sexta-feira, 12 de maio de 2017

22 de Maio de 2017: Sessão pública de apresentação, em Benfica, do livro «Crónicas do Envelhecer», de Joaquim Manuel Pinto Serra


A editora Mar da Palavra e o autor Joaquim Manuel Pinto Serra convidam V. Ex.ª a estar presente no lançamento do livro «Crónicas do Envelhecer», em sessão pública a realizar no dia 22 de Maio de 2017 (segunda-feira), pelas 16h00, no Salão Paroquial da Igreja de São Domingos de Benfica (Rua Raul Carapinha, n.º 15).
No âmbito da apresentação da obra, haverá um apontamento musical propiciador do diálogo entre o médico-escritor e os leitores-ouvintes, na redescoberta das emoções e dos sentidos.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

NOVIDADE EDITORIAL: «Crónicas do Envelhecer», de Joaquim Manuel Pinto Serra



EXCERTO DE APRESENTAÇÃO

O jogo de xadrez é um retrato fiel das nossas vidas. Sobretudo, das vidas das pessoas de mais idade, aquelas já catalogadas de seniores.
Em escalada para a exclusão social, elas apercebem-se dos avanços e recuos das peças mais influentes. Conforme o contexto social em que se inserem, o estrato económico a que pertencem ou as políticas mais ou menos hostis delineadas pelos governantes ocasionais em qualquer momento histórico.
Sós, isolados por falta de apoio ou por inexistência de condições gregárias de sobrevivência, dizem em surdina o que pensam ou fecham-se nas suas profundas interiorizações, preservando a vulnerabilidade sentida em locais inventados para viver os últimos anos das suas vidas.
Em estratagemas mascarados de subtilezas hábeis e cerimoniosas, as peças deslocam-se tão lentamente que qualquer alteração mais precipitada é sempre fruto de uma súbita disfunção emocional provocada por acontecimentos desagradáveis. Acontecimentos que fugiram à rotina necessária para tudo correr bem, sem rupturas nos sistemas previamente estabelecidos.       
.......................................

O AUTOR:
Joaquim Manuel Pinto Serra Médico psiquiatra, é algarvio (Loulé) e reside em Lisboa.
Durante cerca de sessenta anos viveu em Coimbra, onde exerceu a sua actividade profissional. Aposentado da carreira hospitalar (chefe de serviço), desempenha, actualmente, funções clínicas no Hospital Privado de Loulé.
Como escritor, vê agora publicado o seu décimo sexto livro, uma colectânea de crónicas dedicadas
à problemática do envelhecimento num contexto de inserção dos mais velhos nas actuais comunidades. E onde se sentem marginalizados por deficiente interpretação do seu papel numa convivência intergeracional que se esperaria inteligente e solidária.
Motivado pelos estudos nos domínios da Gerontologia e da Gerontopsiquiatria, lecciona a disciplina «A Arte de Envelhecer» em várias Academias de Seniores, na cidade de Lisboa.
Essas experiências sensibilizaram-no para a publicação desta obra, dedicada aos mais idosos e à sua difícil integração numa sociedade incomodada com as longevidades concedidas, nos tempos actuais, pela Ciência.
.......................................

FICHA TÉCNICA
Livro: Crónicas do Envelhecer
Autor: Joaquim Manuel Pinto Serra
Ilustração da capa: Reprodução de pintura de Almeida e Silva.
Fotografia do autor na contracapa: Maria Apparecida Vidal Finck
Editora: Mar da Palavra - Edições, L.da
PVP: 16,96 €
N.º de páginas: 176
Formato: 14,5 x 21,0 cm
ISBN: 972-8910-75-4 (EAN: 978-972-8910-75-4)

.......................................

