terça-feira, 20 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS e um VERTIGINOSO, ESTONTEANTE, INESQUECÍVEL 2017...

A todos os nossos leitores, autores, ilustradores, paginadores, colaboradores das artes gráficas, livreiros e amigos, desejamos que se sintam felizes e capazes de retemperar forças para um novo ano.
É sempre actual a canção/poema de Ary dos Santos:

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

«poemas ocasionais», de Fernando Miguel Bernardes

(Nota introdutória)

VOZ A ECOAR PELAS QUEBRADAS…

       Dizem-se «ocasionais». De ocasião. Como suspiro d’alma que se dá, de quando em vez, perante o inusitado, ao ler uma frase sentida, ou, mesmo, diante do rumo ziguezagueante de uma Humanidade ora, cada vez mais, a desmerecer inicial maiúscula.
          Voz a ecoar pelas quebradas. Um rio. Já o imperador romano Marco Aurélio escrevia ser a vida qual rio torrentoso: mal acabas de ver a folhinha flutuante, ei-la que já lá vai e, em seu lugar, outra vem, em jeito de abalada.
          E importava parar.
          No parque duma cidade ergueram monumento ao ancião: um banco igual ao banco onde ele passava as tardes a ver as águas gorgolejar, a ouvir as aves trinarem ao desafio: «O octogenário / sentou-se / num tronco / a meditar» (p. 75).
          Para aí voou meu pensamento, ao saborear estes poemas ocasionais.
          Para um rio:
                    lavou avós lavou netos
                    regou no campo o esparteiro
                    rendilhou de verde os fetos
                    da cerca do fazendeiro   (p. 24).

          Para a Natureza:
                    na várzea dos olmos
                    os estorninhos
                    mostram-se esquivos:
                    sobem aos fios

                    e pousam
                    espreitam
                    em redor
                    receiam desafios (p. 74).

          Para a humanidade sem inicial maiúscula. A meter bem fundo o dedo na ferida, para que sangre deveras:
                    de armas na mão
                    e drones no ar
                    sem tripulação
                    e sabem matar

                    corpo-computador
                    frio e desumano…
                    quem o manipula
                    diz-se um ser humano (p. 72).
          
          Por isso, há
                     montes maninhos
                     verduras
                     transgénicas

                     frutas maduras
                     de intervenções
                     polémicas  (p. 65).

      Por aí vamos, embalados ao ritmo do soneto ou de rimas mais libertas, envoltas sempre, porém, numa suavidade que encanta.
         Fazemos nosso o libelo contra os parasitas:
       «Vérmina – disse o doutor, ao ser pelo doente consultado; vermes – disse o eleitor, ao ser, pelos que elegeu, parasitado» (p. 90).
          Lamentamo-nos, evocando o Coriolano de Shakespeare:
        «Eleito a falsas promessas, este no comando agora – ai, ai, Coriolano!... – eis, por fim, tudo às avessas, os cidadãos ao engano!» (p. 81).
       Sentamo-nos ao relento com o sem-abrigo, a ver a Lua: «Tu tens uma cama quente», diz ele, «e a mim o que me ajuda é um travo de aguardente!» (p. 14).
        Sonhamos ser o «construtor da habitação por vir, sem cerca ou alão de prevenir», porque «de todos tudo é e abundante será!» (p. 66); e sorriremos, confiantes de que, um dia, o «clarão aberto» vai mesmo deflagrar (p. 70), qual sereno desabrochar de «rosa rubra na lapela sobre o peito» (p. 92). Cumprir-se-á, assim, uma «última vontade», porque, entretanto, «da tundra ao Tibete», tu «disseste ao meu ouvido: ‘Amo-te!’» «e, do deserto, a cheiro a menta se evolou aos cumes mais elevados»… (p. 79).
          É assim a poesia de Fernando Miguel Bernardes – na perspicaz atenção crítica ao que o rodeia. E as suas palavras são sibilantes flechas certeiras; o objectivo: pôr de novo inicial maiúscula na palavra Humanidade, ao lado de uma outra, que com ela deve rimar também: a Liberdade!

José d’ Encarnação
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AUTOR:
Fernando Miguel Bernardes nasceu em Gândara dos Olivais, Leiria. Estudou nas Universidades de Coimbra e Clássica de Lisboa, onde se licenciou.
Como engenheiro geógrafo, foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo nessa qualidade feito uma pós-graduação em Cálculo Científico.
Docente de Informática no ensino superior particular, exerceu também funções de técnico superior de Sistemas Informáticos numa empresa de construção naval.
Foi ainda director de departamento de uma câmara municipal da Área Metropolitana de Lisboa.
Poemas de que é autor foram musicados e cantados, ou declamados, alguns com gravação em disco  ou DVD (Digital Versatile Disc), por artistas como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Manuel Freire, Daniel, José Jorge Letria, Samuel e José Carlos Ary dos Santos. 
Antes da Revolução de Abril, devido à sua ideologia e posições tomadas como resistente ao regime, foi várias vezes detido, julgado e condenado nos chamados Tribunais Plenários, tendo cumprido as sucessivas penas em prisões políticas de Coimbra, Porto, Lisboa e Caxias. Mais tarde, foi-lhe reconhecido, pela Assembleia da República, o «mérito excepcional da contribuição dada à defesa da Liberdade e da Democracia».
No seguimento da publicação dos seus livros para a infância e juventude, vem visitando escolas do ensino básico por todo o País, para, com as crianças, os pais e os professores, ler e comentar e dramatizar alguns dos seus textos, previamente explorados nas respectivas turmas.
Co-fundador da Organização dos Trabalhadores Científicos, é sócio activo de instituições científicas e culturais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, na qual foi inserido como vogal da Secção de Geografia Matemática e Cartografia, ou como a Associação Portuguesa de Escritores, sendo nesta membro efectivo da Direcção.
Integra e coordena habitualmente júris de prémios literários de âmbito nacional e internacional.