone, dado que a Alice, Simone li nas fotografias do cartaz, a Alice mais tarde, a querida Alice que veio de Lisboa num barco de mulheres, cheio de lantejoulas e plumas, para os fazendeiros do café, ao mencionar a querida Alice logo o avô cego e os passarinhos do pão, aí vai ela carregando o joelho no sentido do quarto, há-de ser complicado transportarmos uma coisa não nossa, e senhora da embaixada
– O seu marido não pertence à Comissão das Lágrimas?
e pesada, e incerta, se cuidava que a não via um pedido de ajuda não calculo a quem, à Virgem que não nos fita, inquieta com a estreiteza do universo
– Não há lá fora a sério?
e não há lá fora, Senhora, há a Cadeia de São Paulo e o meu pai sentado com os outros, a uma mesa comprida, com duas lâmpadas no tecto tombando, em charcos pardos, sobre outros charcos pardos, inquirindo, sibilando, zangando-se com os presos dos corredores e das celas, quem procuraste ontem, com quem falaste, onde foste, as folhas da sua boca não
– Ai Cristina
não
– Como estás Cristina?
a que inimigo escreveste contra a gente, porque pensavas matar-nos e mais charcos, olhos que babavam saliva, murmúrios de palmeira sufocada, a seguir aos murmúrios de palmeira um silêncio vazio em que um barco com uma lanterninha de papel, perdão, um barco sem uma lanterninha de papel largava corpos na baía onde o mar agitava sementes de avenca contra a janela, no seminário as avencas o tempo inteiro nos caixilhos, advertindo
– Não entristeças Deus
com o da cama ao lado, mais baixo que as avencas
– Dá-me
e demasiados braços, demasiadas unhas, demasiado suor na sua nuca, nas costas, ele a pensar, aterrado
– Um dia destes Deus vai saber de certeza
porque as avencas sabiam e não gostavam de mim, as avencas
– És preto
numa arrogância que não cessava, não cessava, a minha mãe de joelhos e ele incapaz de consolá-la, ele preto
– O seu marido não pertence à Comissão das Lágrimas?
ele mandioca torcida nas esteiras, ele de pedra como em Lisboa, quase oitenta anos de pedra, ele com a mãe, hoje a engordar o capim, na cozinha do chefe de posto voltada aos girassóis e a seguir aos girassóis as mangueiras, em redor do seminário eucaliptos a concordarem
– És preto
o chefe de posto branco, a esposa do chefe de posto branca, a minha mãe preta, o meu pai preto que trabalhava num armazém a entregar os salários e não havia salários, não pagaste o imposto, gastaste o que sobrava na cantina e os palermas calados, nunca viu criaturas tão submissas, pedaços de calções, pedaços de camisas, um ou outro chapéu de palha sem palha, a que desgraçado o furtaste, gatuno, ele na Comissão das Lágrimas
– Queres os portugueses de volta em Angola?
a rapariga sem gengivas nem língua que só a pistola calou, não entendia a razão de continuar a ouvi-la em Lisboa, o que fizeste para que eu te oiça em Lisboa a não ser que o mar vos traga um a um, a missa no seminário às seis e um quarto da manhã e ele gelado, oxalá ninguém conte a Deus, oxalá não venha aqui e suspeite, Deus branco, como o chefe de posto e a esposa do chefe de posto, com a colher de girar a sopa no fogão ao alto, estende as mãozinhas, ladra, e um girassol a quebrar-se a cada golpe, inúmeras pestanas amarelas e a pupila de verniz descobrindo-me de súbito
– Mostraste?

In «Comissão das Lágrimas», romance de António Lobo Antunes, Obra Completa (Edição ne varietur, de acordo com a vontade do autor; revisão filológica de António Bettencourt), Publicações Dom Quixote, Alfragide, Novembro de 2011 (6.ª edição).

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Coimbra (Casa Municipal da Cultura), 22 de Outubro de 2016 (16h00): apresentação do livro «A importância dos pormenores sem importância», de Joaquim Manuel Pinto Serra


A editora Mar da Palavra e o autor Joaquim Manuel Pinto Serra convidam-no a estar presente no lançamento do livro de contos «A importância dos pormenores sem importância», em sessão pública a realizar no dia 22 de Outubro de 2016 (sábado), pelas 16h00, na Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura de Coimbra (à Rua Pedro Monteiro).
A apresentação da obra (que integra a colecção «Cais da ficção») será efectuada pela escritora Lina Céu (licenciada em Filologia Germânica e ex-professora do ensino secundário no Porto e em Coimbra).