Registo de notícias e outras referências:
https://www.facebook.com/149325878444472/photos/a.401126863264371.88598.149325878444472/1396298607080520/?type=3&theater
http://www.bibliofeira.com/livro/684893365/cronicas-do-envelhecer/
https://www.wook.pt/livro/cronicas-do-envelhecer-joaquim-manuel-pinto-serra/19288447
https://www.bertrand.pt/ficha/cronicas-do-envelhecer?id=19288447

sábado, 25 de março de 2017

«Mar», poema de Vinicius de Moraes

Foto encontrada em www.midiorama.com
















Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

terça-feira, 21 de março de 2017

Excerto do capítulo sexto – «Terra Firme» – da novela «Casa da Malta», de Fernando Namora

 Foto encontrada em https://sol.sapo.pt

A princípio, o mar, a praia, o casario de madeira, o falar das gentes, tinham sido para ela um encantamento. Mas um ano depois já estava ao balcão como forçada. Era uma pessoa fora da sua terra. Doía-lhe a saudade das colinas, das vinhas que o sol fascinava, da voz do vento coada pelas ramagens, dos corvos do alto, das searas, da terra firme. Mas não lhe saía um queixume do peito. Ia à vila buscar os artigos, regateava um centavo, em pouco convencera o homem a alugar cas junto às dunas, e ainda ali ia persegui-la a voz do mar, ressoante do vento e dos búzios. De princípio, os pescadores, desconfiados da gente da serra, não entravam: preferiam outra venda no fundo da lagoa, que nascia de um braço transviado do rio, o dono tocava sanfona, fazia serenatas, até era chamado pela gente da cidade. Carminda, porém, queria vencer.
O homem troçava dos seus esforços, mordiscava-a:
– Anda, vai chamá-los…!
Mas Carminda queria regressar vencedora à sua terra e oferecer a capela a S. Brás. Levou um lindo galo à mulher do Clemente, fiscal do mar, um avental bordado à Mari Dolores, filha do arrais. E então eles foram-se encostando ao umbral da sua venda, entre o entrar e o não entrar, à espera da maré. E em breve metade do povo era seu. Vinha o enchido da serra e os homens gostavam do paladar. Cercou umas braçadas de areia da banda do norte da cas com tábuas espetadas ao alto; de noite, pegava num canastro e andava quilómetros para buscar terra, terra negra, terra onde pudesse crescer uma coisa verde. Plantou uma horta e uma dália. Uma dália vermelha, um ser vivo nascido da terra, que a aragem do mar esmorecia. Mesmo assim, era um sinal da sua ideia. Mais tarde, forrou a sal de jantar e o quarto a crespo e cal. Contava o dinheiro dia a dia, com as portas já cerradas, embora João António se revoltasse em silêncio contra aquela conquista das suas tarefas e direitos. Enquanto ele ressonava, indiferente, Carminda abria os olhos para a negrura das tábuas do tecto e entregava-se aos braços do sonho. Haviam de partir dali já com o dinheiro para a capela e par a compra da quinta da Mata. O marido nunca adivinhara esse ódio ao mar, aos pescadores, à lagoa adormecida. Julgava-a contente com aquele bem-estar. Por seu lado, criara amizades, gostava de uma caldeirada na praia com bom vinho maduro, dos camisolões de Inverno que espantariam os camaradas lá da aldeia. A ideia da terra ia-se esbatendo. Aqui, para ele, não havia enxada, nem penúrias, e o dinheiro entrava. Com a gravidez da mulher, mais se pegou ao mar: era ali a sua vida, a sua gente, gostava de contemplar as vagas do cimo das falésias, dava-lhe um saboroso quebranto físico. Na saída dos barcos para a pesca, quando as proas se empinavam às ondas, e o mulherio esbracejava, aos gritos, as viúvas agoirentas rezando nas dunas, então tremia. Mas até isso era grandioso.
E Carminda, agora, com aquela ideia de ter a criança na aldeia! Que fosse. «O meu filho.» Como se fosse uma coisa já viva, como se essa coisa já viva não pertencesse ao mar, ao povo que lhe tinha dado o pão, como se nem a ele, pai, pertencesse também. «O meu filho.» E falava com um rancor de posse, de ódio, aloucada. Que fosse, então. E ele, a bem dizer, havia de gostar desses meses de liberdade, dessas noites que passaria na cidade, como solteiro…

In «Casa da Malta» (novela), de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, s/d (15ª edição).

quarta-feira, 8 de março de 2017

[– Não custa limpar os pés como deve ser, pois não?], excerto do livro «Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz

Imagem encontrada em https://www.esfmp.pt

Os dias sucedem-se iguais, uns atrás dos outros, e a rotina infiltra-se na carne como música nas orelhas. O Verão deixa entrar o Outono na sua casa; e este, o Inverno; e a diplomacia das estações sucede-se.
Rosa corre pela chuva e chega à casa de Santos & Santos. Com a roupa molhada, tira, com alguma dificuldade, as chaves de uma mala demasiado cheia e abre a porta da rua. Fecha o guarda-chuva, sacode-o e encosta-o à parede, e depois tira o lenço que traz na cabeça e sacode o cabelo como fazem os cães molhados. Passa os sapatos pelo tapete e dirige-se à cozinha, mas pára porque ouve um grito. Vira-se, avermelhada, pois aquela voz é terrível. Dona Clotilde é responsável por todas as empregadas da casa. Cita filósofos alemães enquanto aspira. Gosta de Kant, apesar de dizer: aquilo não era um filósofo, era um relógio. Uma pessoa pode saber que horas são só por pensar como ele. Rosa ouve-a com paciência, engole os seus gritos de desespero pelo corredor que, acabado de limpar, está novamente sujo, com lama. No meio dos gritos ouve citações de Heidegger e até já sabe uma ou outra frase de Ser e Tempo e outras higienes. Dona Clotilde enviuvou ainda relativamente nova, não tinha mais de quarenta anos, mas deixou-se entristecer eternamente sem outro consolo que não a limpeza do mundo. Tem propriedades em Lisboa e não precisa de trabalhar, mas vê a limpeza como uma missão: quer limpar o mundo. E não há nada melhor do que o chão, pois é aí que o mundo começa. No fundo, dona Clotilde sente-se um símbolo, alguém que limpa a parte mais baixa de todas, aquilo que está ainda mais baixa do que os nossos pés, limpa aquilo que pisamos.
A lama é uma ofensa tremenda à civilização, e o carácter de dona Clotilde jamais permitiria a barbárie espalhada pelos patamares de mármore e corrimãos e flores de plástico. São milhares de anos de sociedades sedentárias, para depois andarmos a pisar toda a nossa História com sapatos sujos. Rosa suspira e recua para a entrada para voltar a limpar os pés, mas isso ainda irrita mais dona Clotilde. Está a fazer pior ao chão, na perspectiva de poupar o resto do corredor. O raciocínio pode ser correcto, mas ver aquele espaço da entrada a encher-se de sujidade é algo que dona Clotilde é incapaz de tolerar. A sua cara ruboriza-se e chega a levantar a mão, um gesto de que prontamente se arrepende. Por isso disfarça e transforma o seu movimento numa palmadinha nas costas de Rosa.
– Muito bem – diz ela. – Não custa limpar os pés como deve ser, pois não?

In «Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz, Penguin Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda. (chancela da Alfaguara), Lisboa, Novembro de 2015 (1.ª edição).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Excerto de «A história de Julieta, a Santa da Baviera», de Gonçalo M. Tavares

Foto encontrada em http://veja.abril.com.br

«Todas as coisas se trocam pelo fogo e o fogo troca-se por todas; como o ouro se troca pelas mercadorias e as mercadorias pelo ouro», lembrava-se ele de ter lido nos escritos do sábio. Confundida, assim, a morte com a vida, ele matava como o agricultor semeia. Roubava ouro, deixava-lhes o fogo. Como todas as más cópias, destruía com instrumentos que o sábio utilizara para construir.
Romeu da Baviera, o homem que se procurava a si mesmo, ambicioso; pretendente a sábio; seguidor de Heraclito, tornou-se conhecido como o duque do Fogo; o homem que queima até o que já não consegue fugir. Conquistou tantas cidades como ódios. Matou tantos homens quantos os que deixou com vontade de o matar.
Um dia, porém, o mundo mudou: o homem que desce o caminho fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele. Romeu da Baviera não crescera nessa sabedoria capaz de sair do presente: havia gasto já todas as alegrias. Agora era o momento de recordar as palavras do Evangelho de São Mateus (24.7): «Haverá fome e terramotos em vários lugares.
Mas tudo isto é apenas o começo das dores.» Para Romeu começara, então, o tempo das dores.
Atacado pelo exército do imperador Conrado III, rapidamente perdeu terreno e homens.
O resto, em parte, é conhecido. Conta-o Montaigne num dos seus ensaios. Movido pelo ódio, embora inda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas.
Que elas saíssem da cidade a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo (essa a sua vingança): incluindo os homens; incluindo Romeu.
A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.
Montaigne esqueceu-se (não terá visto): quando Romeu, o cruel duque da Baviera, se viu deixado para trás, abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que de tudo se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte. De imediato, no entanto, foi surpreendido pela terra, pelas mulheres. Uma mão feminina com rugas: era Julieta. Como nele, trinta anos nela haviam passado. Era agora velha, curvada, fraca. No entanto, carregou-o às costas. Corajosa. Ainda Apaixonada.
Montaigne fala de um perdão por parte do imperador, impressionado com a exibição de força e coração das mulheres da Baviera.
Sabemos, porém, que não foi bem assim. Deixou fugir todos os homens que as suas mulheres carregaram aos ombros, é verdade, excepto Romeu.
Julieta também ficou.
O imperador não era falador, era guerreiro, mas disse:
– Só se pode odiar a mulher que ama o inimigo.
Juntou, assim, os dois, no centro da cidade, amarrados por cordas um ao outro.
Ele próprio, o imperador Conrado III, acendeu o fogo. Dizem que com a mão esquerda, a mão que odeia.
O fim da história é evidente; não era já tempo dos milagres: Romeu e Julieta da Baviera morreram.

In «Histórias Falsas» (breves narrativas; desvios ficcionais na história da filosofia antiga), de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, SA (uma editora do grupo Leya), Alfragide, 2014 (7.ª edição).

«Dorme», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Imagem encontrada em https://www.dicio.com.br

podes dormir
dormir o dia todo
todos os dias
pelos dias

podes ir dormir
dormir
ignorando emoções
as lágrimas

continua a dormir
a dormir
para acordares
somente
quando sentires
a festa da morte
na tua face
                    até lá

segue a dormir
no desconhecido
respirando
tranquilamente

vá, dorme

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

«Arrabalde monótono 2», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Foto encontrada em http://www.conexaolusofona.org

cordas pregos pregos
e cordas barulhos mosquitos
varejeiras maus cheiros
sacos plástico ao vento

pregos cordas e cordas
borrachas farrapos antenas
latas de tinta barrotes
de madeira sujos cimentos

pregos pregos mais cordas
habitações sociais pocilgas
escaravelhos latas de salsichas
carreiros cardos e pregos

cordas cordas fios de nylon
folhas de jornal preservativo
isqueiro partido caracóis
uma canção abandonada

pregos cordas e cardos
o sol queimando memórias
câmaras de ar esqueletos

                      esqueletos
a obra-prima da morte

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

«Arrabalde monótono 1», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Imagem encontrada em http://reencontros-dinamc.blogspot.pt

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
cacos de vidro papelão
fios de corda dois passos

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
saco de plástico cavilha
madeiras e mais três

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
sola de sapato alumínio
lata de ferrugem passo

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
ossos de ave caracóis
colher passos à deriva

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
resto de janela varejeiras
brilhos sob um passo

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
folha de jornal oleado
encalhado na miséria

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
frente ao horizonte
mortos de pé sobre pés

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

«O sono do João», poema de António Nobre

Foto encontrada em http://ptjornal.com

O João dorme... (Ó Maria,
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!

Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

O João dorme, o inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe uma canção,
Os versos do teu Irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...

                                              Paris, 1891

In «Só», de António Nobre (revisão de Paulo Moreiras), «Biblioteca Metas Curriculares» (colecção composta por seis livros), Leya, SA, Alfragide, 2016 (edição especial de distribuição exclusiva pela Cofina Media, SA – nas bancas com o «Correio da Manhã», às sextas-feiras, de 7/10/2016 a 11/11/2016).
………………………………

VER E OUVIR:
«O sono do João» - com música de Sérgio Azevedo
Obra contemporânea interpretada pelos coros Voximix e Voximini no 2.º Concerto Final do Conservatório Regional de Castelo Branco, sob a direcção de Armanda Patrício e acompanhados ao piano por Nuno Miguel Freitas (em 12.06.2013).
LINK: https://www.youtube.com/watch?v=UGcYJj-rglU

Excerto do conto «O sorriso perturbador», de Carlos Tê

Foto encontrada em http://centenario.up.pt

Convenceu o editor a devolver-lhe a coluna, desta vez para escrever sobre artes plásticas. Teve de abdicar da avença ridícula que lhe pagavam pela colaboração. Reflectindo o mundo, o jornal estava cada vez menos virado para s minudências da cultura. Não raro, faltava espaço para ser publicado. Outras vezes as peças perdiam-se nos cacifos da Redacção. De nada lhe valiam os queixumes. A própria página de cultura era agora meia página. Chegou a integrar uma comissão de colaboradores que, apoiando o editor, foi reclamar mais espaço junto da direcção, mas deu de caras com o poderoso corpo redactorial do Desporto, que exigia mais espaço para o torpe noticiário dos meniscos fracturados dos futebolistas. E este corpo, enfim, estava acossado pelo crescente peso da publicidade, que se estendia das páginas centrais para as laterais ameaçando evacuar o jornal de conteúdo jornalístico.
Apesar de minguada, a coluna deu-lhe um lugar de direito próprio na tertúlia. Os seus alvitres sobre textura e cor eram ousados na medida certa. Esburgou a subjectividade do Cosmos em longas conversas, com incursões ao mito e à filosofia. A ele se deve o termo excogito, aplicado ao artista enquanto privilegiado inquiridor do sentido da arte. Tal como é sua a afirmação «o imaginário do artista plástico é mais profundo do que o de qualquer outro artista». Não teria o escultor sido tocado pelo divino ao esculpir o Discóbolo? Não o teria eleito Deus – supremo editor de obras-primas – para impetrar no mármore a transcendência do humano? Não teria sido a sua oficiante mão incumbida de cortar a diamante a infinitésima face do espelho que reflecte a estrutura prismática do universo?
Sobre tudo divagou Álvaro com essas almas que o viam agora como um par, e a quem ele retribuía com encómios na coluna do jornal. Aos poucos, foi-se transformando num guia espiritual daquela imensa minoria, onde trabalhar o silêncio aquífero das formas levava à beatitude, às cercanias do sorriso da musa – se bem que às vezes por baixo dessa beatitude latejasse uma ferocidade narcísica demolidora. Os galeristas procuravam-no, os colecionadores auscultavam-no, os artistas em começo de carreira cortejavam-no. Uma dica sua era um prenúncio estimável do humor dos mercados de arte.
Um dia, num assomo criativo, rebentou tubos e tubos de tintas numa tela. Mostrou o resultado – que lhe parecia excelente – a Jessica e a outros pintores, mas a entoação de voz com que o apreciaram tinha a natural frieza dos ditosos, o que muito entristeceu Álvaro. Pensar que podia ser tomado por um devedor de cubistas e dadaístas, um abstracionista dotado da ubiquidade do teórico e do prático, mas viu-se remetido ao insulso púlpito do não criador para comentar o objecto do desejo, sem poder intervir no sorriso desse corpo desejável.

In «Contos Supranumerários», de Carlos Tê, Colecção «Cadernos do Campo Alegre» (n.º 1), Fundação Ciência e Desenvolvimento (Direcção editorial: Conselho Directivo do Teatro do Campo Alegre), Porto, Abril de 2001 (1.ª edição).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

[o literato português discute sempre zangado], excerto memorialista de Manuel Teixeira-Gomes

Foto encontrada em http://www.historiadeportugal.info/

Mas começaram os encontros com literatos, única espécie animal com que tenho mantido relações – e ainda bem! – na capital lusitana.
Cumprimentos; paragem, aproximação de camaradas desconhecidos, e logo uma discussão longa e assanhada… Por via de regra o literato português discute sempre zangado, e é profissionalmente irónico. Espreme as ironias com uns cascalhados risos, à mistura, que se coalham perfeitamente. E como o literato terrestre, é maledicente. Vinha à balha a vida dos colegas ausentes, num estendal de crónica libertina, esforçando-se cada qual por provar, no que respeita a si próprio, que é pessoa decente, confessada e comungada.
Esses encontros levaram, naturalmente, pela boca da noite, à visita aos cafés, onde estacionavam alguns musagetas de maior nomeada.
Apresentações, cumprimentos, perlengas…
«Mal iria a quem trova se lhe tomassem todos os versos por História» - diz o Castilho no seu ensaio sobre Anacreonte.
Nas feições, ou nas expressões, dos nossos escritores de agora, em prosa ou verso, pouco se lhes pode descobrir que seja reflexo verdadeiro de seus sentimentos reais, ou dos lances de suas verídicas vidas. Compõem-se e disfarçam muito.
Enquanto literatos da geração de Camilo levavam uma existência desregrada, apregoando ao mesmo tempo os sãos princípios da moral cristã, os da presente geração – a de 1880 – pregando máximas subversivas de toda a organização social, praticam vida de exemplares pais de famílias, e disciplinam-se muito voluntariamente, nas fileiras da burocracia.
Mas tais contrastes sempre se deram em gerações subsequentes, e observam-se mesmo em tempos muito remotos, de anoitecida memória…
No cenáculo de que me aproximei, dera-se começo à habitual tarefa de insuflar espírito novo, e conveniente, aos diversos ramos da Arte; todos entrançaram, de improviso, um pensamento inédito na grinalda da renascença intelectual; e entre libações de aguardente de cana, ali se decidiu categoricamente do futuro das letras pátrias e… universais.
Um dos musagetas, cujo nome eu reputava respeitável, mas que não recebera dos meus companheiros atenção suficiente, separou-se do grupo, e foi tomar assento numa banca próxima, de onde nos ficou olhando entre arrogante e desdenhoso.
Inquiri, ingenuamente, da sua capacidade artística e intelectual, e logo outro musageta sentenciou: «Pretenso filósofo: é um espírito de pouquíssima superfície e profundidade nula…»
Sentia-me fatigado e sonolento. Sobre o conceito, a que aplaudi, fiz as minhas despedidas, já resolvido a evitar novos encontros literários, e adiando a leccionação prática, destinada ao velho poeta, decidi ir espairecer ao dia seguinte para Sintra.

In «Regressos», de Manuel Teixeira-Gomes (com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues; e notas de Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão Buescu e Vítor Wladimiro Ferreira), colecção «Obras Completas de M. Teixeira-Gomes», Bertrand Editora, Venda Nova, Dezembro de 1991 (4.ª edição – patrocinada pelo Instituto Português do Livro e da Leitura).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

«À LAREIRA», texto de José Gomes Ferreira

Imagem encontrada em http://eutambemtenhoumblog11.blogspot.pt/

Estou a escrever, sentado à lareira de Novembro na minha casa de fins-de-semana, construída num antigo pedregal de cardos e carrasqueiras onde, à custa do suor físico dos outros, sempre tão avidamente explorado pelos meus êxtases humanísticos, plantei algumas dezenas de cedros e pinheiros – estes agora cortados à socapa, para veniagas ou festarolas de peru, por irresponsáveis que nunca conseguiram olhar religiosamente para uma árvore. Rito que, devo confessar, só aprendi aí pelos anos 30, quando conheci um velho fidalgo que, certa tarde, para me provar a simpatia que sentia por mim, me convidou a acompanhá-lo a um parque que, no século XIX, pertencera ao palácio onde nascera e agora estava transformado numa feira de barracas de divertimentos populares.
– Venha daí comigo. Quero mostra-lhe uma coisa.
Segui-o até ao portal do Parque de Diversões, obrigou-me a entrar e, em dado momento, vi-o estacar diante de uma árvore densa de verde perfeito.
– Fui eu que a plantei em criança – disse-me, desvanecido, como se contemplasse o autêntico brasão da sua casa (era um jardineiro amador que cultivava rosas em segredo num jardim clandestino de paixões secretas onde, quando cheirava as flores, sentia bocas de mulheres a desfazerem-se em manhãs húmidas). – Tem mais de setenta anos – comentou ainda.
Não respondi, comovido com aquele amor de um homem por uma mulher vegetal que parecia entendê-lo, feliz, e bem diferente dos cepos de um muro próximo com dois ou três ramos secos, à espera de enforcados, ou das árvores de Raul Brandão que trepam pelas paredes dos hospitais para se alimentarem de dor, gritos e esgares doridos.
– É uma maravilha! – murmurava de vez em quando o meu companheiro amolecido pela frescura da árvore magnífica. O que, aliás, abria o apetite ao maldito diabinho torpe que nunca me larga, para me incitar a pregar-lhe um pontapé valente no tronco. – E pensar eu – continuava o fidalgo, agora indignado – que a maioria dos homens passa indiferente diante das árvores como se fossem meros objectos de plástico, fabricados às séries para enfeitar as avenidas. E não seres vivos, tão extraordinários que nem sequer sujam. Já reparou, não é verdade? Não estercam como todos os outros seres viventes deste mundo a que nunca faltam tripas e entranhas porcas. Os dejectos das plantas são as flores secas. As folhas que douram os caminhos do Outono… As pétalas em que a morte ainda é perfume nas rosas desfolhadas…
Assim falava o meu velho amador de ervas e jardins (ou estarei eu a inventar estas reflexões?) diante daquela árvore sagrada que ia mostrar sempre, em cerimonial de rito, aos amigos que admitia no seu templo. E eu concordava, enternecido.
Concordava, claro, embora com a comédia cínica do costume. Porque, neste mesmo instante, não hesito em lançar na lareira uma acha de árvore que vi abater, indiferente, não faz um ano. E ei-la ali agora desfeita, a dar as últimas flores e folhas em forma de chamas. Folhas, flores e frutos que me aquecem as mãos e, sobretudo, os pés – porque nesta posição de pernas alongadas, convenço-me mais facilmente de que estou a pensar. Não penso em nada, está bem de ver. Finjo apenas neste entremeio entre a fadiga e o sono que tanto se assemelha exteriormente à meditação de problemas profundos.
Em boa verdade, reparo pela primeira vez com olhos atentos nas raízes que ardem. Principalmente na maior, com cabeça de dragão a golfar labaredas da boca, dos olhos, das orelhas. Um autêntico monstro que o entreouvir do ranger do vento no cedral torna mais sinistro.
Então, semiadormecido, escalda-me o pavor de que o esfervelho daquele bicho, que parece filho da tarântula e caranguejo, o convença a saltar-me ao pescoço para me sugar os gorgomilos.
Ao lado, outra raiz, movida pelo lume, parece uma aranha de patas molengonas, disposta a sustentar um combate singular com um monstro de lança em riste, criado por um satanás louco qualquer.
Sempre considerei as raízes misteriosas – principalmente, quando nestas horas de fadiga nocturna, lanço uma olhadela para as que juntei num cesto de Miranda do Corvo onde se amontoa a lenha.
Sim deixem-me empregar a palavra «mistério» que me parece a única possível para, embora não explicando coisa alguma, amortecer o meu pasmo de saber que ali, naqueles invólucros negros, se concentraram durante anos e anos de Primaveras e Outonos o verde e o ouro das folhas, as cores várias das flores, o veludo da pele dos frutos.
Meio sonolento tiro do cesto um polvo terroso e deponho-o com terror disfarçado (é preciso que a família não perceba) naquele inferno miniatural que afinal – ai de mim! – nestas noites de Novembro (neste maldito Novembro do Termidor) me aquecem mais do que o céu. Pouco a pouco os olhos cerram-se-me com o calor. Mas reajo. Não, não quero dormir. Abro-os com denodo, a ouvir magoado o crepitar das raízes-bichos… Estamos no fim da Revolução… E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.
Mas o sono não desiste… E no negrume dos tijolos refractários da chaminé em frente, vejo desenhar-se de súbito, com o giz de me sentir adormecer, uma raiz quadrada, uma horrenda raiz quadrada que em criança, na escola, nunca consegui resolver. Nem agora, na velhice. Nem nunca!
Adormeço lentamente – com o coração sempre acordado, desejoso do futuro acordado para toda a gente que, medrosamente, já ninguém espera. Ninguém…
Entrámos na era dos pequenos sonhos medíocres para gente de imaginação pobre.

In «Revolução Necessária / Intervenção Sonâmbula», colectânea de crónicas de José Gomes Ferreira, Obras de José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores (licença editorial por cortesia de Publicações Dom Quixote), Lisboa, Setembro de 2004.